domingo, 6 de fevereiro de 2011

O diário das madrugadas de Doidivano II (ou As artes do acaso)



Link para O diário das madrugadas de Doidivano I:
http://atelhafb.blogspot.com/2009/02/o-diario-das-madrugadas-de-doidivano-ou.html.

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13 de março

É... já faz um mês. Eu não paro de ficar pensando nisso. Ela realmente ficou chateada naquela noite. Ficou mais do que chateada: ficou puta mesmo. Queria arrancar meus cabelos! Mas não a culpo, fui impulsivo de uma maneira insana, reconheço (...). O difícil será não tê-la como idéia fixa a partir de agora. E acredito que tomar álcool para esquecer uma mulher é que nem passar bicarbonato de sódio na afta: a dor passa, mas a ferida fica.

14 de março

Ouço o estalo da minha coluna como um carrilhão de ossos ao me erguer da calçada. Cansei! Esta foi a última vez que esperei aquela música daquele prédio. Há dias não a escuto. O que será que aconteceu? Deve ter mudado de casa, provavelmente, nosso pianista. Ou nossa, né? Excito-me com essa possibilidade. Mas eu acho que minha relação maior era com a música mesmo. Com a pianista seria só sexo.

15 de março

Sabem, andei pensando, enquanto caminhava hoje pela rua: tomar cerveja, ou qualquer outra bebida alcoólica, faz você se aproximar mais de você mesmo, de quem você é na verdade. Mas existe certo ponto limite. Se tomar mais do que deveria, você vai se aproximar tanto de ti mesmo que seu corpo e sua mente vão te rejeitar. Eles não vão tolerar tanto você. Aí vem o enjôo, o vômito, etc. É uma explicação. É uma boa explicação. Sei que é mentira, mas ficou realmente uma boa explicação.

16 de março

Nada por aqui de novo. E ali, e ali e ali. Andar por aí está começando a ficar chato. Nem medo mais eu tenho. Isso me permite dar mais gás a certos pensamentos vagabundos. Por exemplo: tempo. Não se pára o tempo. É impossível. Mesmo que ele pare por 3 segundos, ele não permaneceu 3 segundos parado, e sim estendido por mais 3 segundos. Nós contamos 3 segundos para medir essa interrupção. Ou seja: usamos o próprio tempo para comensurar uma imaginável situação de congelamento do tempo. Uma perfeita contradição. Motivo pelo qual ele, o tempo, não estaciona jamais (...). Estou bêbado, não liguem.

17 de março

Hoje algo aconteceu, e algo interessante: de repente, ouço uns gritinhos atrás de um morro. Subo-o e o que vejo? Justamente um casal fazendo sexo num matagal! Sim, achei estranho. Seria muito cômodo até mesmo dentro do carro, mas no mato? Vai entender... Graças à iluminação forte de um dos postes, estava tudo nítido, deu para ver tudo. O timbre da voz da mulher era perfeito para interjeições sacanas. E aquela pele! Deu pra ver o busto dela avermelhado quando ela ficou cavalgando por cima do cara. Sim, uma maravilha! (...) Depois de consumado o gozo de ambos, tratei logo de me retirar. No caminho fiquei pensando sobre voyeurismo e personagens tarados da literatura. Sabem, não tenho muito apreço por personagens tarados. Tenho uma grande implicância com eles e seus relatos. A literatura tem muito deles. Não que eu não goste de sexo ou falar de sexo, óbvio. Acredito que todos gostem de sexo. Ou não, como diria Caetano. Tem cada coisa nesse planeta que a gente nem imagina. Se há gente que tem até alergia de água, não é? Não duvido de nada nesse mundo. Mas existe gente que desconfia mais do que devia da subjetividade. Problema deles. O que mais há em entrevista é pessoal com essas frases de efeito: “nunca confie em quem nunca tomou porre”, “não acredito em quem me diz que não se masturba”. Não sei se dizem para parecerem interessantes ou porque sentem isso mesmo! Sei lá! Mas sim, personagens tarados! Odeio. Ponto.

