terça-feira, 6 de outubro de 2009

O homem que sentia


Para Thaís Gomes Araujo Cutrim

O Sr. José escrevia por necessidade, para calar as vozes em sua mente. Desde que aprendera a escutá-las, tornara-se uma obsessão aprender a sentir. Não sabia fazê-lo antes. A voz da sua poesia interior lhe ensinara a transformar seu sorriso em gargalhada e sua lágrima em pranto copioso. O Sr. José transformava o mínimo sentimento em bebida e se embriagava dele, sentia até a última gota, com toda verdade e intensidade. Depois escrevia.
Além de sentir, o Sr. José aprendera a beber os sentimentos. A enxergá-los, aspirá-los, devorá-los. Até a última vista, até a última essência, até o último farelo. Não só os seus, mas os dos outros também. Tornava seu o que o outro sentia. Ele próprio pensava já conhecer seus sentimentos bem demais, precisava de mais. Tornou-se voyeur do sentir alheio. Tinha obsessão pelo âmago dos sentimentos. Queria conhecer o fundo do poço e o Jardim do Éden. Dos outros.
Era freqüentador assíduo de funerais e batizados. Queria convites para aniversários, reuniões de família, posses políticas, encontros íntimos, visitas á prisão. O Sr. José precisava conhecer todas as faces dos homens, precisava de todas as tintas para sua aquarela; tristeza, amor, ódio, felicidade, apatia, doença, morte, vida. E ele pintava com palavras suas poesias, madrugadas adentro.
Um dia, o Sr. José chegou em casa feito um ciclone. Várias vozes berravam nos seus ouvidos. Fora um dia incrível e seus pulmões estufavam de poesia. Sua garganta fechava e sua boca estava seca. Sentou-se como sempre em frente ao caderno, sacou uma caneta do porta-lápis e escreveu. Como se a caneta fosse um florete, esgrimou o papel sem trégua e a luta vã durou toda a madrugada e rompeu a manhã como sempre.
Três manhãs depois, a diarista gritou ao perceber que o patrão estava morto. Várias folhas amassadas guarneciam o cadáver. A cabeça pálida e o olhar vidrado repousavam ao lado do caderno. Dominando a repulsa, ela se aproximou e tentou olhar o que estava escrito, mas a espiral já não continha folha alguma.
Em uma daquelas três madrugadas, morrera o Sr. José. Overdose de humanidade.
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O texto está dedicado à Thaís, grande amiga, que me emprestou a caneta. Prometi a mim mesmo que assim o faria na próxima vez que ela fizesse essa grande gentileza por mim ^^ Obrigado, Tatá!
Já escrevi sobre um Sr. José antes, no Casulo. Estive pensando se são a mesma pessoa. Prefiro deixar a cargo de vocês - quem quiser decidir, é claro.
That's all, folks!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O edifício


Família reunida. Mãe, tia, pai, filho. Este último, uma criança. Uma criança de 5 anos.
- Lourdes, estava pensando em fazer uma recepção para a Glória. Um café, quem sabe?
- Hum... Almoço não seria melhor?
- Quem sabe uma orgia? – sugeriu a criança.

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Dois homens estão conversando.
-Estamos em uma cena clássica. Repare. Eu apontando um revólver para você. Você apontando um revólver para mim. Classissíssimo. O que podemos fazer? Um pode sair vivo, os dois podem sair mortos, os dois podem sair vivos.
- É...
- Basicamente. Há as variantes interessantes. Veja também: eu posso me suicidar após matar você, eu posso me suicidar sem matar você, você pode se matar também...
- Bicho... Isso está parecendo diálogo de escritor sem assunto...
- Não, não, cara, se vamos potencialmente morrer, reflitamos um pouco sobre as coisas da vida...
- Honestamente, está chato. E eu só quero o dinheiro que você me deve, porra.
- O motivo! Outro clássico!

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Um casal de jovens está jogando cartas. O rapaz, por deslize, peida. Risos; por parte da moça. O rapaz ri também, claro. Por que não ri?
- Desculpe, foi sem querer. Fiquei menos sexy por causa disso? – brinca ele.
- Hum... Com certeza te evidenciastes mais humano agora.

