
Esse caso fictício – ou piada, como preferirem – não é meu, vou logo dizendo, um amigo imaginou (nem me lembro mais quem), mas os enfeites são de minha autoria: um homem, após a cerimônia de seu casamento, revela que preparou uma apresentação musical no intuito de homenagear sua recém-esposa e dirige-se rapidamente ao espaço onde estão os instrumentos dos músicos contratados. “Legal, legal, que romântico!”, clamam aqueles mais sentimentais. “É um solo de piano, com certeza, eu me lembro que ele tocava muito bem!”, se orgulha aquela tia pomposa. “Oh, se for Bach no violão, eu morro!”, se esperança a esposa. Nada. Passou direto pelo violão, pelo piano. Sentou-se na bateria. “Esse solo é para você, meu amor”: trrrrrrrrRRRRRÁ, CRASH, tum, tum, tum, plá, plá, splash, tum-tum-tum-TÁ, trrrrrrrrá, trrrrrrá, trrrá, tratratra, plum – bish e por aí vai. E todos parados, com cara de espanto, vendo aquele romântico de terno e gravata sentado na bateria, aplicando toda sua técnica e criatividade. Ponto, o caso acaba aqui. Engraçado, estranho, constrangedor? Bem... Já consigo imaginar uns tapando as orelhas, outros consolando a noiva, outros comendo logo os salgadinhos, outros sentindo vergonha pelo baterista recém-casado, outros dando risinhos. Imagino-me também lá, sentado no canto esquerdo da igreja. É vero, é vero, confesso que também lançaria o habitual “que porra é essa?”. Convenhamos: geralmente essas coisas não acontecem em cerimônias pós-casamento. Mas continuemos: depois de cinco, seis minutos, o solo se encerra (friso: a técnica dele era impecável!). Silencio do pior tipo. O baterista levanta e olha para sua esposa. Não, ele não está debochando. Ela dá indícios, porém, de que vai chorar. “Não, não foi essa minha intenção, você sabe”, explica ele pelos olhos. “Que coisa horrível... Um solo de bateria, para essa ocasião?”, ela pergunta usando o mesmo recurso do marido. “Sandra, não duvide de minhas intenções, deixe-me explicar, parece até que você não me conhece...”. “O que tem para explicar?”, e sai andando, enfurecida, para fora da igreja. O diálogo silencioso está encerrado. O constrangimento coletivo impregna ainda mais o local. Ninguém sabe o que fazer. Sabem o que falar. “Que papelão, ein?”, comenta baixinho a mesma tia pomposa. “Menina, e não é?”, responde sua companheira de assento. Irritado com o burburinho que se iniciou, o baterista pega o microfone e diz: “entenderam tudo errado! Amor só se expressa com instrumentos melódicos? Pensei que minha esposa, que eu pensei que me conhecesse, entenderia; que quem me conhecesse entenderia. O rufo inicial em crescendo significou o quanto meu afeto por Sandra foi se intensificando desde o primeiro dia que a conheci. Logo depois, ataquei dois pratos de 19”: foi quando me explodi de paixão por ela. Aplico um samba em andamento rápido pra simbolizar a efervescência de minha vida após isso. Em seguida, uma virada forte e um silêncio de quatro compassos: nessa hora nos beijamos pela primeira vez. Minha mente se silenciou nesse instante. E depois... Ah, porra, pra quê dizer isso tudo? Ela nem está aqui para me explicar...”E sai pelos fundos. Que pena, queria ouvi mais.
É... Espero que ela consiga entendê-lo.
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Texto simples, sim. Não é grande coisa, mas como fazia tempo que eu não escrevia nada, e como A Telha estava parada, fiz esse e pronto.É isso, até! =)
4 venetas:
Perfeito! Tanto tempo sem aparecer, mas tu nos brindaste com uma pequena peróla, Caio. A premissa é simples, mas muito profunda. Não só em instrumentos musicais, mas em tudo, o Amor busca tantas maneiras de se expressar e por tantas vezes é mal compreendido. Até o ser humano aprender que o Amor fala todas as línguas e se expressa por todos os gestos, sons, imagens, silêncios, que será do ser humano? E que será de todos nós enquanto esperarmos que quem nos ame diga que nos ame na língua que queremos ouvir?
muito bom, Caio! Uma homenagem e uma prece: que todos aprendam a ouvir quando alguém disser "eu te amo".
(e que todas tenham a grandeza e paciência de explicar quando os outros não entenderem tão bem).
muito bom, Caio! Uma homenagem e uma prece: que todos aprendam a ouvir quando alguém disser "eu te amo". [2]
=)
PRIMEIRO: A Telha tava sem atualização há um mês!!! Senti até um vazio... T.T
SEGUNDO: eu amei o texto. ^.^
Simples e encantador.
Acho que se eu estivesse no casamento iria achar meio estranho também.
Agora, bom foi pro homem. Se ele não tivesse feito isso, talvez passaria o resto da vida com uma pessoa que nem ao menos o conhecia de verdade.
Gostei. ^.^
Pode parecer mentira, mas eu também já pensei assim! é uma pena que nós, simples mortais que não tocamos bateria, não saibamos se o solo foi bom ou foi ruim!
Muito bom.
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