sexta-feira, 8 de maio de 2009

Poesia cotidiana


O poeta inspirou fundo. Queria sorver de uma vez todo o ar daquela praça. Sentia a poesia palpitando em todos os recantos banhados pelo luar. Alguém se enchia de gordura de batatas fritas, outros compravam jornais, outros vendiam bugigangas, uma hesitante procurava um ombro ao lado enquanto outras mãos muito mais voluntariosas agarravam um corpo inteiro sob o olhar de censura de senhoras muito distintas que esperavam o ônibus que, santo Deus, não vinha, não viria mais! Ele se sentiu embriagado pela poesia das árvores que lutavam para ocupar seu espaço no conturbado espaço urbano, a poesia das pedras de cantaria, dos carros barulhentos e esfumaçados, das nuvens negras da noite banhadas pelo luar prateado. Ah, o luar prateado. Não cansava de falar dele porque era ele que deixava tudo ali mais belo. Belo luar, bela noite, bela lua cheia. Que lua! Mas as pessoas... todas tão apressadas! Ninguém ousava parar e contemplar sequer uma daquelas nascentes de poesia que tão solícitas jorravam por toda a praça. Um verdadeiro despropósito! O poeta estava irritado. Ele também tinha compromissos, é certo - não poetava pra viver, afinal - mas podia se permitir parar e admirar um pouco os arredores, porque eles não podiam? Sentiu vontade de gritar, de parar cada um e dizer "Pelo amor de Deus, olhe à sau volta! Esse mundo é lindo! Esse mundo é seu de bandeja, o mínimo que você pode fazer é admirá-lo!". E olha que ele era ateu, pedir "pelo amor de Deus" não era do seu feitio. Mas a poesia...! Talvez se Deus existisse, ele estava na poesia. Porque ele via poesia em tudo. Ele tinha recebido um dom e uma missão e precisava iluminar de poesia o mundo, como o luar fazia com a praça. Fechou os olhos e inspirou novamente, o mais fundo que pôde. Precisava ir, mas antes precisava sugar toda aquela poesia uma última vez. E enquanto absorvia o ar, pensava de novo como era possível que as pessoas não se sentissem da mesma forma, por que era tão difícil existirem poetas naquele mundo.


Sentiu uma pancada no pulso, acordando-o do acalanto das musas. Olhou o braço nu a não ser pela marca do relógio e um rapazinho correndo em disparada e se enfiando na multidão. O homem saiu irritado. A contragosto, obtivera sua resposta.
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Felizmente, a poesia semrpe se acha. Arteira! ;)

2 venetas:

Alanna disse...

que roubo mais poético.
xD

gostei.

e a foto belíssima. parece até um lugar que eu conheço ;)

Preta disse...

Me encantei só de ler o cabeçalho;
: )

realmente alanna tem razão, esse roubo é o mais poético que já vi/li.
aliás, senti.

Li outros textos teus, cara, embriaguei-me de coisas boas.

: )

ainda bem que existem tópicos, pra divulgação, *-*

:*
brilhe sempre,