quinta-feira, 22 de julho de 2010

Descartes Soul Band


Descartes teve mais certeza que a alma existia quando ouviu James Brown pela primeira vez. Rendeu-se, pois, de imediato, ao caminho subjetivo da análise da existência do espírito, como ele mesmo disse. Não que ele tenha renegado todo seu empreendimento racionalista, característico de sua filosofia, mas que o reforçou com mais um elemento: o funk. Sim! É impossível alguém que tenha alma não se deixar levar por esse estilo. “Posso dizer que um não vive sem o outro. Se penso, sou, antes de tudo, um ser que pensa. Se sou um ser pensante, sou algo, sim, sem dúvidas; Um algo que possui uma essência, a alma - a substância pensante -, a qual é necessária para se criar o funk, que retroalimenta, por sua vez, a própria alma com um frisson incomparável e energético”, comenta, brilhantemente, Descartes. E emenda: “Sendo assim: penso, logo soul!” , fazendo referencia a soul music, nome que se dá ao conjunto da música afro-americana, na qual o funk está incluso. E foi a partir daí que o filósofo francês teve a inspiração para criar o nome de sua banda de funk, a Descartes Soul Band, que conta com a participação do filósofo e matemático holandês Isaac Beekman no contrabaixo e do teólogo e erudito Marin Mersenne na guitarra. Descartes, para completar, é o vocalista e o baterista. “E por que bateria?, você me perguntaria”, afirma René. “Porque não há instrumento que melhor represente minha filosofia do que a bateria. Ela é a base, a espinha dorsal! É ela quem sustenta a música feita por minha banda, assim como meu ‘cogito, ergo sum’, que sustenta todo o meu raciocínio da busca pelos princípios fundamentais que se pode conhecer como sendo verdade sem qualquer sombra de dúvida. Ele é o meu ponto de partida indubitável, em cima do qual estruturei minhas conclusões, como a certeza da existência da alma – por isso uma ‘soul band’! –,da existência de Deus e da veracidade do mundo externo”.
O processo de composição se baseia em jam’s – ou nos improvisos, para os leigos. “Descartes sempre nos vem com uma levada de bateria pronta”, afirma Beekman. “Ele tem um método próprio para ver se suas levadas são boas ou não: ele nega todas as que faz, dizendo de antemão que são ruins, encarnando um extremo perfeccionismo. Depois, toca-as de novo num estúdio fechado, uma por uma, durante uns 3 minutos, e, por meio de sua intuição, escolhe as que mais tocaram sua alma. Logo em seguida, então, ele nos mostra as levadas selecionadas e improvisamos horas a fio em cima delas. Raramente eu ou o Mersenne vimos com uma idéia de baixo ou de guitarra já pronta. Até porque ele, Descartes, raramente aceita. Tudo, segundo ele, tem que partir da bateria. Não discordamos, até porque René nos deixa à vontade para improvisar o que quisermos – mas dentro das levadas dele. E ele, quando gosta muito de uma levada, a repete em mais de cinco músicas, por exemplo”.
O primeiro álbum da banda será lançado dentro de alguns meses. Será intitulado de “Penso, logo soul” e terá a participação especial do naipe de metais da banda “Kool & the Gang”. “Uma banda de funk sem metais fica um tanto manca”, explica Mersenne. E continua: “Sendo assim, convidamos o pessoal da ‘Kool & the Gang’ para nos dar uma força. As músicas estão ótimas, com um suingue irresistível. Aconselho qualquer um a nos ouvir, o som é de primeira”.
Três singles da banda já estão sendo vendidos pela internet: “Das coisas que se pode colocar em dúvida” (que por sinal é o nome do primeiro capítulo do livro ‘Meditações Metafísicas’ de Descartes), “Aqueça minha alma, honey” e “Wake Up (I feel like being a thinking machine)”. A segunda já está em sexto lugar nas paradas européias e em sétimo nas norte-americanas, provando que “Penso, logo soul” tem certo potencial para conquistar o público. “Sabemos que a indústria fonográfica está passando por momentos difíceis. Por isso mesmo estamos nos adaptando a essa nova era do mercado musical, lançando e vendendo músicas pela internet, produzindo clipes e jogando-os no youtube, etc”, enfatiza Descartes. “Construir um público fiel é nosso objetivo. Não é tarefa fácil, eu sei disso. Já me chamaram até de doido por tentar entrar no meanstrean com a música funk. Mas estamos razoavelmente bem posicionados nos EUA e na Europa. Vamos ver até onde isso vai dar”, pontua, com a grande coragem dos artistas que não têm medo de arriscar.
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Fontes:

http://oficinadefilosofia.wordpress.com/2007/01/23/a-importancia-das-meditacoes-de-descartes/

http://filosoque.blogspot.com/2010/03/descartes-meditacoes-metafisicas.html

STRATHERN, Paul. Descartes em 90 minutos. Tradução: Maria Helena Geordane. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.


Esse foi um dos jeitos que encontrei pra demosntrar meu amor ao funk (o americano, o original!) e à bateria. Aproveito pra agradecer ao Fóssil, que criou o trocadilho "penso, logo soul" e me mostrou, inspirando-me. Valeu, bicho! E espero, mais uma vez, que vocês, leitores, gostem desse texto (ele virou um dos meus favoritos). Até o próximo post, grande abraço!

5 venetas:

Fóssil disse...

Muito bom!!! Adorei mesmo! E tenho que fazer essa minha camisa. hahaha Uma das melhores ideias que já tive, com certeza! xD

Mas esse texto tá muito parcial. Nem puxou a brasa pra sardinha da bateria, hein? Tsc tsc...

hahahah

Luciano Leite disse...

post absolutamente perfeito!
banalização do erudito e eruditização do banal!cara, vc é um gênio!

Thi L. disse...

Grande Caio...
Que texto!!! =) Um dos melhores do blog até agora...
"Penso, logo soul"!
Essa deliciosa black music que contagia a quem ouve e sente e a sua paixão evidente pelo seu instrumento de trabalho!!! =) Muito legal.
Ahhh, vale ressaltar que sem metais, realmente não é a mesma coisa.
Abraços.

Thi L. disse...

Ainda acho esse texto fodástico! haha =)
Abraços...

espacoanchieta disse...

Nobre Caio, cada vez mais fico feliz com a arquitetura lapidada que apresentas em tuas produções!

Parabéns!

Ah, voltei a confeccionar meus textos, agora estou noutro endereço.

"espacobrunoanchietaalves"