quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ela


Chico Buarque tocando no celular. "Aprendi a desconfiar do teu silêncio...". Ele olhou para ela, que olhava o nada. Ele desconfiava do silêncio dela. Não da voz, que nem era de falar tanto assim. Desconfiava do silêncio daquelas mãos, daquele sorriso e sobretudo desconfiava do sentimento daqueles negros olhos, brilhantes olhos, tão baços naquele dia - emitiam um brilho distante, uma vela acesa no fundo de um túnel, que nada tinha a ver com o clarão e o calor de chama alta que eles sempre irradiavam. Ele desconfiava daquela faceta que, mesmo surgindo ora ou outra, lhe era sempre estranha. Ela virou-se para ele, uma sobrancelha erguida. Ele sorriu.
Ela era linda, e que paz, que alegria era aquela que ela lhe dava. Como ele era pequeno perto dela. Pequeno e imaturo. Que era ela afinal, o que ele queria? Um sorriso falso ostentado sempre por um rosto plástico? Não. Queria o rosto dela, feliz ou triste. Mas era imaturo e não conseguia não desesperar ante à visão da tristeza dela. Pensou pela milésima vez que não era o homem para aquela mulher e que era incapaz de fazê-la feliz. Pensou pela milésima vez que se ele não podia retribuir toda a felicidade que ela lhe dava, melhor seria que ela acordasse e o deixasse.
Não, não podia deixá-lo! Não agora que ele sabia como era doce ser feliz, não agora que ele sabia que existia felicidade, como viver sem ela? Ela não podia deixá-lo... podia mas não devia... devia mas ele não queria... e não queria que ela quisesse.
A sobrancelha dela desceu e ela sorriu para a cara de bobo que ele devia estar fazendo.
Bobo, sim. Idiota. Queria pedir desculpas a ela. Por duvidar, por ser tão imaturo. Quis prometer nunca mais fazer isso, mas sabia que tornaria a fazê-lo milhões de vezes. Quis agradecer a ela por ela. Quis tanto e desejou que aquele abraço que lhe dava encerrasse todo esse seu querer e que o peito dela encostado no seu fosse próximo o suficiente pro coração dela escutar o que o dele lhe dizia.

E que importavam alguns momentos de silêncio, se nada era mais forte que a sinfonia das almas deles em coro?