“Até que ponto se pode excitar alguém por meio de palavras? Qual é esse máximo? Vejo que aticei sua cobiça por este poder, meu caro leitor. Claramente. E tenho plena certeza que atiçarei também outra coisa sua ao longo deste livro. Tenho certeza.”
Vander Alexander
Intimidador. Imodesto. Perigoso. Este fragmento acima resume muito bem o caráter do mundialmente conhecido escritor erótico Vander Alexander, o qual conseguiu elevar sozinho a literatura erótica a outro patamar (e por que não a própria idéia sobre sexo?), quase desbancando a indústria de filmes pornográficos, ocasionando um fenômeno nunca antes visto no mundo. Sua prosa é objeto de estudo de vários literários e até mesmo de psicólogos e sexólogos, que se dizem fascinados com o poder de excitação que seus contos particularmente produzem nas pessoas. Não são textos como quaisquer outros, e não se usam de fórmulas conhecidas e manjadas. Suas estórias viraram temas de motéis em todo globo e fizeram multidões aderirem a fantasias e práticas consideradas até então estranhas demais, tamanho foi o incrível modo como ele as retratou em suas obras. Católicos, protestantes, judeus, mulçumanos, budistas, etc., viraram fãs de seus livros, cujos conteúdos conseguiram dar fogo ao relacionamento de milhões de pessoas.Vander Alexander foi eleito o homem do ano pela revista Time e entrou definitivamente para o hall das personalidades mais famosas e comentadas. Sua biografia, intitulada 'O avatar do sexo – a história do rei dos contos eróticos', lançada este ano pela editora Zeppelin e escrita por Caio Carvalho, promete ser um grande sucesso de vendas. Leia alguns trechos dessa biografia.
“Ao ler (quase) sem querer um conto erótico, um garoto apaixona-se de imediato por essa literatura, criando instantaneamente um estilo próprio, único, altamente excitante e interessantemente elegante para elaborar contos desse calibre. Sua genialidade intrínseca apenas foi despertada. Criou um pseudônimo: Vander Alexander. Masturbava-se com um caderninho ao seu lado, para anotar tudo que ocorria em sua mente – e no seu corpo! Sua primeira transa, aos 17 anos, rendeu, de imediato, sua obra prima: 'Suor'".
“Vander Alexander teve que experimentar muitas coisas para poder escrever com maior organicidade e paixão. E garante: gostou de todas as suas práticas. Ele já participou de sexo grupal, ménage à trois, experimentou auto-asfixia erótica, teve relações sexuais com mulheres masoquistas, sadistas, sadomasoquistas, adeptas de fist fucking, do rainbow kissing, da coprofilia, urofilia, etc., e que possuíam um leque variadíssimo de fetiches e fantasias.”
“Os títulos de suas obras são geralmente secos e curtos, porém seu conteúdo é sempre singular. Dentre as mais conhecidas destacamos 'Orgias metafóricas' (texto belíssimo, o qual Alexander relaciona outras fontes de prazer, como musica, comida, bebida, sono, etc., ao sexo), seus contos 'Oliva' (no qual um pizzaiolo faz sexo com uma funcionária na pizzaria onde ambos trabalham, tudo regado a bastante azeite de oliva), 'Tântrico' (cujo personagem se esforça pra passar duas semanas com tesão incessante, lançando mão de várias técnicas, e mais três meses transando sem parar), 'Trava-línguas' (um conto erótico de humor, cujo protagonista se depara com uma mulher que quando entra em orgasmo, fala trava-línguas sem parar), 'Axilas'(no qual um homem descreve toda sua extrema atração por axilas femininas) e seu livro 'Suor', de trama rocambolesca e de narração intensa, na qual o protagonista possui um alucinante fervor erótico pelo cheiro do suor das virilhas femininas.”
O lançamento da biografia está previsto para fevereiro de 2010.
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Já que eu não sou bom em fazer literatura erótica (já tentei, fica um lixo. Mas um dia eu consigo), criei seu rei. Hehehe, foi divertido fazer este texto. No meu próximo post, muito provavelmente, vou trabalhar de novo com a figura do Vander Alexander, mas de uma forma um tanto diferente. Aguardem, até lá e espero que tenham gostado =)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Ela

Chico Buarque tocando no celular. "Aprendi a desconfiar do teu silêncio...". Ele olhou para ela, que olhava o nada. Ele desconfiava do silêncio dela. Não da voz, que nem era de falar tanto assim. Desconfiava do silêncio daquelas mãos, daquele sorriso e sobretudo desconfiava do sentimento daqueles negros olhos, brilhantes olhos, tão baços naquele dia - emitiam um brilho distante, uma vela acesa no fundo de um túnel, que nada tinha a ver com o clarão e o calor de chama alta que eles sempre irradiavam. Ele desconfiava daquela faceta que, mesmo surgindo ora ou outra, lhe era sempre estranha. Ela virou-se para ele, uma sobrancelha erguida. Ele sorriu.
