
Kierkegaard na Porta dos Desesperados do Sérgio Malandro. Trilha de fundo: “O Fortuna”, parte da cantata “Carmina Burana”, de Carl Orff.
- Vamos lá, Kiki! Qual das três portas que você quer abrir?
- Humm... Estou pensando...
- Vamos com calma, vamos com calma, Kiki! Se lembre que atrás de um dessas portas está a “certeza de tudo”, meu chapa! A “certeza de tudo”, Kiki!
- Hum...
- Você não gostaria de ter a “certeza de tudo”, Kiki?
-Hum...
- Ele está desesperado, ele está desesperado, pessoal! Close nele, close nesse rapaz! Olhem só a agonia dele!
- Hum...
- Ele está desesperado! Você está desesperado, Kiki? ‘Tá desesperado? Então grita!
-Hum...
- Grita, Kiki!
-Hum...
- Mata mosquito! Mata mosquito!
- ...
- Vamos abrir a Porta dos Desesperados! Maestro, que rufem os tambores!
“Qual porta? O sucesso da minha escolha está além do alcance da minha volição. Não há critérios seguros pelos quais eu poderia seguir. Estou totalmente à mercê do acaso, do que é externo a mim...”
- Kiki, qual porta você vai abrir?
“Vejo-me sufocado pela alternativa de me entregar, nem que seja por três segundos, aos caprichos de uma escolha encravada na maneira estética de viver a vida...”
-Kiki?!
“Lort!”*
- Qual será...
“Esta é a opção: entregar-me ao ato subjetivo último, a fé!”
-... a porta...
“Mas qual porta?”
-... que você vai escolher?
- A terceira!
- Então vai! Vai! Abre que o prêmio é teu!
Kierkegaard fechou os olhos. Deu uma expirada digna e farta e lançou-se a abrir a porta número 3.
Abriu. Ganhou um videogame.
- Um videogame! Muito bom, Kiki! Próximo da platéia?
*Lort: bosta, em dinamarquês.
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FINAL ALTERNATIVO
(...)
Kierkegaard fechou os olhos. Deu uma expirada digna e farta e lançou-se a abrir a porta número 3.
Abriu. Ganhou um videogame.
- Um videogame! Muito bom, Kiki! Próximo da platéia?
“Lort! Torpe escolha!”
- Outro da platéia! Você, menino! Sim, você, venha cá! Qual seu nome?
- Jean.
- ‘Tá nervoso, menino?
- Aham!
- ‘Tá nervoso? Então grita!
- AAAAAHHHH!
-Grita!
-AAAAAHHHHHH!
- Jean, você já sabe qual é o prêmio máximo. Já escolheu a porta que você vai abrir?
-Aham! É a primeira!
- Então vai, abre que o prêmio é teu!
E abriu. Reluzindo inocentemente dentro do compartimento, e acomodado em uma almofada dourada de ceda, estava a “certeza de tudo”. E reluzindo ao prêmio máximo, estavam os olhos e os dentes de Jean, os quais tiveram sua importante participação na elaboração de um sorriso assaz ardiloso. O menino foi rápido: suas mãos já estavam no travesseiro do cobiçado galardão enquanto o próprio Sérgio Malandro gritava:
- Ganhou! Jean ganhou a “certeza de tudo”!ELE GANHOU!
“Não! Bastardo! Patife! Tratante!”
E enquanto Kierkegaard xingava Jean mentalmente, o menino erguia orgulhosamente a almofada com o prêmio para uma platéia animada e invejosa. Curtia, e curtia bem seus 16 minutos de fama, sabendo que logo mais, na privacidade de sua casa, desfrutaria aquele presente. Temos que conveniar com tal fato: para uma criança, já era bem consciente das coisas. Bem consciente (...). Kierkegaard, fulo da vida, deixou-se levar por sua inveja colérica e se jogou em cima do menino a fim de tirar à força o “cobiçado de todos”. Na confusão, Jean acaba por deixar cair o prêmio, o qual se quebra em dois pedaços iguais, os quais ficam bem distantes um do outro no chão. O filósofo dinamarquês desespera-se. Apressa-se a capturar ambas as partes, enquanto o menino tenta atrapalhá-lo, puxando as pernas assimétricas dele. Com a posse de uma das partes, trata logo de procurar a outra, que poderia estar em qualquer canto. Avista-a, depois de alguns segundos, logo em baixo de uma das câmeras do programa. Corre, afoito, para pegá-la. Jean, no entanto, mostra-se mais ágil e derruba-o. Kierkegaard cai feio e deixa cair a parte que já estava em suas mãos, fazendo-a quebrar-se em centenas de pedaços. O menino, puto com tudo o que aconteceu, vai para um canto e começa a chorar. Sérgio Malandro não sabe o que falar. E as câmeras apenas se limitam a filmar aquele pobre filósofo, enquanto ele, pateticamente, tenta ajuntar pequenas meias-verdades (...).
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Fiquei em dúvida entre os finais. Como esse é um dos poucos casos em que eu posso realmente escolher as duas coisas, por que não colocar os dois, né? Espero que vocês gostem. O próximo post será sobre Descartes. Até lá. Abraço!
PS: desculpe, Kayla, eu tinha que colocar os dois finais ;)
2 venetas:
O texto em si é muito bacana e divertido, mas acho que não consegui perceber o seu significado... preciso ler mais algumas vezes. Quem sabe depois faço um comentário melhor :D
absolutamente genial!
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