
Para Thaís Gomes Araujo Cutrim
O Sr. José escrevia por necessidade, para calar as vozes em sua mente. Desde que aprendera a escutá-las, tornara-se uma obsessão aprender a sentir. Não sabia fazê-lo antes. A voz da sua poesia interior lhe ensinara a transformar seu sorriso em gargalhada e sua lágrima em pranto copioso. O Sr. José transformava o mínimo sentimento em bebida e se embriagava dele, sentia até a última gota, com toda verdade e intensidade. Depois escrevia.
Além de sentir, o Sr. José aprendera a beber os sentimentos. A enxergá-los, aspirá-los, devorá-los. Até a última vista, até a última essência, até o último farelo. Não só os seus, mas os dos outros também. Tornava seu o que o outro sentia. Ele próprio pensava já conhecer seus sentimentos bem demais, precisava de mais. Tornou-se voyeur do sentir alheio. Tinha obsessão pelo âmago dos sentimentos. Queria conhecer o fundo do poço e o Jardim do Éden. Dos outros.
Era freqüentador assíduo de funerais e batizados. Queria convites para aniversários, reuniões de família, posses políticas, encontros íntimos, visitas á prisão. O Sr. José precisava conhecer todas as faces dos homens, precisava de todas as tintas para sua aquarela; tristeza, amor, ódio, felicidade, apatia, doença, morte, vida. E ele pintava com palavras suas poesias, madrugadas adentro.
Um dia, o Sr. José chegou em casa feito um ciclone. Várias vozes berravam nos seus ouvidos. Fora um dia incrível e seus pulmões estufavam de poesia. Sua garganta fechava e sua boca estava seca. Sentou-se como sempre em frente ao caderno, sacou uma caneta do porta-lápis e escreveu. Como se a caneta fosse um florete, esgrimou o papel sem trégua e a luta vã durou toda a madrugada e rompeu a manhã como sempre.
Três manhãs depois, a diarista gritou ao perceber que o patrão estava morto. Várias folhas amassadas guarneciam o cadáver. A cabeça pálida e o olhar vidrado repousavam ao lado do caderno. Dominando a repulsa, ela se aproximou e tentou olhar o que estava escrito, mas a espiral já não continha folha alguma.
Em uma daquelas três madrugadas, morrera o Sr. José. Overdose de humanidade.
O Sr. José escrevia por necessidade, para calar as vozes em sua mente. Desde que aprendera a escutá-las, tornara-se uma obsessão aprender a sentir. Não sabia fazê-lo antes. A voz da sua poesia interior lhe ensinara a transformar seu sorriso em gargalhada e sua lágrima em pranto copioso. O Sr. José transformava o mínimo sentimento em bebida e se embriagava dele, sentia até a última gota, com toda verdade e intensidade. Depois escrevia.
Além de sentir, o Sr. José aprendera a beber os sentimentos. A enxergá-los, aspirá-los, devorá-los. Até a última vista, até a última essência, até o último farelo. Não só os seus, mas os dos outros também. Tornava seu o que o outro sentia. Ele próprio pensava já conhecer seus sentimentos bem demais, precisava de mais. Tornou-se voyeur do sentir alheio. Tinha obsessão pelo âmago dos sentimentos. Queria conhecer o fundo do poço e o Jardim do Éden. Dos outros.
Era freqüentador assíduo de funerais e batizados. Queria convites para aniversários, reuniões de família, posses políticas, encontros íntimos, visitas á prisão. O Sr. José precisava conhecer todas as faces dos homens, precisava de todas as tintas para sua aquarela; tristeza, amor, ódio, felicidade, apatia, doença, morte, vida. E ele pintava com palavras suas poesias, madrugadas adentro.
Um dia, o Sr. José chegou em casa feito um ciclone. Várias vozes berravam nos seus ouvidos. Fora um dia incrível e seus pulmões estufavam de poesia. Sua garganta fechava e sua boca estava seca. Sentou-se como sempre em frente ao caderno, sacou uma caneta do porta-lápis e escreveu. Como se a caneta fosse um florete, esgrimou o papel sem trégua e a luta vã durou toda a madrugada e rompeu a manhã como sempre.
Três manhãs depois, a diarista gritou ao perceber que o patrão estava morto. Várias folhas amassadas guarneciam o cadáver. A cabeça pálida e o olhar vidrado repousavam ao lado do caderno. Dominando a repulsa, ela se aproximou e tentou olhar o que estava escrito, mas a espiral já não continha folha alguma.
Em uma daquelas três madrugadas, morrera o Sr. José. Overdose de humanidade.
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O texto está dedicado à Thaís, grande amiga, que me emprestou a caneta. Prometi a mim mesmo que assim o faria na próxima vez que ela fizesse essa grande gentileza por mim ^^ Obrigado, Tatá!
Já escrevi sobre um Sr. José antes, no Casulo. Estive pensando se são a mesma pessoa. Prefiro deixar a cargo de vocês - quem quiser decidir, é claro.
That's all, folks!




