terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando aparece uma flor - conclusão


Perdera Ruth de vista, mas sabia exatamente onde ela ia.
Avistou a mulher agachada em frente à porta da casa do amante. Vadia desavergonhada! Era cedo ainda, ele tinha certeza de que as pessoas podiam vê-la. De repente, a porta se abriu e João saiu. Ruth pareceu assustada e no momento que se voltou para sair, Pedro abriu o portão com um chute, já empunhando o revólver:
- Que porra é essa aqui, seus filhos da puta?
Ruth gritou e João empalideceu. Os dois entraram na casa, e Pedro os seguiu, abrindo a porta com violência.
- Calma, mano Pedro!
- Mano é o teu cu, seu traidor sem-vergonha – disse Pedro, atirando em João que caiu no chão da sua sala, berrando de dor.
- E tu, sua vadia? E tu, sua puta? Eu te amei, eu achei que tu me amava!
- Pedro, espera, a gente precisa conversar...
- Conversar é o caralho! – gritou Pedro. Três tiros na mulher que mais amou na vida. Três balas no coração, onde ela o feriu também.
João jazia para um lado e Ruth para outro. Pedro viu o bilhete que Ruth escrevera ainda na soleira da porta. Abaixou-se e o apanhou. Que porra, não saber ler! Mas ele podia ver a palavra lá, aquela palavra que ele aprendera a soletrar por ela
“Pois é, professora, é que a minha mulher que tá me incentivando a estudar, eu queria fazer uma surpresa...”
Amor.
A-M-O-R.
DESGRAÇADA!
Alarmados pelo barulho e pela confusão, muitos homens acudiram à porta. Tomás entrou na frente e viu a cena primeiro:
- Pedro, pelo amor de Deus, o que tu fez?
- Foram eles que pediram, Tomás! Olha o que essa vagabunda escreveu aqui pra esse filho da puta!
Tomás tomou o bilhete das mãos dele e leu. O rosto dele foi perdendo a cor. O papel tremia em sua mão apertada e os dentes dele serravam.
- Tu quer saber o que tem aqui, filho da puta?
Pedro, confuso, olhou interrogativamente para Tomás, que leu:
“João,
Já sei dos seus sentimentos por mim. Já sei o quanto te acostumou a ter todas as mulheres pra ti. Mas não eu. Sou mulher forte. O meu homem é só um e eu seu bem quem ele é: o Pedro. Por favor, não me procura mais. Não vem mais em nossa casa. Não vamos mais pra roda de samba também. Sei que tu não tem culpa do que sente, nosso coração não escolhe. Mas entenda que se o teu coração escolheu me amar, eu nunca vou poder te amar de volta. Todo o meu amor é pro Pedro, meu único e grande amor”.

Vinte anos depois, o homem está sentado na cadeira de balanço. Os anos na prisão e a surra que levou naquele dia fatídico, da qual nem tentou se defender, o deixaram envelhecido e debilitado. Estava doente do corpo, mas acima de tudo estava doente da alma. Todo dia amaldiçoava a polícia por ter tirado a multidão de cima dele e a sua covardia em não conseguir ele próprio dar um fim na sua vida. Virara um escarro do que já era, ali naquela cadeira de balanço, com seu cobertor e seus fantasmas.
Naquele fim de tarde, ele veio. Manco, apoiado numa bengala, tão velho quanto ele, mas o pandeiro traía sua identidade. Chegou e se sentou ao seu lado, em silêncio. E assim ficaram muito tempo, até que Pedro disse, com a voz cansada:
- Puxe pra mim o “Samba do grande amor”, mano João?
O outro puxou o pandeiro e cantou bem baixinho:
- “Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor... mentira.”


(Desculpem a demora e obrigado pela paciência!)

PS: Esse texto tem livre inspiração em um excelente cordel do Zé da Luz, que pode ser encontrado aqui: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1211493 Obrigado por me passar o endereço e atentar para isso, Arnaldo!

2 venetas:

Alanna disse...

cara...
estou sem palavras.
eu AMEI isso.
esse amor desgraçado deixou o cara cego de ciúme.
mas eles eram manos.
é.
sinistro.
lindo.

jefhcardoso disse...

Olá amigo Fóssil; já vi o Rolando Boldrin, recitar um causo parecido com esse, no Senhor Brasil (TV Cultura) e lendo seu post, lembrei-me de um pequeno fragmento de "Desassossego" de Bernardo Soares: "Que possuímos? Que possuímos? Possuímos a alma? Ouve-me em silêncio. Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? E se não possuo o meu corpo, como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma - como posso possuir com ela?"
Abraço, amigo.

Peço seu voto para o Top Blog 2010, últimos dias. Na primeira fase fui bem votado, mas na segunda estou ficando para trás. Preciso que os amigos entrem no meu blog e clicando no selo Top Blog preencham os campos nome e email, e depois confirmem. Ainda há chance, porém, não sem sua ajuda. Agradeço desde já.
Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com