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Uma pessoa olha uma mãe brincar com sua filha de quatro meses. Está relativamente perto, no canto da porta. A guria sorri lindamente por um instante. Durante 5 segundos e 67 centésimos, esta pessoa esquece suas idéias fixas. 67 centésimos. 66, 65, por aí.
- Foi menos tempo, creio.
- Mas esqueceu!

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Alguém, mais tarde, deitado na cama, irá se remexer loucamente de ciúmes. Eu o entendo.

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Os dois que estavam com as armas estão dançando. Juntos. E juntos, se beijam. E beijando-se, começam a transar. E no gozo, no gozo final, ambos, cada um com sua arma, se suicidam. Ambos iam morrer mesmo e quiseram morrer gozando.

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- Esse menino disse orgia?!?!

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Algumas cartaz misturam-se agora com o suor dos corpos de ambos...

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A guria de quatro meses agora dorme tranquilamente. Sua mãe a embala lendo “O Anticristo”.

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- Que barulho foi esse?

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- Sim, eu disse.

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Mais uma vez um texto demora para sair aqui n'A Telha. Mas fazer o que.. Às vezes aparecem idéias boas, e muitas vezes idéias de merda. Isso sem contar no tempo para escrever. No meu caso, essas idéias colocadas neste pequeno texto vieram aos poucos. E eu fui anotando - ou deixando na memória. Umas duas delas devem ter vindo hoje. Deu nisso. Espero que gostem. Eu, estranhamente, - ou nem tanto - criei um carinho por esse texto em especial.
Até logo =)
Obs: Uma das idéias veio totalmente de uma fala de Kayla. Tenho que dar os devidos créditos =)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tela



Acordou naquele dia se sentindo meio estrela. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos soltos com esmero. Passou maquiagem no rosto e nos olhos, que depois ocultou sob óculos escuros, e passou um batom forte nos lábios. Escolheu uma bela roupa preta, mas o calor não estava para casacos. Pegou uma bolsa de couro vermelha e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio intelectual. Olhou-se no espelho e fez um penteado sóbrio e simples, em coque. Passou pouca maquiagem no rosto e nos olhos, que cobriu com óculos de grau de armação grossa, que nunca lembrava de usar, e um leve batom rosado. Escolheu uma roupa séria, calça preta e camisa listrada de botões. Pões uma bolsa de lado, aninhou uns livros nas mãos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio hippie. Olhou-se no espelho e desarrumou cuidadosamente os cabelos, fazendo-os embaraçar. Desprezou maquiagem e óculos, mas pôs uma faixa laranja na testa. Escolheu um vestido longo, solto e colorido, de saia rodada. Pegou uma bolsa de pano, alças finas, sem documentos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio criança. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos dividindo-os em duas marias-chiquinhas. Maquiou-se como uma menina que descobre a penteadeira da mãe; maçãs rosadas, pálpebras azuis e batom vermelho. Calçou meias coloridas, um short jeans e uma blusa cor-de-rosa. Pegou uma mochila e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia sem saber como se sentia. Tomou banho e se enrolou no roupão de banho e se encarou no espelho. Só via interrogações. Olhou-se, olhou-se e olhou-se longamente. E o espelho perguntou, tristemente:
"Quando vais acordar sentindo-se você mesma?"
Sacando da escova de cabelo, ela rachou o insolente. Sorriu ao ver a teia brilhante que se formara, e seus vários reflexos. Foi se arrumar. Ao terminar, apanhou uma bolsa e ao abrir a porta, olhou novamente o espelho. Por que se preocupar em ser uma só? Bateu a porta. E saiu, orgulhosa.

