quarta-feira, 23 de junho de 2010

O extremista


Coitado, não era bom falando em público. Para piorar, inventa de ser professor.
- Então... É... Dando continuidade a explicação das relações... É... Entreeee... A economia e o tipo puro de dominação tradicional... Ééé vimos que a própria gestão econômica deste tipo-ideal é feita... Éééé... Como é?... É feita por meio de certo fortalecimento das idéias tradicionais. Sim. Dessa forma, o patrimonialismo... Não! O... A dominação patriarcal... Puramente patriarcal... E o... A dominação gerontocrática...
Chove. Um texto cai logo ali, perto da mesa de um aluno que segura seu rosto com a mão direita. Monotonia. Monotonia. Monotonia. Um pneu grita na rua. Monotonia.
-... Atuam de forma mais forte... É, como é?... Atuam de forma mais forte, pois, devido ao fato deeeeeee... Ambos não usufruírem de um quadro administrativo , dependem, éééé, em alto grau, né?, para manter a legitimidade, como diz Weber, da... – pausa para ver suas anotações – daaaa... Prática, do cumprimento da tradição. Até aqui, alguma pergunta?
“Porra, por que tu não te matas?”
Nenhuma pergunta. Nenhuma pergunta pronunciada.
- Continuando... – com os olhos fixos ao chão, como sempre.
- Professor, tenho uma dúvida!
- Diga.
- Bem, sobre aquele conceito de ação social que o senhor explicou... Eu não entendi bem. O que vem a ser mesmo uma ação social?
- Ação social? Eu dei isso faz tempo...
-Sim, mas você poderia explicar de novo, por favor?
- Bem, a ação social de Weber vem a ser um... Um, é... Uma ação, né?, que tanto pode... Pode ser um fazer externo ou interno, de omitir ou permitir,né? Dotada deeeee... Como é? Certo sentido subjetivo que sempre leva em consideração... Éééé, a figura do outro, né?, o comportamento do outro.
- Entendo. Professor, então quer dizer que isso que eu vou fazer pode ser considerado uma ação social?
- Isso o qu...?
Antes mesmo de terminar a frase, o aluno atira na cabeça do professor. O sangue espirra no quadro branco e em algumas carteiras da frente. O professor cai, morto. Não houve barulho – a arma estava com um silenciador. Uma mulher que estava bem na frente dá um grito.
- Calada. – ordena o atirador,com uma voz bem mansa, suave,apontando a arma – Calada. Aliás, todos calados. Ninguém fala até eu mandar.
O atirador se levanta calmamente, com a arma em punho, e locomove-se até a frente da sala. Passa por cima do cadáver e dá uma boa encarada em todos. Deviam ter o que? Uns 30, 35 alunos? Sim, por aí. 30, 35 alunos de olhos arregalados.
- Muito bem, isso foi uma ação social? – pergunta o atirador. Ninguém responde.
- Vou perguntar mais uma vez: alguém sabe se isso foi ou não foi uma ação social? – calmamente, pronunciando cada sílaba, como se estivesse falando com crianças.
- Você! Responda! – e aponta para um jovem da segunda fileira – Foi ou não foi?
- A-a-acho que não... – responde timidamente.
- Por que?
- Na verdade, não sei – e reunindo um pouco mais de coragem: - Isso quem tem que me dizer é você.
- Humm, Bom, bom. Então não faz idéia por que fiz isso?
- Não sei. Não consigo ver seu ato como compreensível.
- Hum, tente pensar um pouco mais...
- Bem, não sei, você pode ter um ódio secreto pelo professor, sabe-se lá a razão; você pode... Não sei, acredito até que o possível ato de decidir não atirar no professor configura-se mais até como ação social do que atirar nele.
- Por que?
- Porque ao decidir não atirar nele, você leva em consideração os outros, o que farão com você, o que pensarão de você...
- Continue.
- E ao atirar você estabelece um contra-senso. Não sei, não é compreensível...
- Como não? Você nunca teve vontade de matar ninguém?
- Bem, sei lá... Acho que sim. Mas acho que eu que devia lhe fazer as perguntas, não? – um tanto corajoso esse jovem, não?
-Hum, bom. Pergunte então.
- Bem – agora o jovem ficou tranqüilo. Parece que o atirador quer estabelecer um diálogo estável –, você gostava do professor?
- Não.
- Hum. Ao ponto de matá-lo? É, que pergunta! Pelo visto sim.
-Hum.
-Você sabe que cometeu um crime, não?
- Sim.
- Sabe que há várias testemunhas, né?
- Sim, só quem viu.
- Pois é, você teve o cuidado de usar um silencioso. Por que você só queria que nós, da sala, víssemos?
- Para termos uma maior dinâmica na sala, não? As aulas dele eram péssimas.
-Mas... A lógica indicaria que todos ficariam surpresos e assustados com seu ato, não agradecidos.
- Hum, bom.
- Logo não foi uma ação social. Foi uma anti-ação social.
- Bom, vejo que você aprendeu bem o conceito. Vamos embora, então? Tivemos uma boa conclusão aqui.
E todos saíram em fila indiana. O jovem e o atirador por último. Este apagou as luzes da sala.
É, não foi uma ação social.

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Refências:
WEBER, Max.Economia e sociedade.Brasília, DF: editora Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do estado de São Paulo, volume I,4. ed, 1999

RODRIGUES, Alberto Tosi.Sociologia da Educação.Rio de Janeiro: DP&A, 2. ed, 2001.

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Bom, ficou um pouco igual àquele texto "Expressão"... Mas tudo bem. Fico feliz em ter escrito um texto. Fazia tempo que eu não fazia um. Espero que gostem. Abraços.

2 venetas:

Fóssil disse...

Esse texto continua me nocauteando a cada vez que leio. Não sei exatamente o que comentar; é impressionante como tu consegues explorar essa dualidade entre insano e racional - aliás, extremamente insano e extremamente racional. Ou a extrema racionalidade levando à insanidade, não sei. Acho que agora entendo melhor porque tu disseste que lembra "Expressão", mas tu exploraste vieses diferenciados da psiqué, acaba que torna os textos muito diferentes a quem lê... pelo menos, eu acho. O assassino de "Expressão" queria o sentir extremo das suas vítimas, mas "O extremista" quer que seus colegas raciocinem xD Não sei, não sei... bem, só pra finalizar, duas coisas: 1) não estou bem certo se não foi de fato uma Ação Social weberiana; 2) eu acho digno o que esse cara fez: vontade não me falta de fazê-lo, volta e meia...

Jéssica Mendes disse...

Li e acredito que fiz a mesma expressão de surpresa de quando assisti Bartardos Inglórios.
Gostei. Gosto dessas coisas assim impactantes e que quebram uma possível previsibilidade.