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- Prazer em matar?
- Um gozo estético, para ser mais preciso.
- Fale-me mais a respeito.
- A reação é o atributo que me atrai. A reação dos outros, quero dizer. Procuro a mais límpida espontaneidade e o completo casamento desta com minha finalização. A arte final é primordial. E todo o processo, desde o começo até o final, necessita de minhas armas. Entenda, elas são meus pinceis, digamos assim. Gosto das mais distintas composições que elas proporcionam, ainda mais se combinadas entre si. Saber usá-las e em qual ocasião usá-las me fascina. Facas são interessantíssimas opções se queres uma preliminar mais demorada. Agrada-me particularmente aquelas cuja superfície do gume é côncava, perfeita para cortes superficiais. Passá-las delicadamente pelo rosto, pelo corpo do outro, instigar... Gosto de começar assim. O resultado da composição final se delimita justamente neste ponto.Está me acompanhando, tomando notas?
- Sim, sim. Prossiga.
- Bem, trabalho na obra com cautela. O olhar do outro me acompanhando realmente é uma inspiração a mais. Gosto de saborear o momento da criação e busco muitas vezes aquele olhar. Mas isso não chega a ser uma regra, até porque o olhar é apenas uma das facetas da espontaneidade que tanto procuro, há outras. Geralmente depois de brincar com a textura da pele, deslizo com um pouquinho mais de força, promovendo cortes aleatórios e breves. Trabalhei esta técnica durante muito tempo. Ela serve para primeiro convidar o sangue a sair e banhar aos poucos o rosto ou a parte do corpo onde aplico. Depois passo para o para o tórax ou para os braços, raramente para as pernas. Às vezes para o pescoço também. Eu tenho que sentir. Mas às vezes vou para outros lugares. Lembro-me que tive resultados belíssimos quando apliquei esta técnica na vulva de uma mulher. Sua coloração do sangue vivificou ainda mais aqueles grandes lábios. E as reações foram maravilhosas, realmente muito boas! Estas renderam uma das mais belas finalizações que eu já fiz!
- Como você prende suas vítimas?
- Vítimas? Não os considero vítimas.
- Não?
- Não. São modelos. E não as prendo, proporciono a movimentação estritamente necessária.
“Dissimulação?”, pensei.
- Explique-me mais sobre estas finalizações.
- Chegarei lá, não acabei de explanar o processo. Rosto, pescoço, braços, tórax... Repito: tenho que sentir qual produzirá o efeito que almejo. Já apliquei a técnica em genitálias, como eu disse – as contorções geradas pelo uso dessa área realmente são únicas – mas prefiro mesmo o rosto e o tórax, eles são os mais tradicionais.
- Desculpe interromper, mas só uma pergunta: tens preferência por... “Modelos” homens ou mulheres?
- O que eu sentir.
- Detalhe isso, por favor.
- Significa que sigo minha intuição. Homens, mulheres, jovens, adultos, crianças... Eu tenho que sentir quais destes serão apropriados para aquilo que eu estou procurando no momento. A graça de minha arte é que ela não é 100% autoral. Necessito do outro, de sua manifestação, para eu próprio me expressar. Sou um fotógrafo da espontaneidade. Esta é a essência da minha arte.
- Humm... Parece-me que se interessa apenas por certos tipos de reações espontâneas. O desespero e a dor, não?
- Gosto da reação intensa. Se queres nomeá-la assim, fica a seu critério.
- Ok. Finalize sua explicação.
- Sim, a finalização. Tenho paixão pela finalização proporcionada pelo revólver calibre 32 ou 38. Testei-o em várias partes do rosto de meus modelos ao longo do tempo. Pode não parecer, mas cada uma dessas partes influencia na expressão preservada que irá se suceder após o tiro. Isto é, se o modelo morrer na hora. Mas isso é o que geralmente acontece. Quando não, aplico outros tiros, delimitando um caminho muitas vezes ímpar ainda não explorado. O resultado de cada tiro, o som que ele injeta nos ouvidos, tem que se fundir justamente com a intenção promovida nas preliminares. Tem que haver o casamento, entende? E só eu sei fazer esse casamento. Cada preliminar merece um ponto estratégico final. É bem sutil as distinções dos efeitos desses pontos, mas há, e isso me empolga muito! Preocupo-me em sempre preservar o rosto do modelo. Sinto-me péssimo quando no final vejo que estraguei a expressão final. Por isso parei um pouco de usar algumas armas. Eu preciso preservar a expressão, essa é minha preocupação.
Notei que ele começou a passear os olhos pela extensão de minha face. Segui o que o delegado me disse, ter a cara “fria”, tentar não expressar nada. Será que escapei algo durante esta última declaração dele?
- Bem, acho que por hoje está bom. Continuaremos semana que vem esta sessão.
- Acabou, doutor? Que pena...
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Tenho curiosidade em me enveredar por outros campos. Essa curiosidade me rendeu este texto. Espero que gostem... Ou não. Minha intenção é causar certo asco em quem ler isso. Se bem que aquela fala bem... Técnica (?) do entrevistado dribla a possível ojeriza que o leitor possa eventualmente sentir. Talvez. Bem, é isso! Até =)
Obs: tive que pesquisar um pouquinho sobre armas para fazer este texto. Valeu, Kayla, por me ajudar a saber qual arma não prejudica o rosto do "modelo".
Obs 2: a música "Romance", do Apocalyptica, me ajudou na composição do texto.Uma cena do entrevistado fazendo sua arte tendo essa música como trilha sonora ficaria bem interessante.
Obs 3: não consegui achar a imagem que eu queria. Vai essa.Cortada, achei melhor assim.
3 venetas:
Começando: adorei a imagem! Muito massa mesmo e quando li o texto, achei que se ajustou muito bem. Adorei o texto! Fantástico! Causa sim esse asco, mas ao mesmo tempo há aquela curiosidade quase voyeuristica de entender o ponto de vista do "assassino" (vê? Nem sei se devo chamá-lo assim! =P). E eu acho que ao contrário do qeu tu falaste, o pretenso rigor científico dele, ou o fulgor artístico, só aumentam esse asco. Estética do horror. Muito, muito bom! =]
ver as coisas n'outro contexto,explorar o inexplorável,inexpressável em expressões metafóricas.
foi o que senti nesse texto.
goatei muito ;]
a fala técnica deixa tudo mais frio. faz pensar que o cara é do tipo instruído, com estudo e que faz isso simplesmente porque... porque gosta. o.O
não senti exatamente asco, fiquei imaginando as cenas e... acho que também sou meio assassina o.O
aUshAUsHAUsHASuAHSu.
as cenas são horrorizantes. imaginar-se a si mesmo como modelo então é terrível.
acho que dá pra ficar um pouco pasmo com o texto.
delicioso.
aushAUsAUShAUsHASU!
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