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Esse texto não tem dedicatória, mas se tivesse, seria para minha professora, Valéria. O embrião dele surgiu numa aula dela. Enviei-o pra ela e digo o mesmo que disse à ela para vocês: espero que lhes passe alguma coisa. Abraços!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ensaio sobre a simbologia rítmica do amor (ou a quebra de paradigmas musicais)


Esse caso fictício – ou piada, como preferirem – não é meu, vou logo dizendo, um amigo imaginou (nem me lembro mais quem), mas os enfeites são de minha autoria: um homem, após a cerimônia de seu casamento, revela que preparou uma apresentação musical no intuito de homenagear sua recém-esposa e dirige-se rapidamente ao espaço onde estão os instrumentos dos músicos contratados. “Legal, legal, que romântico!”, clamam aqueles mais sentimentais. “É um solo de piano, com certeza, eu me lembro que ele tocava muito bem!”, se orgulha aquela tia pomposa. “Oh, se for Bach no violão, eu morro!”, se esperança a esposa. Nada. Passou direto pelo violão, pelo piano. Sentou-se na bateria. “Esse solo é para você, meu amor”: trrrrrrrrRRRRRÁ, CRASH, tum, tum, tum, plá, plá, splash, tum-tum-tum-TÁ, trrrrrrrrá, trrrrrrá, trrrá, tratratra, plum – bish e por aí vai. E todos parados, com cara de espanto, vendo aquele romântico de terno e gravata sentado na bateria, aplicando toda sua técnica e criatividade. Ponto, o caso acaba aqui. Engraçado, estranho, constrangedor? Bem... Já consigo imaginar uns tapando as orelhas, outros consolando a noiva, outros comendo logo os salgadinhos, outros sentindo vergonha pelo baterista recém-casado, outros dando risinhos. Imagino-me também lá, sentado no canto esquerdo da igreja. É vero, é vero, confesso que também lançaria o habitual “que porra é essa?”. Convenhamos: geralmente essas coisas não acontecem em cerimônias pós-casamento. Mas continuemos: depois de cinco, seis minutos, o solo se encerra (friso: a técnica dele era impecável!). Silencio do pior tipo. O baterista levanta e olha para sua esposa. Não, ele não está debochando. Ela dá indícios, porém, de que vai chorar. “Não, não foi essa minha intenção, você sabe”, explica ele pelos olhos. “Que coisa horrível... Um solo de bateria, para essa ocasião?”, ela pergunta usando o mesmo recurso do marido. “Sandra, não duvide de minhas intenções, deixe-me explicar, parece até que você não me conhece...”. “O que tem para explicar?”, e sai andando, enfurecida, para fora da igreja. O diálogo silencioso está encerrado. O constrangimento coletivo impregna ainda mais o local. Ninguém sabe o que fazer. Sabem o que falar. “Que papelão, ein?”, comenta baixinho a mesma tia pomposa. “Menina, e não é?”, responde sua companheira de assento. Irritado com o burburinho que se iniciou, o baterista pega o microfone e diz: “entenderam tudo errado! Amor só se expressa com instrumentos melódicos? Pensei que minha esposa, que eu pensei que me conhecesse, entenderia; que quem me conhecesse entenderia. O rufo inicial em crescendo significou o quanto meu afeto por Sandra foi se intensificando desde o primeiro dia que a conheci. Logo depois, ataquei dois pratos de 19”: foi quando me explodi de paixão por ela. Aplico um samba em andamento rápido pra simbolizar a efervescência de minha vida após isso. Em seguida, uma virada forte e um silêncio de quatro compassos: nessa hora nos beijamos pela primeira vez. Minha mente se silenciou nesse instante. E depois... Ah, porra, pra quê dizer isso tudo? Ela nem está aqui para me explicar...”E sai pelos fundos. Que pena, queria ouvi mais.

É... Espero que ela consiga entendê-lo.
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Texto simples, sim. Não é grande coisa, mas como fazia tempo que eu não escrevia nada, e como A Telha estava parada, fiz esse e pronto.É isso, até! =)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Poesia cotidiana


