quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Expressão II (ou A dança louca das chagas)


Observação prévia: este post e mais os dois que virão nas próximas semanas estão interligados.Para poder acompanhar a trama dessa história, aconselho vocês a lerem - se não tiverem lido ainda ou se vocês não se lembram dos detalhes - os contos Expressão (http://atelhafb.blogspot.com/2009/03/expressao.html) e O diário das madrugadas de Doidivano (http://atelhafb.blogspot.com/2009/02/o-diario-das-madrugadas-de-doidivano-ou.html), que são o início, digamos assim, de tudo isso que vai ser interligado aos poucos. Espero que gostem do desenrolar dos fatos. Grande abraço! PS: peguei essa foto dessa página aqui: http://100brakes.blogspot.com/2010/09/vende-se-um-grito-usado-em-outras.html
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- Não se mexa tanto, doutor, espere... Pronto! Ótimo! Vamos agora para o pescoço, fiquei curioso agora para ver como você se comportará se eu estimular essa área...
O artista continuou olhando fixo para os olhos ávidos por ajuda do doutor, enquanto descia a faca para a garganta deste. Deu uma série de quatro cortes rápidos, partindo de baixo para cima, como se estivesse rubricando a pele. O sangue de cada pequena chaga, de cada risco em forma de ferida, aos poucos, se juntava.
- Será que tentamos mais forte? Humm... Acho melhor não. Não agora. Vamos tentar um corte vertical, começando no nível das clavículas e indo até a região do púbis, ok? Só para demarcar a área que mais irei trabalhar em você. É, acredito que não usarei os braços nem pernas... Pronto? Vou aplicar um pouquinho mais de força agora.
O urro do doutor ecoou feio pelo quarto mal iluminado.
- Consegue ouvir de longe esse barulhinho de sax? Bem baixinho mesmo? É meu amigo praticando ao lado. Na verdade ele treina aqui, mas sempre quando tenho que trabalhar em alguma obra minha uso este quarto. Ele tem um bom isolamento acústico. Eu que o projetei.
Os olhos fechados e tensos do doutor revelavam que aquela dor ele ainda não esquecera – e que ainda não se fora.
- É, reconheço que está difícil ouvir o barulhinho... – disse o artista, enquanto ficava passando bem de leve a faca sobre o peito de seu modelo, sem ferir.
– Pois bem, esqueçamos o sax, concentremo-nos aqui. Está se lembrando dos passos do meu processo, doutor? Eu lhe disse tudinho lá no Hospital Psiquiátrico, lembra? Ah, o Hospital... Foi relativamente fácil escapar de lá. Era só ter os contatos certos e a quantidade certa de propina... – comentou, dando um sorriso de canto de boca. E completa:
- Daí pra achar onde você morava foi um pulo...
Silêncio. O doutor voltou a olhá-lo. Longe daquela imagem respeitosa de médico que o jaleco branco impunha, ele parecia um rato de laboratório sujeito a uma experiência, com os braços, pernas e boca amarrados. Inútil tentar se soltar. O que o prendiam eram grossas correntes. E ele não estava deitado, mas em pé, com todo o corpo nu encostado na parede.
- Não posso perder tempo. Vamos ao trabalho?
Dirigiu-se, então, ao seu estojo de facas. Comparou-as longamente e finalmente decidiu qual usar. Rapidamente, com uma precisão virtuosa, traçou vários riscos partindo daquela grande ferida vertical. Esses riscos afluentes eram todos ondulados e sem um padrão fixo. Pareciam ondas de amplitude e comprimento absolutamente variáveis. Ondas que acabavam nas laterais do tórax e que se revelavam mais profundas no final. Ao se aproximarem do abdômen, as feridas em formato de ondas passaram a ser linhas curvadas e a terem como um único final um ponto determinado no início do púbis. O sangue brotava continuamente dessas chagas delgadas e o artista começou a espalhá-lo com o braço de forma cada vez mais rápida e aplicando uma pressão cada vez mais forte. Como se não fosse suficiente, passou a fazer riscos paralelos à primeira chaga meridional, para logo depois pegar um ralador de queijo e passar a esfregar veementemente no peito do doutor em pontos estratégicos. Com gosto, derrama limão e álcool na sua obra. Em seguida, espalha tinta branca para dar uma leve clareada no vermelho-escuro característico do sangue, ao mesmo tempo em que joga tinta verde pra dar um contraste maior. O artista bufava de cansaço, mas não parava. Incessantemente seguia com uma obediência militar toda sua inspiração. Novas idéias iam lhe surgindo, e em conseqüência outros instrumentos de seu repertório eram usados. Depois de um tempo - contrariando o que tinha dito - começa a se dedicar aos braços. Passa a aplicar golpes certeiros em cima deles usando a lâmina de uma faca realmente monstruosa, ocasionando novamente novas chagas paralelas, só que cinco vezes mais profundas!
O som que saía da boca do doutor, seu choro, sua expressão... Eram de fazer o diabo tremer nas bases só de agonia.
- SIM! SIM! MAIS! – e tratou de se dedicar mais ao pescoço, como tinha prometido. Troca de faca. Pega outra, só que dessa vez pequena, e inicia uma série de riscos horizontais ao longo da garganta. O sangue se faz presente num horrendo irrompimento.
-ISSO! – e joga longe sua faca, enquanto tira uma arma calibre 32 da calça. Observa ainda por uns segundos todo o resultado que brotou de seu agoniado modelo por meio de suas mãos e não se contenta: chora!
- Lindo! – e dá um tiro na glabela do doutor. Precisamente na glabela.

4 venetas:

Marcélia Macidália disse...

Caio meu querido, já te acompanho no twitter e vim te prestigiar aqui no blog também. Estou encantada com a singularidade dos teus textos. Acredite, estarei sempre por aqui.
Um abraço

Juliana disse...

Caio, Caio... texto rico em detalhes. Me senti assistindo a cena de um filme. Parabéns, amigo. Um forte abraço.

Fóssil disse...

Nossa, como "Expressão" produz esse desconforto em quem lê, essa agonia. Implacável, tétrico. Somado ao texto anterior, vão dizer que esse blog é de psicopatas, hehe.

Mas vou já no Google saber o que é glabela...

[já tinha lido há muito tempo, mas me faltava tempo pra comentar...]

Fóssil disse...

Ah, tá, descobri. x)