18 de março

‘Tô me lembrando agora de uma frase de Henry Miller: “se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”. Arrogante! Quantas vezes não masturbamos as palavras traçando esboço de textos visivelmente medianos e que no final não dariam em nada? Isso é necessário em qualquer criação! Dane-se esse tal de Henry Miller. Quem nessa vida parte logo para o sexo? Geralmente a masturbação acompanha o início da nossa sexualidade, não é? Há uma graduação, pois. Uma coisa de cada vez. E todas as palavras voltam a ser virgens, meu caro, sempre que tentamos usá-las de novo.

19 de março

Hoje aconteceu algo novo: encontrei um transeunte vindo da esquina de uma rua. Veja só: ele veio caminhando em minha direção, aparentemente despreocupado. Dava para ver que ele estava fumando. Ao passar, perguntei se ele poderia me dar um cigarro. Puxei uma conversa. Perguntei o que ele fazia ali. O cara riu e disse-me ser um artista ou algo parecido, e que estava agora relaxando, após ter concluído uma grande obra. Quando o interpelei sobre que obra tinha sido essa, ele me veio com um papo muito estranho, perguntando-me que tipo(s) de expressão me fascinava (m), e qual ou quais eu gostaria de emoldurar dentro da minha mente. “Ué, não sei”, respondi. “Qualé!”, ele protestou. “Tente se lembrar, você deve ter!” Arrisquei, então, um fetiche que tenho: “gosto quando a pele de uma mulher fica avermelhada. Não chega a ser uma expressão, mas é o que eu tenho”. “Em qual ocasião você gosta de ver a pele vermelha?”, ele perguntou “Não sei, todas, eu acho.” “Estaria interessado de ver isso sob um ponto de vista bem intenso?”, indagou-me. “Humm, não sei, talvez”, respondi. “Encontre-me então aqui às 3h da manhã daqui a três dias. Acho que você poderá gostar do que vai ver”, prometeu ele, apertando minha mão, para logo depois ir embora.
Fiquei curioso...


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Ps: gostaria de oferecer os créditos a Arian Carvalho por ter criado a sentença que fecha o discurso do dia 13 de março. Ele não se lembra que a fez, como já me revelou recentemente, mas eu a anotei rapidamente. Achei ela boa demais para ser esquecida.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Expressão II (ou A dança louca das chagas)