O poeta inspirou fundo. Queria sorver de uma vez todo o ar daquela praça. Sentia a poesia palpitando em todos os recantos banhados pelo luar. Alguém se enchia de gordura de batatas fritas, outros compravam jornais, outros vendiam bugigangas, uma hesitante procurava um ombro ao lado enquanto outras mãos muito mais voluntariosas agarravam um corpo inteiro sob o olhar de censura de senhoras muito distintas que esperavam o ônibus que, santo Deus, não vinha, não viria mais! Ele se sentiu embriagado pela poesia das árvores que lutavam para ocupar seu espaço no conturbado espaço urbano, a poesia das pedras de cantaria, dos carros barulhentos e esfumaçados, das nuvens negras da noite banhadas pelo luar prateado. Ah, o luar prateado. Não cansava de falar dele porque era ele que deixava tudo ali mais belo. Belo luar, bela noite, bela lua cheia. Que lua! Mas as pessoas... todas tão apressadas! Ninguém ousava parar e contemplar sequer uma daquelas nascentes de poesia que tão solícitas jorravam por toda a praça. Um verdadeiro despropósito! O poeta estava irritado. Ele também tinha compromissos, é certo - não poetava pra viver, afinal - mas podia se permitir parar e admirar um pouco os arredores, porque eles não podiam? Sentiu vontade de gritar, de parar cada um e dizer "Pelo amor de Deus, olhe à sau volta! Esse mundo é lindo! Esse mundo é seu de bandeja, o mínimo que você pode fazer é admirá-lo!". E olha que ele era ateu, pedir "pelo amor de Deus" não era do seu feitio. Mas a poesia...! Talvez se Deus existisse, ele estava na poesia. Porque ele via poesia em tudo. Ele tinha recebido um dom e uma missão e precisava iluminar de poesia o mundo, como o luar fazia com a praça. Fechou os olhos e inspirou novamente, o mais fundo que pôde. Precisava ir, mas antes precisava sugar toda aquela poesia uma última vez. E enquanto absorvia o ar, pensava de novo como era possível que as pessoas não se sentissem da mesma forma, por que era tão difícil existirem poetas naquele mundo.


Sentiu uma pancada no pulso, acordando-o do acalanto das musas. Olhou o braço nu a não ser pela marca do relógio e um rapazinho correndo em disparada e se enfiando na multidão. O homem saiu irritado. A contragosto, obtivera sua resposta.
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Felizmente, a poesia semrpe se acha. Arteira! ;)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Bom senso