Ela era linda, e que paz, que alegria era aquela que ela lhe dava. Como ele era pequeno perto dela. Pequeno e imaturo. Que era ela afinal, o que ele queria? Um sorriso falso ostentado sempre por um rosto plástico? Não. Queria o rosto dela, feliz ou triste. Mas era imaturo e não conseguia não desesperar ante à visão da tristeza dela. Pensou pela milésima vez que não era o homem para aquela mulher e que era incapaz de fazê-la feliz. Pensou pela milésima vez que se ele não podia retribuir toda a felicidade que ela lhe dava, melhor seria que ela acordasse e o deixasse.
Não, não podia deixá-lo! Não agora que ele sabia como era doce ser feliz, não agora que ele sabia que existia felicidade, como viver sem ela? Ela não podia deixá-lo... podia mas não devia... devia mas ele não queria... e não queria que ela quisesse.
A sobrancelha dela desceu e ela sorriu para a cara de bobo que ele devia estar fazendo.
Bobo, sim. Idiota. Queria pedir desculpas a ela. Por duvidar, por ser tão imaturo. Quis prometer nunca mais fazer isso, mas sabia que tornaria a fazê-lo milhões de vezes. Quis agradecer a ela por ela. Quis tanto e desejou que aquele abraço que lhe dava encerrasse todo esse seu querer e que o peito dela encostado no seu fosse próximo o suficiente pro coração dela escutar o que o dele lhe dizia.
E que importavam alguns momentos de silêncio, se nada era mais forte que a sinfonia das almas deles em coro?
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O homem que sentia

Para Thaís Gomes Araujo Cutrim
O Sr. José escrevia por necessidade, para calar as vozes em sua mente. Desde que aprendera a escutá-las, tornara-se uma obsessão aprender a sentir. Não sabia fazê-lo antes. A voz da sua poesia interior lhe ensinara a transformar seu sorriso em gargalhada e sua lágrima em pranto copioso. O Sr. José transformava o mínimo sentimento em bebida e se embriagava dele, sentia até a última gota, com toda verdade e intensidade. Depois escrevia.
Além de sentir, o Sr. José aprendera a beber os sentimentos. A enxergá-los, aspirá-los, devorá-los. Até a última vista, até a última essência, até o último farelo. Não só os seus, mas os dos outros também. Tornava seu o que o outro sentia. Ele próprio pensava já conhecer seus sentimentos bem demais, precisava de mais. Tornou-se voyeur do sentir alheio. Tinha obsessão pelo âmago dos sentimentos. Queria conhecer o fundo do poço e o Jardim do Éden. Dos outros.
Era freqüentador assíduo de funerais e batizados. Queria convites para aniversários, reuniões de família, posses políticas, encontros íntimos, visitas á prisão. O Sr. José precisava conhecer todas as faces dos homens, precisava de todas as tintas para sua aquarela; tristeza, amor, ódio, felicidade, apatia, doença, morte, vida. E ele pintava com palavras suas poesias, madrugadas adentro.
Um dia, o Sr. José chegou em casa feito um ciclone. Várias vozes berravam nos seus ouvidos. Fora um dia incrível e seus pulmões estufavam de poesia. Sua garganta fechava e sua boca estava seca. Sentou-se como sempre em frente ao caderno, sacou uma caneta do porta-lápis e escreveu. Como se a caneta fosse um florete, esgrimou o papel sem trégua e a luta vã durou toda a madrugada e rompeu a manhã como sempre.
Três manhãs depois, a diarista gritou ao perceber que o patrão estava morto. Várias folhas amassadas guarneciam o cadáver. A cabeça pálida e o olhar vidrado repousavam ao lado do caderno. Dominando a repulsa, ela se aproximou e tentou olhar o que estava escrito, mas a espiral já não continha folha alguma.
Em uma daquelas três madrugadas, morrera o Sr. José. Overdose de humanidade.
O Sr. José escrevia por necessidade, para calar as vozes em sua mente. Desde que aprendera a escutá-las, tornara-se uma obsessão aprender a sentir. Não sabia fazê-lo antes. A voz da sua poesia interior lhe ensinara a transformar seu sorriso em gargalhada e sua lágrima em pranto copioso. O Sr. José transformava o mínimo sentimento em bebida e se embriagava dele, sentia até a última gota, com toda verdade e intensidade. Depois escrevia.