Observação prévia: este post e mais os dois que virão nas próximas semanas estão interligados.Para poder acompanhar a trama dessa história, aconselho vocês a lerem - se não tiverem lido ainda ou se vocês não se lembram dos detalhes - os contos Expressão (http://atelhafb.blogspot.com/2009/03/expressao.html) e O diário das madrugadas de Doidivano (http://atelhafb.blogspot.com/2009/02/o-diario-das-madrugadas-de-doidivano-ou.html), que são o início, digamos assim, de tudo isso que vai ser interligado aos poucos. Espero que gostem do desenrolar dos fatos. Grande abraço! PS: peguei essa foto dessa página aqui: http://100brakes.blogspot.com/2010/09/vende-se-um-grito-usado-em-outras.html
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- Não se mexa tanto, doutor, espere... Pronto! Ótimo! Vamos agora para o pescoço, fiquei curioso agora para ver como você se comportará se eu estimular essa área...
O artista continuou olhando fixo para os olhos ávidos por ajuda do doutor, enquanto descia a faca para a garganta deste. Deu uma série de quatro cortes rápidos, partindo de baixo para cima, como se estivesse rubricando a pele. O sangue de cada pequena chaga, de cada risco em forma de ferida, aos poucos, se juntava.
- Será que tentamos mais forte? Humm... Acho melhor não. Não agora. Vamos tentar um corte vertical, começando no nível das clavículas e indo até a região do púbis, ok? Só para demarcar a área que mais irei trabalhar em você. É, acredito que não usarei os braços nem pernas... Pronto? Vou aplicar um pouquinho mais de força agora.
O urro do doutor ecoou feio pelo quarto mal iluminado.
- Consegue ouvir de longe esse barulhinho de sax? Bem baixinho mesmo? É meu amigo praticando ao lado. Na verdade ele treina aqui, mas sempre quando tenho que trabalhar em alguma obra minha uso este quarto. Ele tem um bom isolamento acústico. Eu que o projetei.
Os olhos fechados e tensos do doutor revelavam que aquela dor ele ainda não esquecera – e que ainda não se fora.
- É, reconheço que está difícil ouvir o barulhinho... – disse o artista, enquanto ficava passando bem de leve a faca sobre o peito de seu modelo, sem ferir.
– Pois bem, esqueçamos o sax, concentremo-nos aqui. Está se lembrando dos passos do meu processo, doutor? Eu lhe disse tudinho lá no Hospital Psiquiátrico, lembra? Ah, o Hospital... Foi relativamente fácil escapar de lá. Era só ter os contatos certos e a quantidade certa de propina... – comentou, dando um sorriso de canto de boca. E completa:
- Daí pra achar onde você morava foi um pulo...
Silêncio. O doutor voltou a olhá-lo. Longe daquela imagem respeitosa de médico que o jaleco branco impunha, ele parecia um rato de laboratório sujeito a uma experiência, com os braços, pernas e boca amarrados. Inútil tentar se soltar. O que o prendiam eram grossas correntes. E ele não estava deitado, mas em pé, com todo o corpo nu encostado na parede.
- Não posso perder tempo. Vamos ao trabalho?
Dirigiu-se, então, ao seu estojo de facas. Comparou-as longamente e finalmente decidiu qual usar. Rapidamente, com uma precisão virtuosa, traçou vários riscos partindo daquela grande ferida vertical. Esses riscos afluentes eram todos ondulados e sem um padrão fixo. Pareciam ondas de amplitude e comprimento absolutamente variáveis. Ondas que acabavam nas laterais do tórax e que se revelavam mais profundas no final. Ao se aproximarem do abdômen, as feridas em formato de ondas passaram a ser linhas curvadas e a terem como um único final um ponto determinado no início do púbis. O sangue brotava continuamente dessas chagas delgadas e o artista começou a espalhá-lo com o braço de forma cada vez mais rápida e aplicando uma pressão cada vez mais forte. Como se não fosse suficiente, passou a fazer riscos paralelos à primeira chaga meridional, para logo depois pegar um ralador de queijo e passar a esfregar veementemente no peito do doutor em pontos estratégicos. Com gosto, derrama limão e álcool na sua obra. Em seguida, espalha tinta branca para dar uma leve clareada no vermelho-escuro característico do sangue, ao mesmo tempo em que joga tinta verde pra dar um contraste maior. O artista bufava de cansaço, mas não parava. Incessantemente seguia com uma obediência militar toda sua inspiração. Novas idéias iam lhe surgindo, e em conseqüência outros instrumentos de seu repertório eram usados. Depois de um tempo - contrariando o que tinha dito - começa a se dedicar aos braços. Passa a aplicar golpes certeiros em cima deles usando a lâmina de uma faca realmente monstruosa, ocasionando novamente novas chagas paralelas, só que cinco vezes mais profundas!
O som que saía da boca do doutor, seu choro, sua expressão... Eram de fazer o diabo tremer nas bases só de agonia.
- SIM! SIM! MAIS! – e tratou de se dedicar mais ao pescoço, como tinha prometido. Troca de faca. Pega outra, só que dessa vez pequena, e inicia uma série de riscos horizontais ao longo da garganta. O sangue se faz presente num horrendo irrompimento.
-ISSO! – e joga longe sua faca, enquanto tira uma arma calibre 32 da calça. Observa ainda por uns segundos todo o resultado que brotou de seu agoniado modelo por meio de suas mãos e não se contenta: chora!
- Lindo! – e dá um tiro na glabela do doutor. Precisamente na glabela.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Contrição


