sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A vós

Você diz que não podia ter feito nada, mas é mentira. Você disse que não me ouviu, mas é mentira. Você disse que nunca lhe disseram, mas é mentira.

Eu estava lá, do lado de fora da janela do seu carro, mas ela estava fechada e havia fumê demais. Eu estava lá, na escadaria daquele prédio de mármore, mas você estava vendo as horas quando passou por mim. Eu estava lá, olhando pela sua vitrine, mas você baixou as persianas. Eu estava lá e tentei lhe falar, mas eu estava rouco e cansado e você não parava de dar ordens no seu celular... esperei outro dia para lhe falar e lhe falei, mas nesse dia então, você não queria ser incomodado. Eu estava lá, estava lá morrendo naquele leito de hospital, estava lá naquele beco fétido e frio, estava lá naquelas esquinas tendo que sorrir, mesmo chorando, estava lá nos ônibus que você ou seus filhos ou sua mulher artificial não precisam pegar, estava lá caminhando sobre espinhos e sentindo meu corpo afundar e percebi que era você que pisava em mim, você que usava o meu corpo como tapete e nem se dava conta da minha presença. Sou eu que estou aí em você, é o meu suor que faz o seu pão, a sua roupa, o seu carro, a sua piscina sou eu. São as minhas lágrimas que lavam o seu corpo. É o meu sangue que faz a sua taça transbordar e com que delícia você bebe, com que delícia você se deleita e sacia sua sede como um animal e se diz o mais civilizado dos homens. Ninguém duvida da sua civilidade enquanto bebem meu sangue junto com você, todos em seus ternos italianos, suas camisas de linho, seus sapatos de couro. Seus sorrisos de plástico.

E como fica bem a um homem civilizado se apiedar de mim imolado, um cadáver que realmente não merece sua piedade, não é mesmo?

Mas você não se importa realmente, não é mesmo?

É a minha cabeça que está naquela bandeja de prata.

4 venetas:

Alanna disse...

me faz pensar em políticos...
não sei se tua intenção foi essa, mas enquanto lia eu lembrei deles.

Caio Carvalho disse...

Sim, sim, os políticos também se enquadram dentro desse texto, o qual me fez lembrar de uma música do Gabriel, o Pensador, chamada "O resto do mundo". Só pra vcs teram uma idéia: "Eu queria morar numa favela
O meu sonho é morar numa favela
Eu me chamo de cheiroso como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser seu dotô
Eu num tenho nome
Eu num tenho identidade
Eu num tenho nem certeza se eu sou gente de verdade
Eu num tenho nada
Mas gostaria de ter
Aproveita seu dotô e dá um trocado pra eu comer...
Eu gostaria de ter um pingo de orgulho
Mas isso é impossível pra quem come o entulho
Misturado com os ratos e com as baratas
E com o papel higiênico usado
Nas latas de lixo
Eu vivo como um bicho ou pior que isso
[...]"
Bom diálogo entre essa letra e o texto de Carlos.

Luciano Leite disse...

muito bom o texto, cara.
indireto, fugaz, como toda coisa bem escrita!

Beatriz Carvalho disse...

Uma escrita interessante.
Além de pensar em politicos pensei que o texto cabe a outros seres que não contribuem para minha paz e sussego.

Ei de voltar, ei.