quarta-feira, 15 de abril de 2009

Bom senso


“Seria bom se faltasse bom senso às vezes na gente”, pensei nisso enquanto esperava por minha vez no consultório médico. Explico: cheguei cedo, cedo mesmo, e logo me vi sendo o primeiro da fila para ver o otorrinolaringologista em questão. Ótimo. Encontro a mãe de um amigo meu e começo a conversar. Tudo isso regado a bastante incomodo na garganta. Um puta incomodo. No começo pensei que isso era a somatização de uma infeliz tensão pela qual venho enfrentando nessas últimas semanas. Nisso não vou entrar em detalhes, é pessoal demais. Nem sei se deveria chamar isso de “tensão”, mas fazer o que, essa é a única palavra que encontrei. Continuando: lá estou eu, me sentindo um desgraçado. E o médico? Ah, o médico. Ele sai para resolver umas coisas e só vai voltar uma hora depois. “Já, já estou chegando”, ele disse. Imagine se ele tivesse dito que ia demorar. Eu ia passar o dia no consultório. Nessa hora pensei aquela frase que está no começo desta crônica. Perder o bom senso. Já pensou? Pensei em dizer pro médico quando ele voltasse: “porra, doutor, vá tomar no olho do seu cu!”; ou então: “caralho, doutor, até que enfim chegaste!”. Nota do autor: engraçado, nessas horas sempre dá uma vontade de meter uma “porra” ou um “caralho” no meio. Ei, isso ficou ambíguo. Ninguém viu... Pena que se isso fosse para um jornal ou uma revista eu teria que modificar. Bom, depende também da revista, mas isso é outro papo. Prosseguindo: o médico chega uma hora e uns minutos depois. Quem disse que fui logo atendido? Uns homens que vendem remédios ainda foram bater um papo com ele. Ok, espero. O curioso é que talvez você possa pensar que eu esteja pintando essa descrição da minha espera com certo rancor. Nem tanto, nem tanto, acredite, ainda mais agora, que já estou em casa. Na hora aproveitei para pensar em coisas da minha vida relacionada a esta “tensão”. Consigo aliviar um tanto. O suficiente para gostar de sentir o gosto do alívio. No meu caso isso faz sentido, acredite. A luta mais árdua é sempre contra si mesmo. Isso todo mundo sabe, mas quero deixar registrado isso. Eu preciso. Avante: “Caio Carvalho, pode subir”, a secretária diz. “Só uma coisa. Quando subir espere no sofá em frente à porta do consultório. Há uma senhora lá. Aguarde. Quando ela sair, entre”. Ok, subi. Sento e aguardo. Logo me assusto com o doutor falando alto lá de dentro. Motivo? A senhora tem deficiência auditiva. Ouvi tudinho. Ela precisa de aparelho auditivo. E custa em torno de três mil reais! Palavras do doutor. Ela diz que o salário é uma merda, que este não aumenta e que não tem condição de pagar (tudo isso em alto e bom som mesmo!). Tradução: ela disse que o Brasil é uma merda. Onde foi que já ouvi isso? Onde? É tão familiar, não? Acho que ouvi isso, humm... Ontem! E antes de ontem, e antes, e antes. É, Charles de Gaulle, eu sei, o Brasil não é um país sério, todos sabem e falam. E onde foi parar o meu desejo de perder o bom senso? Lá na hora ele sumiu. O sentimento empático o diluiu, mas ele vem às vezes, esse desejo. Por que a gente não surta de uma vez?, nos perguntamos. Pra quê?, eu me confronto. Talvez eu já tenha perdido o bom senso nestas últimas semanas e nem me dei conta. Resolveu? Não. Chego à conclusão que isso explica também muita coisa no Brasil, só pode... Mas continuemos, continuemos. A mulher sai minutos depois. Entro. Cumprimemtos formais. Tudo ok. Começo a falar. Toco no assunto da somatização, minha “tensão” e de que faço terapia. Falo que nem gripe tive, nem febre, só essa desgraça na minha garganta. Hora do exame. “É, Caio, isso não é somatização coisa nenhuma, isso é inflamação mesmo. Com pus e tudo”. Nota do autor: sempre quando tem pus a coisa não está legal. Pus! Hora da medicação. Hora das minhas perguntas sobre amidalite. Ouço a explicação. Entendo que não é preciso fazer essa cirurgia por isso, por isso e por isso, que hoje em dia não é mais bem assim. Pergunto o que pode ter causado essa inflamação. “Principalmente no seu caso, Caio, queda da imunidade”. Motivos? Fatores emocionais. E junta isso com esse período de chuva, dá nisso. Pego a receita com o nome dos medicamentos, agradeço e me mando. “Boa sorte, Caio, te cuida”. Já reparei que minha psique tem uma atração por envolvimentos com minha estrutura otorrinolaringológica (quem leu meu texto a cabeça feita de dor e a raiva roubada” sabe do que estou falando). Ou, claro, isso pode apenas ser uma coincidência.É, é coincidência. Passo na drogaria, compro os remédios. Agora estou em casa, tentando curar minha garganta e sarar meu bom senso.Boa tarde, boa noite, bom dia. Nesta ordem.

Obs: foto retirada deste endereço: http://tintaspermanentes.blogs.sapo.pt/arquivo/garganta.gif

6 venetas:

Fóssil disse...

O bom senso atrapalha mesmo às vezes. Como diria minha avó: "de pensar morreu um burro". Bela crônica, Caio! Uma riqueza de observações a partir de fatos corriqueiros... muito bom!

Caio Carvalho disse...

Bixo, atrapalha, mas no meu caso, eu quero é me atrelar mais a ele. Neste caso, ele vai me ajudar. =)

Alanna disse...

pobre, Caio.
ou então nem tão pobre assim.
xD

Feto disse...

"Nota do autor: engraçado, nessas horas sempre dá uma vontade de meter uma “porra” ou um “caralho” no meio. Ei, isso ficou ambíguo. Ninguém viu..."
Eu ri, e nao foi pouco hsuahsa.

Mt bom mesmo =D Porra vc tem uma sensibilidade impressionante pra desenvolver temas complexos a partir de situações aparentemente simples. Cronista e tanto!
Abraços.

Calli.Strange; disse...

é engraçado mesmo,quando tudo que não devemos ter é bom-senso e educaçã.
situaçoes que nos tiram do ´sério,devem ser resolvidas com um 'foda-se'
e um sentimento de alivio por dizer tal coisa
[?]
A vezes jogar o bom-senso fora alivia a tensão.

Snap disse...

morri de rir,ri o texto inteiro.melhoras Caio.hahahaha