Meu amor, fui um idiota. Eu deveria saber que um dia não suportarias mais minhas ausências. Minhas faltas. Meu amor, te peço perdão por tanta frieza. Por acreditar demais que o que tínhamos era eterno, não me preocupei em cuidar para que assim permanecesse. Não cultivei, apenas mantive. Amor, perdoe por não ter te levado para ver as estrelas. Por não ter te dado um buquê de rosas vermelhas. Pelo perfume que tu gostas e eu não usei. Por não ter elogiado teu vestido novo. Por nem saber que teu vestido, ou teu corte de cabelo, eram novos e pior, achar que isso não fazia diferença. Perdoe por te levar para jantar fora na terceira quinta-feira de todo mês. Perdoe por buscar sexo em ti, quando querias amor. Perdoe quando nem isso busquei. Não, amor, não é nenhuma brincadeira. Nunca falei tão sério. Preciso pedir perdão, preciso que saibas, amada, oh, como eu chorei quando foste embora. Quando deixaste nosso lar e eu vi cada mínima coisa, e senti teu toque em cada coisa e só então entendi aquela música que tanto gostavas e que toquei para ti ao piano quando namorávamos, lembra? Meu Deus, será que ainda sei tocar piano? Aquela música, meu amor, eu vi do jeito que tudo ficou, eu senti a tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou e percebi que até nossa casa já estava acostumada esperando você. Eu só quis morrer esses dias, amor. Só morrer. Talvez não signifique muito para ti agora, mas limpei os azulejos do banheiro e pintei as portas da casa todas com aquele azul claro que tu querias. Aparei a grama, tudo está tão do jeito que você queria, amor, e muito mais eu posso fazer para que me perdoes. Tudo que quiseres. Não chora, amor. Não chora, por favor. Também está sendo difícil pra mim, mas saibas que se há algo para perdoar de minha parte já foi feito. Sei que nem se compara ao perdão que precisas me dar, mas eu queria que você ficasse ciente disso também. Sabe, amor, me peguei pensando depois que tu foste embora (e esqueceste tanta coisa, amor, tanta coisa tua que ficou lá na nossa casa que eu sabia que no fundo não poderia estar fazendo aquilo a sério) em tudo que fizemos no começo do nosso namoro, de quando consensuamos morar juntos, de nossa felicidade pintando juntos o apartamento, de como morremos de rir ao ver o resultado depois e acabamos tendo que gastar mais que o dobro, comprando mais tintas e contratando um pintor profissional. Que besteira, amor! Mas foram tantas risadas, tantas risadas que, ah, meu amor, só me fizeram chorar esses dias, só chorar mas rindo um tanto também, amor. Só quis morrer, só morrer. Mas morrer não adiantaria, amada, pois eu tenho certeza que minha alma não descansaria com tão grande amor envenenado no peito. Não, amor, não chore e não tente fazer isso, vai se machucar. Por isso que eu tinha que ir lhe procurar, amor, eu decidi que lutaria por ti, por nós. Eu sabia que restava fogo, que ainda havia amor e eu pude comprovar nos teus olhos, vi teus olhos brilharem quando cheguei, mesmo que negasses, mesmo que tu dissesses para eu me retirar, eu só vi amor nos teus olhos e ouvi amor das entrelinhas do que me dizias. Por isso te trouxe de volta à nossa casa, pra tu veres como está tudo aqui, nesse dó que só vendo, só vendo mesmo. Vês? Sim, sei que vês, pergunta boba, ah, meu amor, estou tão feliz que nem sei o que estou dizendo. Deves estar cansada de me ouvir já. Vou te deixar um pouco aqui, amor. Deite um pouco e descanse. Sei que ainda não me perdoaste por inteiro, sei que ainda há rancor, mas sei que logo tudo voltará a ser como antes. Logo, logo, haverá não apenas um pequeno brilho nos teus olhos, mas aquela chama imensa, maior que nós, capaz de incendiar tudo em nós e deitar fogo ao mundo. Quando eu voltar, aposto que muito dessa chave já estará reavivada. Não, amor! Já lhe disse, não chore e não tente tirar essas cordas, isso vai machucar os seus pulsos! Sei que parece desconfortável de início, e esse pano na boca também, mas isso não vai te machucar se você ficar quietinha um pouco. Só um pouco, amor, só o átimo de voltares a amar. Não, não seja boba, sei que ainda não é tempo. Mas o tempo virá. Tenho que ir agora, amor. Mas saiba disso, o tempo virá. E tudo voltará a ser como antes. Não. Agora será ainda melhor do que nunca foi. Eu te amo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Ensaio sobre a merda



