domingo, 6 de fevereiro de 2011

O diário das madrugadas de Doidivano II (ou As artes do acaso)



Link para O diário das madrugadas de Doidivano I:
http://atelhafb.blogspot.com/2009/02/o-diario-das-madrugadas-de-doidivano-ou.html.

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13 de março

É... já faz um mês. Eu não paro de ficar pensando nisso. Ela realmente ficou chateada naquela noite. Ficou mais do que chateada: ficou puta mesmo. Queria arrancar meus cabelos! Mas não a culpo, fui impulsivo de uma maneira insana, reconheço (...). O difícil será não tê-la como idéia fixa a partir de agora. E acredito que tomar álcool para esquecer uma mulher é que nem passar bicarbonato de sódio na afta: a dor passa, mas a ferida fica.

14 de março

Ouço o estalo da minha coluna como um carrilhão de ossos ao me erguer da calçada. Cansei! Esta foi a última vez que esperei aquela música daquele prédio. Há dias não a escuto. O que será que aconteceu? Deve ter mudado de casa, provavelmente, nosso pianista. Ou nossa, né? Excito-me com essa possibilidade. Mas eu acho que minha relação maior era com a música mesmo. Com a pianista seria só sexo.

15 de março

Sabem, andei pensando, enquanto caminhava hoje pela rua: tomar cerveja, ou qualquer outra bebida alcoólica, faz você se aproximar mais de você mesmo, de quem você é na verdade. Mas existe certo ponto limite. Se tomar mais do que deveria, você vai se aproximar tanto de ti mesmo que seu corpo e sua mente vão te rejeitar. Eles não vão tolerar tanto você. Aí vem o enjôo, o vômito, etc. É uma explicação. É uma boa explicação. Sei que é mentira, mas ficou realmente uma boa explicação.

16 de março

Nada por aqui de novo. E ali, e ali e ali. Andar por aí está começando a ficar chato. Nem medo mais eu tenho. Isso me permite dar mais gás a certos pensamentos vagabundos. Por exemplo: tempo. Não se pára o tempo. É impossível. Mesmo que ele pare por 3 segundos, ele não permaneceu 3 segundos parado, e sim estendido por mais 3 segundos. Nós contamos 3 segundos para medir essa interrupção. Ou seja: usamos o próprio tempo para comensurar uma imaginável situação de congelamento do tempo. Uma perfeita contradição. Motivo pelo qual ele, o tempo, não estaciona jamais (...). Estou bêbado, não liguem.

17 de março

Hoje algo aconteceu, e algo interessante: de repente, ouço uns gritinhos atrás de um morro. Subo-o e o que vejo? Justamente um casal fazendo sexo num matagal! Sim, achei estranho. Seria muito cômodo até mesmo dentro do carro, mas no mato? Vai entender... Graças à iluminação forte de um dos postes, estava tudo nítido, deu para ver tudo. O timbre da voz da mulher era perfeito para interjeições sacanas. E aquela pele! Deu pra ver o busto dela avermelhado quando ela ficou cavalgando por cima do cara. Sim, uma maravilha! (...) Depois de consumado o gozo de ambos, tratei logo de me retirar. No caminho fiquei pensando sobre voyeurismo e personagens tarados da literatura. Sabem, não tenho muito apreço por personagens tarados. Tenho uma grande implicância com eles e seus relatos. A literatura tem muito deles. Não que eu não goste de sexo ou falar de sexo, óbvio. Acredito que todos gostem de sexo. Ou não, como diria Caetano. Tem cada coisa nesse planeta que a gente nem imagina. Se há gente que tem até alergia de água, não é? Não duvido de nada nesse mundo. Mas existe gente que desconfia mais do que devia da subjetividade. Problema deles. O que mais há em entrevista é pessoal com essas frases de efeito: “nunca confie em quem nunca tomou porre”, “não acredito em quem me diz que não se masturba”. Não sei se dizem para parecerem interessantes ou porque sentem isso mesmo! Sei lá! Mas sim, personagens tarados! Odeio. Ponto.

18 de março

‘Tô me lembrando agora de uma frase de Henry Miller: “se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”. Arrogante! Quantas vezes não masturbamos as palavras traçando esboço de textos visivelmente medianos e que no final não dariam em nada? Isso é necessário em qualquer criação! Dane-se esse tal de Henry Miller. Quem nessa vida parte logo para o sexo? Geralmente a masturbação acompanha o início da nossa sexualidade, não é? Há uma graduação, pois. Uma coisa de cada vez. E todas as palavras voltam a ser virgens, meu caro, sempre que tentamos usá-las de novo.

19 de março

Hoje aconteceu algo novo: encontrei um transeunte vindo da esquina de uma rua. Veja só: ele veio caminhando em minha direção, aparentemente despreocupado. Dava para ver que ele estava fumando. Ao passar, perguntei se ele poderia me dar um cigarro. Puxei uma conversa. Perguntei o que ele fazia ali. O cara riu e disse-me ser um artista ou algo parecido, e que estava agora relaxando, após ter concluído uma grande obra. Quando o interpelei sobre que obra tinha sido essa, ele me veio com um papo muito estranho, perguntando-me que tipo(s) de expressão me fascinava (m), e qual ou quais eu gostaria de emoldurar dentro da minha mente. “Ué, não sei”, respondi. “Qualé!”, ele protestou. “Tente se lembrar, você deve ter!” Arrisquei, então, um fetiche que tenho: “gosto quando a pele de uma mulher fica avermelhada. Não chega a ser uma expressão, mas é o que eu tenho”. “Em qual ocasião você gosta de ver a pele vermelha?”, ele perguntou “Não sei, todas, eu acho.” “Estaria interessado de ver isso sob um ponto de vista bem intenso?”, indagou-me. “Humm, não sei, talvez”, respondi. “Encontre-me então aqui às 3h da manhã daqui a três dias. Acho que você poderá gostar do que vai ver”, prometeu ele, apertando minha mão, para logo depois ir embora.
Fiquei curioso...


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Ps: gostaria de oferecer os créditos a Arian Carvalho por ter criado a sentença que fecha o discurso do dia 13 de março. Ele não se lembra que a fez, como já me revelou recentemente, mas eu a anotei rapidamente. Achei ela boa demais para ser esquecida.

7 venetas:

Marcélia Macidália disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcélia Macidália disse...

Pretensioso e perfeito!
Eu não odeio personagens tarados. Gosto e muito deles. E esse lance de voyerismo hein? Há quem goste vez ou outra de ficar só observando...
;)
Parabéns Caio!

Juliana Oliveira disse...

Pretensioso. O outro comentário que tenho a fazer falo pra você. Parabéns, Caio.

Marcélia Macidália disse...

Minha linda, tem um meme pra vc lá no meu blog. espero que goste.

Fóssil disse...

Que louco. Eu achava que já tinha lido e comentado esse texto! Mas não fiz nem uma coisa nem outra.

Interessante esse relato de mais passagens da vida de Doidivano. Engraçado que embora a gente veja os mesmos traços de personalidade, os enfoques esse texto dá me parecem diferentes, embora elementos caros ao personagem ainda estejam lá: o sexo, a música, e o vagar das madrugadas. Muita poesia de boteco, lirismo de garrafa, realismo fantástico das horas mortas. Nos melhores sentidos de todas as palavras. Muito massa, Caio!

Marcélia Macidália disse...

Doidivano ta sumido e eu com saudades!

alencar, gabriela disse...

Gostei muito do que li por aqui (;