
- Canta comigo, mano Pedro?
O ânimo da roda arrefeceu. Pedro era um cantor terrível. Voz medonha, nenhuma idéia do que fosse ritmo – era daqueles que não servia nem para bater palmas. E ele sabia disso.
- Acho melhor não, João...
- Deixe de frescura, homi! Cante!
João, por outro lado, era um exímio tocador de pandeiro e cantava como ninguém ali. Chegava na roda e fazia miséria. Não havia canção que o diabo do homem não acompanhasse. E tocava e cantava com uma voz bela e poderosa, deixando a todos maravilhados.
O problema era Pedro, que nunca saía de perto de João, que por sua vez fazia questão que ele acompanhasse as músicas. Pedro provavelmente sabia todas as letras de música do mundo. Certo, isso é um tanto exagerado... mas, para a infelicidade de todos, também parecia não haver música que Pedro não soubesse cantar junto – ele se esforçava para que isso parecesse natural, quando na verdade ele passava horas a fio ouvindo as músicas incansavelmente para não fazer feio na roda. Claro que, no caso dele, isso estava longe de bastar. E ele ficava puto de ver que João, sem esforço, se saía melhor que ele. E olha que fora Pedro que apresentara João a todos, quando este chegou ao bairro.
“Ei pessoal! Esse aqui é o João, acaba de se mudar pra cá. Falei pra ele da roda, ele tá a fim de entrar também. Parece que ele arranha legal um pandeiro”.
Inferno!
João estava longe de desconfiar dos ciúmes de Pedro. Considerava o amigo um homem honesto, trabalhador e inteligente. Ele era só um “boa vida”, sem jeito pra nada, não parava em emprego algum. Pedro tinha o respeito e admiração de todos na comunidade; João só os tinha na roda de samba. Pedro tinha tudo o que João não tinha: Pedro tinha Ruth.
Desde que a vira a primeira vez na roda, João ficou maravilhado. Ruth era incrivelmente linda e, como ele e Pedro, sabia todas as músicas na ponta da língua. Pouco sambava, preferia ficar sentada conversando com os mais próximos, bebericando um copo de caipirinha e acompanhando as suas músicas prediletas – as quais João não tardou a memorizar, para puxar sempre:
- “Flor-de-lis”, Ruthinha!
A moça cantava contente:
- “Valei-me Deus, é o fim do nosso amor...”
Mas por maiores que fossem os seus esforços, por mais que todas as outras mulheres vivessem caindo aos seus pés, foi justamente o tímido Pedro que despertou o afeto de Ruth. Ele não sabia o que tinha feito de bom, mas quando Ruth pediu que ele fosse à sua casa buscar um pedaço de bolo de fubá que ela havia feito e confessou o que sentia por ele, Pedro pela primeira vez experimentou aquelas sensações das músicas que ouvia.
Dois anos depois, Pedro e Ruth já moravam juntos, para escândalo da família dela, que não aceitava aquela união sem casamento. Mas eram os únicos que pensavam dessa maneira; todos sorriam ao ver os dois passando de manhã, juntos, para a parada de ônibus – ela para o hotel em que trabalhava como recepcionista, ele para o canteiro de obras. Graças a Deus, não estava faltando emprego pra nenhum dos dois ultimamente. Pedro, por incentivo de Ruth, começara a freqüentar a escola à noite e, devagarinho, aprendia a ler e escrever, com ela tomando a lição assim que ele chegava em casa. Falavam em ter filhos, mas não pra agora. Falavam em reformar a casa, em parte com o dinheiro do aluguel da casa de Ruth, em parte com uns bicos que Pedro fazia no final de semana pela vizinhança e que estavam rendendo um bom dinheiro. E no fim do domingo, iam os dois para a roda de samba.
João continuava o mesmo. Tinha impressão de que todos à sua volta cresciam e mudavam, e ele ainda ali, enquanto o mundo girava mais veloz que seu pandeiro. Via a felicidade de Pedro e Ruth e lhe repugnava perceber o quanto ela o incomodava. Tentou sufocar o sentimento de todas as formas. Tentou samba, poesia, orgia e bebida. Tentou até igreja uma vez, mas logo viu que aquilo não era para ele. Mas o que ele queria não era para ele. A não ser que ele roubasse. E foi quando João começou a perder seus escrúpulos.
Voltou a jogar charmes para Ruth na roda. Frequentava a casa com a desculpa de ver Pedro, ficava para o jantar, para assistir TV até mais tarde. E se insinuava compulsivamente para a mulher. Pedro nada percebia, mas Ruth sim. No começo, ela pensou que fosse loucura: aquele era o melhor amigo do seu homem! Mas sim, as investidas de João eram cada vez mais claras e ela não tinha mais dúvidas das suas intenções.
Depois de um dia particularmente cansativo na construção, Pedro voltava. Ruth tinha prometido fazer escondidinho de carne naquele dia e ele andava quase correndo para comer a excelente comida da mulher. O que ele não esperava era ouvir duas vozes lá dentro:
- ... ele já está quase chegando, por favor, vá se embora!
- Espera, deixa eu ficar mais um pouco...
João?
(Continua no próximo post)
3 venetas:
há qualquer coisa de Chico, de "Domingo no parque" e de otras cositas mas no teu texto que me fazem querer ver a continuação... fora que sou um Pedro musical...ahuahuahuah
Nossa, pensei muito em "Domingo no parque" quando escrevia, apesar do nome ser uma referência ao Chico. Tá mais óbvio do que eu esperava. Legal! =]
Ansiosa pelo próprixo post...
era pra ser só uma visita. mas resolvi seguir.
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