“Seria bom se faltasse bom senso às vezes na gente”, pensei nisso enquanto esperava por minha vez no consultório médico. Explico: cheguei cedo, cedo mesmo, e logo me vi sendo o primeiro da fila para ver o otorrinolaringologista em questão. Ótimo. Encontro a mãe de um amigo meu e começo a conversar. Tudo isso regado a bastante incomodo na garganta. Um puta incomodo. No começo pensei que isso era a somatização de uma infeliz tensão pela qual venho enfrentando nessas últimas semanas. Nisso não vou entrar em detalhes, é pessoal demais. Nem sei se deveria chamar isso de “tensão”, mas fazer o que, essa é a única palavra que encontrei. Continuando: lá estou eu, me sentindo um desgraçado. E o médico? Ah, o médico. Ele sai para resolver umas coisas e só vai voltar uma hora depois. “Já, já estou chegando”, ele disse. Imagine se ele tivesse dito que ia demorar. Eu ia passar o dia no consultório. Nessa hora pensei aquela frase que está no começo desta crônica. Perder o bom senso. Já pensou? Pensei em dizer pro médico quando ele voltasse: “porra, doutor, vá tomar no olho do seu cu!”; ou então: “caralho, doutor, até que enfim chegaste!”. Nota do autor: engraçado, nessas horas sempre dá uma vontade de meter uma “porra” ou um “caralho” no meio. Ei, isso ficou ambíguo. Ninguém viu... Pena que se isso fosse para um jornal ou uma revista eu teria que modificar. Bom, depende também da revista, mas isso é outro papo. Prosseguindo: o médico chega uma hora e uns minutos depois. Quem disse que fui logo atendido? Uns homens que vendem remédios ainda foram bater um papo com ele. Ok, espero. O curioso é que talvez você possa pensar que eu esteja pintando essa descrição da minha espera com certo rancor. Nem tanto, nem tanto, acredite, ainda mais agora, que já estou em casa. Na hora aproveitei para pensar em coisas da minha vida relacionada a esta “tensão”. Consigo aliviar um tanto. O suficiente para gostar de sentir o gosto do alívio. No meu caso isso faz sentido, acredite. A luta mais árdua é sempre contra si mesmo. Isso todo mundo sabe, mas quero deixar registrado isso. Eu preciso. Avante: “Caio Carvalho, pode subir”, a secretária diz. “Só uma coisa. Quando subir espere no sofá em frente à porta do consultório. Há uma senhora lá. Aguarde. Quando ela sair, entre”. Ok, subi. Sento e aguardo. Logo me assusto com o doutor falando alto lá de dentro. Motivo? A senhora tem deficiência auditiva. Ouvi tudinho. Ela precisa de aparelho auditivo. E custa em torno de três mil reais! Palavras do doutor. Ela diz que o salário é uma merda, que este não aumenta e que não tem condição de pagar (tudo isso em alto e bom som mesmo!). Tradução: ela disse que o Brasil é uma merda. Onde foi que já ouvi isso? Onde? É tão familiar, não? Acho que ouvi isso, humm... Ontem! E antes de ontem, e antes, e antes. É, Charles de Gaulle, eu sei, o Brasil não é um país sério, todos sabem e falam. E onde foi parar o meu desejo de perder o bom senso? Lá na hora ele sumiu. O sentimento empático o diluiu, mas ele vem às vezes, esse desejo. Por que a gente não surta de uma vez?, nos perguntamos. Pra quê?, eu me confronto. Talvez eu já tenha perdido o bom senso nestas últimas semanas e nem me dei conta. Resolveu? Não. Chego à conclusão que isso explica também muita coisa no Brasil, só pode... Mas continuemos, continuemos. A mulher sai minutos depois. Entro. Cumprimemtos formais. Tudo ok. Começo a falar. Toco no assunto da somatização, minha “tensão” e de que faço terapia. Falo que nem gripe tive, nem febre, só essa desgraça na minha garganta. Hora do exame. “É, Caio, isso não é somatização coisa nenhuma, isso é inflamação mesmo. Com pus e tudo”. Nota do autor: sempre quando tem pus a coisa não está legal. Pus! Hora da medicação. Hora das minhas perguntas sobre amidalite. Ouço a explicação. Entendo que não é preciso fazer essa cirurgia por isso, por isso e por isso, que hoje em dia não é mais bem assim. Pergunto o que pode ter causado essa inflamação. “Principalmente no seu caso, Caio, queda da imunidade”. Motivos? Fatores emocionais. E junta isso com esse período de chuva, dá nisso. Pego a receita com o nome dos medicamentos, agradeço e me mando. “Boa sorte, Caio, te cuida”. Já reparei que minha psique tem uma atração por envolvimentos com minha estrutura otorrinolaringológica (quem leu meu texto a cabeça feita de dor e a raiva roubada” sabe do que estou falando). Ou, claro, isso pode apenas ser uma coincidência.É, é coincidência. Passo na drogaria, compro os remédios. Agora estou em casa, tentando curar minha garganta e sarar meu bom senso.Boa tarde, boa noite, bom dia. Nesta ordem.

Obs: foto retirada deste endereço: http://tintaspermanentes.blogs.sapo.pt/arquivo/garganta.gif

domingo, 29 de março de 2009

Testamento de um Cadáver de Sangue Quente


Quando minha mãe me pariu, eu morri
Se você tem por mim algum apreço
Eu só lhe peço um último gesto
Um prato de farinha
Um punhado de afeição
Um jornal pra me cobrir
Ou quem sabe um pouco de esperança
Um fio de linha, um fio de voz
Um fio de fé
Uma colher pra eu revirar a minha fome
Garra pra eu revirar meu lixo
Uma lanterna pra eu iluminar
Meu fim de túnel
Se você tem por mim algum apreço
Eu gostaria de uma moeda,
Uma mão tocando minha pele
Se você puder, eu estou aqui morto,
Pode me procurar
Estou em toda parte
Na sua condução
Na sua janela
Na ponte que vai pra sua casa
Na carroceria do caminhão
Estou aí nos teus olhos,
Mas não estou no teu peito.
Quando minha mãe me pariu, eu morri
Se você tem por mim algum desprezo
Eu só lhe peço um último gesto
Mais um trago de cachaça
E meu último cálice de veneno
Pro meu cadáver poder enfim descansar em paz
Obrigado.