Além de sentir, o Sr. José aprendera a beber os sentimentos. A enxergá-los, aspirá-los, devorá-los. Até a última vista, até a última essência, até o último farelo. Não só os seus, mas os dos outros também. Tornava seu o que o outro sentia. Ele próprio pensava já conhecer seus sentimentos bem demais, precisava de mais. Tornou-se voyeur do sentir alheio. Tinha obsessão pelo âmago dos sentimentos. Queria conhecer o fundo do poço e o Jardim do Éden. Dos outros.
Era freqüentador assíduo de funerais e batizados. Queria convites para aniversários, reuniões de família, posses políticas, encontros íntimos, visitas á prisão. O Sr. José precisava conhecer todas as faces dos homens, precisava de todas as tintas para sua aquarela; tristeza, amor, ódio, felicidade, apatia, doença, morte, vida. E ele pintava com palavras suas poesias, madrugadas adentro.
Um dia, o Sr. José chegou em casa feito um ciclone. Várias vozes berravam nos seus ouvidos. Fora um dia incrível e seus pulmões estufavam de poesia. Sua garganta fechava e sua boca estava seca. Sentou-se como sempre em frente ao caderno, sacou uma caneta do porta-lápis e escreveu. Como se a caneta fosse um florete, esgrimou o papel sem trégua e a luta vã durou toda a madrugada e rompeu a manhã como sempre.
Três manhãs depois, a diarista gritou ao perceber que o patrão estava morto. Várias folhas amassadas guarneciam o cadáver. A cabeça pálida e o olhar vidrado repousavam ao lado do caderno. Dominando a repulsa, ela se aproximou e tentou olhar o que estava escrito, mas a espiral já não continha folha alguma.
Em uma daquelas três madrugadas, morrera o Sr. José. Overdose de humanidade.
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O texto está dedicado à Thaís, grande amiga, que me emprestou a caneta. Prometi a mim mesmo que assim o faria na próxima vez que ela fizesse essa grande gentileza por mim ^^ Obrigado, Tatá!
Já escrevi sobre um Sr. José antes, no Casulo. Estive pensando se são a mesma pessoa. Prefiro deixar a cargo de vocês - quem quiser decidir, é claro.
That's all, folks!
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
O edifício
Família reunida. Mãe, tia, pai, filho. Este último, uma criança. Uma criança de 5 anos.
- Lourdes, estava pensando em fazer uma recepção para a Glória. Um café, quem sabe?
- Hum... Almoço não seria melhor?
- Quem sabe uma orgia? – sugeriu a criança.
* * *
Dois homens estão conversando.
-Estamos em uma cena clássica. Repare. Eu apontando um revólver para você. Você apontando um revólver para mim. Classissíssimo. O que podemos fazer? Um pode sair vivo, os dois podem sair mortos, os dois podem sair vivos.
- É...
- Basicamente. Há as variantes interessantes. Veja também: eu posso me suicidar após matar você, eu posso me suicidar sem matar você, você pode se matar também...
- Bicho... Isso está parecendo diálogo de escritor sem assunto...
- Não, não, cara, se vamos potencialmente morrer, reflitamos um pouco sobre as coisas da vida...
- Honestamente, está chato. E eu só quero o dinheiro que você me deve, porra.
- O motivo! Outro clássico!
* * *
Um casal de jovens está jogando cartas. O rapaz, por deslize, peida. Risos; por parte da moça. O rapaz ri também, claro. Por que não ri?
- Desculpe, foi sem querer. Fiquei menos sexy por causa disso? – brinca ele.
- Hum... Com certeza te evidenciastes mais humano agora.
* * *
Uma pessoa olha uma mãe brincar com sua filha de quatro meses. Está relativamente perto, no canto da porta. A guria sorri lindamente por um instante. Durante 5 segundos e 67 centésimos, esta pessoa esquece suas idéias fixas. 67 centésimos. 66, 65, por aí.
- Foi menos tempo, creio.
- Mas esqueceu!
* * *
Alguém, mais tarde, deitado na cama, irá se remexer loucamente de ciúmes. Eu o entendo.
* * *
Os dois que estavam com as armas estão dançando. Juntos. E juntos, se beijam. E beijando-se, começam a transar. E no gozo, no gozo final, ambos, cada um com sua arma, se suicidam. Ambos iam morrer mesmo e quiseram morrer gozando.
* * *
- Esse menino disse orgia?!?!
* * *
Algumas cartaz misturam-se agora com o suor dos corpos de ambos...
* * *
A guria de quatro meses agora dorme tranquilamente. Sua mãe a embala lendo “O Anticristo”.