Têm duas coisas que me fazem ficar agoniado só de imaginar para onde estão indo: merda e lixo. Mas, sem dúvidas, a que me dá mais inquietação é a merda, pois não há nada mais nojento do que fezes!(Ok, talvez as baratas rivalizem com elas nessa categoria). E o destino dessas fezes me preocupa. Toda vez que vou defecar me sinto meio que culpado por ‘tá colocando mais bosta no mundo. E multiplique minha bosta por 1 milhão – mais ou menos a quantidade de pessoas que mora em São Luís! Sendo que geralmente cada pessoa elimina cerca de 100 a 150 gramas de fezes por dia, teremos mais ou menos 100.000.000 a 150.000.000 gramas de merda por dia na cidade do reggae! E isso só em São Luís! Agora pense em Fortaleza, em São Paulo, no Brasil, na América do Sul, em todo o mundo! É muita matéria fecal! E eu me pergunto: em todo o lugar elas são devidamente tratadas? Não. Pegando de novo São Luís como exemplo: o que mais temos são prédios perto da Avenida Litorânea jogando toda a bosta do cu da elite no mar! Meu amigo, isso era feito na época medieval! Quando fui à Suíça, estive dentro de um destes castelos dessa época. Essa imagem que acompanha esta crônica mostra como era o esquema para os moradores desse local se verem livres desse material inconveniente: tudo caía no mar. E como é inconveniente! O horror de se estar com vontade de cagar quando se está a quilômetros de distancia de casa é insuperável! Aí o jeito é colocar papel higiênico em volta do assento de um vaso sanitário público (ou se agachar, sem necessariamente se sentar no trono), sentar e deixar o negócio descer, enquanto você fica quietinho no seu canto. Algo bem individual, não é? Pois saiba que no Império Romano, fazer cocô era, pasmem, um meio de sociabilidade! Os banheiros públicos eram perfeitos banheiros coletivos, as latrinas, na qual não existiam cabines privadas. Os cidadãos, de diferentes níveis sociais, evacuavam um do lado do outro, puxando de vez em quando uma conversinha. Mas não, abomino a prática de obrar conjuntamente. A única coisa boa de fazer cocô é justamente ter um tempo bem privado, na qual se tem a chance de poder ler algo interessante (uma revista, um jornal) ou simplesmente ficar pensando na vida. Mas mesmo assim isso tudo eu posso fazer sem ter vontade de descomer (rá! Adorei essa expressão!). O bom mesmo seria se a gente não tivesse mesmo essa vontade. Teríamos economizado papel e não teríamos desperdiçado nosso tempo limpando a bunda. E ‘taí uma coisa que eu reclamaria pra Deus: ele não podia ter dado um jeito das fezes saírem sem precisar se encostar no recôncavo nadegal? Qualquer jeito! Era só ter usado a cabeça só mais um pouquinho! Mas nãããão! Apressado, não pôde esperar mais de sete dias! Deu nisso, nesses pequenos detalhezinhos esquecidos! Mas tudo bem, a gente se vira com o papel higiênico. O complicado era quando não tínhamos nosso tradicional rolo de cada dia. O pessoal usava qualquer coisa que a imaginação podia conceber: tecido de lã, pedaço de pano, sabugo de milho, folhas de árvore, ou a tradicional água – que é, em minha opinião, é a melhor forma de se limpar. Todos esses objetos acabavam virando lixo, como hoje vira o papel higiênico. Aí piorou: até merda vai junto com o lixo. Para piorar ainda mais minha agonia...

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Bem nojento o post de hoje, né? E olha que eu nem falei sobre os coprófilos e coprófagos... Mas fica para uma outra ocasião. Fico por aqui.
Abraços!

sábado, 11 de dezembro de 2010

“Is there a reason for today?” (1)


Big-Bang. Tempo, e – ao mesmo tempo – elementos. Matéria, recombinação, estruturas. Médias estruturas. Grandes estruturas. Meio apropriado, afinidade, células. Logo mais, organismos, organismos, organismos. Evolução. Gente. Pré-História. História. Gente. História. O resto (pra poupar tempo). Nove de dezembro. Eu ouvindo Cream na universidade, perto da porta do meu período, esperando o professor entrar para começar a aula. Tempo (pra poupar o resto).



