quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Contrição


Meu amor, fui um idiota. Eu deveria saber que um dia não suportarias mais minhas ausências. Minhas faltas. Meu amor, te peço perdão por tanta frieza. Por acreditar demais que o que tínhamos era eterno, não me preocupei em cuidar para que assim permanecesse. Não cultivei, apenas mantive. Amor, perdoe por não ter te levado para ver as estrelas. Por não ter te dado um buquê de rosas vermelhas. Pelo perfume que tu gostas e eu não usei. Por não ter elogiado teu vestido novo. Por nem saber que teu vestido, ou teu corte de cabelo, eram novos e pior, achar que isso não fazia diferença. Perdoe por te levar para jantar fora na terceira quinta-feira de todo mês. Perdoe por buscar sexo em ti, quando querias amor. Perdoe quando nem isso busquei. Não, amor, não é nenhuma brincadeira. Nunca falei tão sério. Preciso pedir perdão, preciso que saibas, amada, oh, como eu chorei quando foste embora. Quando deixaste nosso lar e eu vi cada mínima coisa, e senti teu toque em cada coisa e só então entendi aquela música que tanto gostavas e que toquei para ti ao piano quando namorávamos, lembra? Meu Deus, será que ainda sei tocar piano? Aquela música, meu amor, eu vi do jeito que tudo ficou, eu senti a tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou e percebi que até nossa casa já estava acostumada esperando você. Eu só quis morrer esses dias, amor. Só morrer. Talvez não signifique muito para ti agora, mas limpei os azulejos do banheiro e pintei as portas da casa todas com aquele azul claro que tu querias. Aparei a grama, tudo está tão do jeito que você queria, amor, e muito mais eu posso fazer para que me perdoes. Tudo que quiseres. Não chora, amor. Não chora, por favor. Também está sendo difícil pra mim, mas saibas que se há algo para perdoar de minha parte já foi feito. Sei que nem se compara ao perdão que precisas me dar, mas eu queria que você ficasse ciente disso também. Sabe, amor, me peguei pensando depois que tu foste embora (e esqueceste tanta coisa, amor, tanta coisa tua que ficou lá na nossa casa que eu sabia que no fundo não poderia estar fazendo aquilo a sério) em tudo que fizemos no começo do nosso namoro, de quando consensuamos morar juntos, de nossa felicidade pintando juntos o apartamento, de como morremos de rir ao ver o resultado depois e acabamos tendo que gastar mais que o dobro, comprando mais tintas e contratando um pintor profissional. Que besteira, amor! Mas foram tantas risadas, tantas risadas que, ah, meu amor, só me fizeram chorar esses dias, só chorar mas rindo um tanto também, amor. Só quis morrer, só morrer. Mas morrer não adiantaria, amada, pois eu tenho certeza que minha alma não descansaria com tão grande amor envenenado no peito. Não, amor, não chore e não tente fazer isso, vai se machucar. Por isso que eu tinha que ir lhe procurar, amor, eu decidi que lutaria por ti, por nós. Eu sabia que restava fogo, que ainda havia amor e eu pude comprovar nos teus olhos, vi teus olhos brilharem quando cheguei, mesmo que negasses, mesmo que tu dissesses para eu me retirar, eu só vi amor nos teus olhos e ouvi amor das entrelinhas do que me dizias. Por isso te trouxe de volta à nossa casa, pra tu veres como está tudo aqui, nesse dó que só vendo, só vendo mesmo. Vês? Sim, sei que vês, pergunta boba, ah, meu amor, estou tão feliz que nem sei o que estou dizendo. Deves estar cansada de me ouvir já. Vou te deixar um pouco aqui, amor. Deite um pouco e descanse. Sei que ainda não me perdoaste por inteiro, sei que ainda há rancor, mas sei que logo tudo voltará a ser como antes. Logo, logo, haverá não apenas um pequeno brilho nos teus olhos, mas aquela chama imensa, maior que nós, capaz de incendiar tudo em nós e deitar fogo ao mundo. Quando eu voltar, aposto que muito dessa chave já estará reavivada. Não, amor! Já lhe disse, não chore e não tente tirar essas cordas, isso vai machucar os seus pulsos! Sei que parece desconfortável de início, e esse pano na boca também, mas isso não vai te machucar se você ficar quietinha um pouco. Só um pouco, amor, só o átimo de voltares a amar. Não, não seja boba, sei que ainda não é tempo. Mas o tempo virá. Tenho que ir agora, amor. Mas saiba disso, o tempo virá. E tudo voltará a ser como antes. Não. Agora será ainda melhor do que nunca foi. Eu te amo.

1 venetas:

Caio Carvalho disse...

Caralho... Sinistro esse final. Eu tava achando muito meloso... Mas esse final foi uma grande sacada!