* * *
- Que barulho foi esse?
* * *
- Sim, eu disse.
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Mais uma vez um texto demora para sair aqui n'A Telha. Mas fazer o que.. Às vezes aparecem idéias boas, e muitas vezes idéias de merda. Isso sem contar no tempo para escrever. No meu caso, essas idéias colocadas neste pequeno texto vieram aos poucos. E eu fui anotando - ou deixando na memória. Umas duas delas devem ter vindo hoje. Deu nisso. Espero que gostem. Eu, estranhamente, - ou nem tanto - criei um carinho por esse texto em especial.
Até logo =)
Obs: Uma das idéias veio totalmente de uma fala de Kayla. Tenho que dar os devidos créditos =)
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Tela

Acordou naquele dia se sentindo meio estrela. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos soltos com esmero. Passou maquiagem no rosto e nos olhos, que depois ocultou sob óculos escuros, e passou um batom forte nos lábios. Escolheu uma bela roupa preta, mas o calor não estava para casacos. Pegou uma bolsa de couro vermelha e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio intelectual. Olhou-se no espelho e fez um penteado sóbrio e simples, em coque. Passou pouca maquiagem no rosto e nos olhos, que cobriu com óculos de grau de armação grossa, que nunca lembrava de usar, e um leve batom rosado. Escolheu uma roupa séria, calça preta e camisa listrada de botões. Pões uma bolsa de lado, aninhou uns livros nas mãos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio hippie. Olhou-se no espelho e desarrumou cuidadosamente os cabelos, fazendo-os embaraçar. Desprezou maquiagem e óculos, mas pôs uma faixa laranja na testa. Escolheu um vestido longo, solto e colorido, de saia rodada. Pegou uma bolsa de pano, alças finas, sem documentos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio criança. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos dividindo-os em duas marias-chiquinhas. Maquiou-se como uma menina que descobre a penteadeira da mãe; maçãs rosadas, pálpebras azuis e batom vermelho. Calçou meias coloridas, um short jeans e uma blusa cor-de-rosa. Pegou uma mochila e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia sem saber como se sentia. Tomou banho e se enrolou no roupão de banho e se encarou no espelho. Só via interrogações. Olhou-se, olhou-se e olhou-se longamente. E o espelho perguntou, tristemente:
"Quando vais acordar sentindo-se você mesma?"
Sacando da escova de cabelo, ela rachou o insolente. Sorriu ao ver a teia brilhante que se formara, e seus vários reflexos. Foi se arrumar. Ao terminar, apanhou uma bolsa e ao abrir a porta, olhou novamente o espelho. Por que se preocupar em ser uma só? Bateu a porta. E saiu, orgulhosa.
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Esse texto não tem dedicatória, mas se tivesse, seria para minha professora, Valéria. O embrião dele surgiu numa aula dela. Enviei-o pra ela e digo o mesmo que disse à ela para vocês: espero que lhes passe alguma coisa. Abraços!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Ensaio sobre a simbologia rítmica do amor (ou a quebra de paradigmas musicais)

Esse caso fictício – ou piada, como preferirem – não é meu, vou logo dizendo, um amigo imaginou (nem me lembro mais quem), mas os enfeites são de minha autoria: um homem, após a cerimônia de seu casamento, revela que preparou uma apresentação musical no intuito de homenagear sua recém-esposa e dirige-se rapidamente ao espaço onde estão os instrumentos dos músicos contratados. “Legal, legal, que romântico!”, clamam aqueles mais sentimentais. “É um solo de piano, com certeza, eu me lembro que ele tocava muito bem!”, se orgulha aquela tia pomposa. “Oh, se for Bach no violão, eu morro!”, se esperança a esposa. Nada. Passou direto pelo violão, pelo piano. Sentou-se na bateria. “Esse solo é para você, meu amor”: trrrrrrrrRRRRRÁ, CRASH, tum, tum, tum, plá, plá, splash, tum-tum-tum-TÁ, trrrrrrrrá, trrrrrrá, trrrá, tratratra, plum – bish e por aí vai. E todos parados, com cara de espanto, vendo aquele romântico de terno e gravata sentado na bateria, aplicando toda sua técnica e criatividade. Ponto, o caso acaba aqui. Engraçado, estranho, constrangedor? Bem... Já consigo imaginar uns tapando as orelhas, outros consolando a noiva, outros comendo logo os salgadinhos, outros sentindo vergonha pelo baterista recém-casado, outros dando risinhos. Imagino-me também lá, sentado no canto esquerdo da igreja. É vero, é vero, confesso que também lançaria o habitual “que porra é essa?”