quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tela



Acordou naquele dia se sentindo meio estrela. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos soltos com esmero. Passou maquiagem no rosto e nos olhos, que depois ocultou sob óculos escuros, e passou um batom forte nos lábios. Escolheu uma bela roupa preta, mas o calor não estava para casacos. Pegou uma bolsa de couro vermelha e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio intelectual. Olhou-se no espelho e fez um penteado sóbrio e simples, em coque. Passou pouca maquiagem no rosto e nos olhos, que cobriu com óculos de grau de armação grossa, que nunca lembrava de usar, e um leve batom rosado. Escolheu uma roupa séria, calça preta e camisa listrada de botões. Pões uma bolsa de lado, aninhou uns livros nas mãos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio hippie. Olhou-se no espelho e desarrumou cuidadosamente os cabelos, fazendo-os embaraçar. Desprezou maquiagem e óculos, mas pôs uma faixa laranja na testa. Escolheu um vestido longo, solto e colorido, de saia rodada. Pegou uma bolsa de pano, alças finas, sem documentos e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia se sentindo meio criança. Olhou-se no espelho e arrumou os cabelos dividindo-os em duas marias-chiquinhas. Maquiou-se como uma menina que descobre a penteadeira da mãe; maçãs rosadas, pálpebras azuis e batom vermelho. Calçou meias coloridas, um short jeans e uma blusa cor-de-rosa. Pegou uma mochila e saiu, orgulhosa.
Acordou naquele dia sem saber como se sentia. Tomou banho e se enrolou no roupão de banho e se encarou no espelho. Só via interrogações. Olhou-se, olhou-se e olhou-se longamente. E o espelho perguntou, tristemente:
"Quando vais acordar sentindo-se você mesma?"
Sacando da escova de cabelo, ela rachou o insolente. Sorriu ao ver a teia brilhante que se formara, e seus vários reflexos. Foi se arrumar. Ao terminar, apanhou uma bolsa e ao abrir a porta, olhou novamente o espelho. Por que se preocupar em ser uma só? Bateu a porta. E saiu, orgulhosa.

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Esse texto não tem dedicatória, mas se tivesse, seria para minha professora, Valéria. O embrião dele surgiu numa aula dela. Enviei-o pra ela e digo o mesmo que disse à ela para vocês: espero que lhes passe alguma coisa. Abraços!

4 venetas:

Caio Carvalho disse...

Bixo, visivelmente um texto que emana discussões bem fecundas! A questão da identidade e persona se encontram bem evidentes! Mais a identidade do que persona, eu diria.Gostei mesmo, cara!
O ser humano não é uma coisa bem delimitada. Acho que teu texto exprime isso. TU me confidenciou que essa obra era originalmente sobre personalidades "falsas", digamos. Mas gostei do outro ramo que tu deu. Afinal, quem mais se não ela mesma para saber que todas aqueles sentimentos de ser não eram expressões legítimas de seu prório ser?

Caio Carvalho disse...

todos aqueles*

Alanna disse...

eu adorei!!
me identifiquei com texto.
todinho.
muito eu isso.
acordar querendo ser alguém diferente todo dia. ^.^
antes era bem mais, agora, como eu estava sem tempo de ser muitas pessoas, andava sendo uma meio... meio nada sabe? AUShAUShaUShASU!
acho que eu era assim justamente por não saber quem ser. indecisão. aí acabava ficando com tudo.
gostei.
fofo.

tici girl disse...

Eita, há muito tempo nao leio 'A Telha'.
O texto me lembrou que 'antes eu era indecisa, agora não tenho certeza disso.' huehua
O fato de a personagem se preocupar em sentir diferente e querer demonstrar pro mundo talvez se reporte à profissão do ator, sabe? Às vezes é preciso mais do que falar ou fazer; buscamos uma máscara, ou adornos que ajudem a passar a mensagem. A garota precisa da bolsa, da roupa, da maquiagem...