(1)Um dos versos da música “World of Pain”, do Cream, presente no álbum “Disraeli Gears”.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando aparece uma flor - conclusão


Perdera Ruth de vista, mas sabia exatamente onde ela ia.
Avistou a mulher agachada em frente à porta da casa do amante. Vadia desavergonhada! Era cedo ainda, ele tinha certeza de que as pessoas podiam vê-la. De repente, a porta se abriu e João saiu. Ruth pareceu assustada e no momento que se voltou para sair, Pedro abriu o portão com um chute, já empunhando o revólver:
- Que porra é essa aqui, seus filhos da puta?
Ruth gritou e João empalideceu. Os dois entraram na casa, e Pedro os seguiu, abrindo a porta com violência.
- Calma, mano Pedro!
- Mano é o teu cu, seu traidor sem-vergonha – disse Pedro, atirando em João que caiu no chão da sua sala, berrando de dor.
- E tu, sua vadia? E tu, sua puta? Eu te amei, eu achei que tu me amava!
- Pedro, espera, a gente precisa conversar...
- Conversar é o caralho! – gritou Pedro. Três tiros na mulher que mais amou na vida. Três balas no coração, onde ela o feriu também.
João jazia para um lado e Ruth para outro. Pedro viu o bilhete que Ruth escrevera ainda na soleira da porta. Abaixou-se e o apanhou. Que porra, não saber ler! Mas ele podia ver a palavra lá, aquela palavra que ele aprendera a soletrar por ela
“Pois é, professora, é que a minha mulher que tá me incentivando a estudar, eu queria fazer uma surpresa...”
Amor.
A-M-O-R.
DESGRAÇADA!
Alarmados pelo barulho e pela confusão, muitos homens acudiram à porta. Tomás entrou na frente e viu a cena primeiro:
- Pedro, pelo amor de Deus, o que tu fez?
- Foram eles que pediram, Tomás! Olha o que essa vagabunda escreveu aqui pra esse filho da puta!
Tomás tomou o bilhete das mãos dele e leu. O rosto dele foi perdendo a cor. O papel tremia em sua mão apertada e os dentes dele serravam.
- Tu quer saber o que tem aqui, filho da puta?
Pedro, confuso, olhou interrogativamente para Tomás, que leu:
“João,
Já sei dos seus sentimentos por mim. Já sei o quanto te acostumou a ter todas as mulheres pra ti. Mas não eu. Sou mulher forte. O meu homem é só um e eu seu bem quem ele é: o Pedro. Por favor, não me procura mais. Não vem mais em nossa casa. Não vamos mais pra roda de samba também. Sei que tu não tem culpa do que sente, nosso coração não escolhe. Mas entenda que se o teu coração escolheu me amar, eu nunca vou poder te amar de volta. Todo o meu amor é pro Pedro, meu único e grande amor”.

Vinte anos depois, o homem está sentado na cadeira de balanço. Os anos na prisão e a surra que levou naquele dia fatídico, da qual nem tentou se defender, o deixaram envelhecido e debilitado. Estava doente do corpo, mas acima de tudo estava doente da alma. Todo dia amaldiçoava a polícia por ter tirado a multidão de cima dele e a sua covardia em não conseguir ele próprio dar um fim na sua vida. Virara um escarro do que já era, ali naquela cadeira de balanço, com seu cobertor e seus fantasmas.
Naquele fim de tarde, ele veio. Manco, apoiado numa bengala, tão velho quanto ele, mas o pandeiro traía sua identidade. Chegou e se sentou ao seu lado, em silêncio. E assim ficaram muito tempo, até que Pedro disse, com a voz cansada:
- Puxe pra mim o “Samba do grande amor”, mano João?
O outro puxou o pandeiro e cantou bem baixinho:
- “Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor... mentira.”


(Desculpem a demora e obrigado pela paciência!)