. Convenhamos: geralmente essas coisas não acontecem em cerimônias pós-casamento. Mas continuemos: depois de cinco, seis minutos, o solo se encerra (friso: a técnica dele era impecável!). Silencio do pior tipo. O baterista levanta e olha para sua esposa. Não, ele não está debochando. Ela dá indícios, porém, de que vai chorar. “Não, não foi essa minha intenção, você sabe”, explica ele pelos olhos. “Que coisa horrível... Um solo de bateria, para essa ocasião?”, ela pergunta usando o mesmo recurso do marido. “Sandra, não duvide de minhas intenções, deixe-me explicar, parece até que você não me conhece...”. “O que tem para explicar?”, e sai andando, enfurecida, para fora da igreja. O diálogo silencioso está encerrado. O constrangimento coletivo impregna ainda mais o local. Ninguém sabe o que fazer. Sabem o que falar. “Que papelão, ein?”, comenta baixinho a mesma tia pomposa. “Menina, e não é?”, responde sua companheira de assento. Irritado com o burburinho que se iniciou, o baterista pega o microfone e diz: “entenderam tudo errado! Amor só se expressa com instrumentos melódicos? Pensei que minha esposa, que eu pensei que me conhecesse, entenderia; que quem me conhecesse entenderia. O rufo inicial em crescendo significou o quanto meu afeto por Sandra foi se intensificando desde o primeiro dia que a conheci. Logo depois, ataquei dois pratos de 19”: foi quando me explodi de paixão por ela. Aplico um samba em andamento rápido pra simbolizar a efervescência de minha vida após isso. Em seguida, uma virada forte e um silêncio de quatro compassos: nessa hora nos beijamos pela primeira vez. Minha mente se silenciou nesse instante. E depois... Ah, porra, pra quê dizer isso tudo? Ela nem está aqui para me explicar...”E sai pelos fundos. Que pena, queria ouvi mais.
É... Espero que ela consiga entendê-lo.
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Texto simples, sim. Não é grande coisa, mas como fazia tempo que eu não escrevia nada, e como A Telha estava parada, fiz esse e pronto.É isso, até! =)
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Poesia cotidiana

O poeta inspirou fundo. Queria sorver de uma vez todo o ar daquela praça. Sentia a poesia palpitando em todos os recantos banhados pelo luar. Alguém se enchia de gordura de batatas fritas, outros compravam jornais, outros vendiam bugigangas, uma hesitante procurava um ombro ao lado enquanto outras mãos muito mais voluntariosas agarravam um corpo inteiro sob o olhar de censura de senhoras muito distintas que esperavam o ônibus que, santo Deus, não vinha, não viria mais! Ele se sentiu embriagado pela poesia das árvores que lutavam para ocupar seu espaço no conturbado espaço urbano, a poesia das pedras de cantaria, dos carros barulhentos e esfumaçados, das nuvens negras da noite banhadas pelo luar prateado. Ah, o luar prateado. Não cansava de falar dele porque era ele que deixava tudo ali mais belo. Belo luar, bela noite, bela lua cheia. Que lua! Mas as pessoas... todas tão apressadas! Ninguém ousava parar e contemplar sequer uma daquelas nascentes de poesia que tão solícitas jorravam por toda a praça. Um verdadeiro despropósito! O poeta estava irritado. Ele também tinha compromissos, é certo - não poetava pra viver, afinal - mas podia se permitir parar e admirar um pouco os arredores, porque eles não podiam? Sentiu vontade de gritar, de parar cada um e dizer "Pelo amor de Deus, olhe à sau volta! Esse mundo é lindo! Esse mundo é seu de bandeja, o mínimo que você pode fazer é admirá-lo!". E olha que ele era ateu, pedir "pelo amor de Deus" não era do seu feitio. Mas a poesia...! Talvez se Deus existisse, ele estava na poesia. Porque ele via poesia em tudo. Ele tinha recebido um dom e uma missão e precisava iluminar de poesia o mundo, como o luar fazia com a praça. Fechou os olhos e inspirou novamente, o mais fundo que pôde. Precisava ir, mas antes precisava sugar toda aquela poesia uma última vez. E enquanto absorvia o ar, pensava de novo como era possível que as pessoas não se sentissem da mesma forma, por que era tão difícil existirem poetas naquele mundo.
Sentiu uma pancada no pulso, acordando-o do acalanto das musas. Olhou o braço nu a não ser pela marca do relógio e um rapazinho correndo em disparada e se enfiando na multidão. O homem saiu irritado. A contragosto, obtivera sua resposta.
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Felizmente, a poesia semrpe se acha. Arteira! ;)
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