PS: Esse texto tem livre inspiração em um excelente cordel do Zé da Luz, que pode ser encontrado aqui: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1211493 Obrigado por me passar o endereço e atentar para isso, Arnaldo!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando aparece uma flor

João?
- João?
Os dois ficaram lívidos quando viram Pedro irromper pela porta da sala de estar.
- João veio jantar conosco, meu bem – disse Ruth, rápida.
- Aah... que bom... tudo bom, mano João?
- Beleza, mano Pedro! E tu, tudo beleza?
- Tudo. Bora jantar então?
- Espera, ainda não terminei! Sentem aí um pouco que não demora!
- Ainda não? Poxa, meu bem...
- Só um pouco de paciência, não vai demorar...
Ela correu para a cozinha. Pedro foi também desenterrar uma cerveja do congelador para ele e João molharem a garganta antes do jantar. Disputou espaço com Ruth, que tirava umas batatas da geladeira para lavar e descascar.
- Ainda nem começou a preparar?
- É que eu saí tarde do hotel...
- Não é melhor comermos em algum lugar?
- Imagina, isso é rápido!
Pedro foi para a sala beber com João. Uma hora depois, os três jantaram mas, por alguma razão, as risadas e conversas estavam sem gosto. Naquele dia, João não ficou para assistir TV depois de comer.
No domingo, a roda de samba era especial. Estavam comemorando o aniversário de Tomás, amigo querido de todos, e que ainda por cima estava bancando a cerveja, enquanto todos contribuíram para o churrasco. A carne, é claro, tinha acabado há muito tempo, mas cerveja não parava de descer. Pedro e Ruth pararam de beber cedo, porque tinham que trabalhar no outro dia e não queriam amanhecer de ressaca. João, contudo, não tinha essas restrições:
- Desce mais pro tocador não parar!
E continuava a animar a todos na roda. De repente, sem que ninguém esperasse, ele virou para Ruth:
- Essa aqui tu gosta, Rutinha!
A moça ficou um tanto desconcertada.
- Como?
- É, essa é pra ti! Canta aí, galera! “Água da minha sede”!
E começou a fazer dançar o pandeiro cantando a plenos pulmões. Pedro, que estava conversando com Tomás, parou para observar como João dançava e pedia que Ruth cantasse com ele.
“Quando você sambou na roda, fiquei a fim de te namorar...”
Ruth estava cada vez mais vermelha e fingia conversar com as amigas mais próximas sem conseguir disfarçar o mal estar.
“O meu amor é passarinheiro, ele só quer passarinhar...”
Pedro puxou mais um copo de cerveja, diante da surpresa de Tomás e Alváro, que se juntara aos dois. “Não tinha parado, companheiro?”
“Seu beijo é um alçapão, seu abraço é uma gaiola...”
Talvez pelo impulso do álcool misturado com a raiva, Pedro disse, sem tirar os olhos de João:
- Acho que Ruth tá me botando chifre.
- Deixe disso, rapaz! – cortou Tomás – Todo mundo sabe que Ruth te ama. Boa moça como essa tu não encontra em lugar nenhum.
- É boa moça, mas isso não garante que seja fiel – tornou Álvaro – Minha ex-mulher era muito prestativa, cuidava da casa, dos filhos... mas me traiu também. Dei uma coça que a miserável nunca esqueceu. Só não matei por causa das crianças. Mas tu, cumpadi! Tu não tem filho! E eu também to achando estranha essa amizade de João e Ruth...
- Como você sabe que eu to desconfiado é do João?
- Rapaz, tá muito na cara... tu tem é que resolver isso como macho... se tu quiser, te empresto meu revólver...
- Álvaro, para com isso! – interrompeu Tomás, assustado – Olha, Pedro, não vai pela cabeça dele. Nada se resolve assim e depois, tenho certeza que isso é coisa da tua cabeça.
- É sim. E é chifre! – debochou Álvaro.
Pedro nada disse a mais. Apenas terminou o copo de cerveja e foi pra casa, deixando que Ruth o seguisse depois.
Uns dias depois, Pedro chegou cedo do serviço e encontrou Ruth escrevendo algo. Não sabendo exatamente porque fazia isso, ele se escondeu atrás da parede do lado da casa. Ruth saiu com o papel dobrado na mão. Com o diabo lhe soprando aos ouvidos, Pedro correu para a segunda casa vizinha, a de Álvaro.
- Cumpadi, me empreste aquele teu revólver.
Perdera Ruth de vista, mas sabia exatamente aonde ela ia.


(Concluo no próximo post. Juro que não tô fazendo isso de propósito!)