terça-feira, 10 de março de 2009

300 gramas



E se eu morresse agora? Não que eu queira, mas eu não preciso de uma vida longa, se ela for feliz. Eu tenho vivido feliz até aqui, então se aquele carro me pegar quando eu atravessar a rua, eu vou em paz. Ou iria. Se não soubesse que estariam sofrendo todos que eu amo e eu não os quero tristes. E se eu puder vê-los do outro lado? E se estiverem tristes? Não, eu não iria em paz.
É ela, a paz; é ele, o amor. Dois irmãos que vivem brigando. Talvez sejam adolescentes. A paz é tranqüila, mas o amor a provoca. Quer ser o centro das atenções.
Não é engraçado? O amor. Ele é responsável por todas as nossas tragédias e sofrimentos. Ainda que seja um amor corrompido. É o amor que nos faz ter ciúmes, é ele que nos faz ter dores de cabeça. O amor começa guerras. Ele nos faz ter medo. De perder, principalmente. O amor nos liga aos outros, nos liga ao corpo e à vida. O Amor nos faz temer a morte porque tememos que esses laços se rompam. Tememos que se rompam até os laços que ainda nem se formaram. Os laços são partes de nós, sabem, e sempre dói quando arrancamos uma parte do corpo, seja um fio de cabelo ou um braço.
Existem laços que são como fios de cabelo. Frágeis, facilmente arrancados, tornam a crescer ou são substituídos (mas serão iguais?). Dói arrancá-los, mas é um dorzinha aguda e leve, passa rápido. Arrancar um braço é mais difícil. Dói de verdade e nunca volta a crescer. Você pode conseguir um braço falso, mas só lamentará a perda do verdadeiro. E passará anos sentindo comichões naquele membro perdido.
Muito mais fácil seria viver sem essas ligações. Muito mais fácil seria dormir sem se preocupar com o problema do melhor amigo, com o filho que ainda não chegou ou com a melhor forma de conquistar aquela menina. Mas, ah! E se achássemos a chave do amor? E se pudéssemos desligá-la, como a Emília fez com o tamanho?
Um laço é um fardo, mas é o único fardo que te ajuda a suportar todos os outros. São mais ombros além dos seus para te ajudar a carregar o mundo. São os laços que tornam a vida menos amarga, ainda que por vezes a salguem de lágrimas. Um laço é uma promessa. Como mãos de ferro numa corrente. Não devem ser quebrados facilmente. Não soltem seus laços. Não soltem as mãos. Os laços pesam mas podem amarrar o mundo. O amor pesa mas pode alcançar a paz.
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Bom, é nisso que eu acredito =]

3 venetas:

Caio Carvalho disse...

Lobão já dizia na música "Rádio Blá": "a paixão não tem nada a ver com a vontade". Paixão que pode, com esforço, virar amor. "Amor", assim como "cultura", "dúvida", "sexo", são palavras dificílimas de dissecar. Cada visão interessante que lemos, como essa do CJ, tantas outras que podemos criar e analisar!
Achei maravilhosa essa imagem (se for o que estou pensando, achei genial). A macroscopização das ligações como um ferramenta para o deslumbre da máxima visualização da sua metáfora foi uma sacada incrível. =)

Arnaldo Vieira disse...

Pensei em duas pessoas,
dois acrobatas se jogando no ar,
Só tem um ao outro para não cairem,
E mesmo se um deles vacila por um momento em segurar o outro,
Ainda tem aquela rede invisível lá embaixo, ligando os dois e dando suporte pras quedas, pros momentos de fraqueza...
E a rede não tá só lá embaixo, mas permeia o ambiente todo...
Ou como diria Vinícius de Moraes aos dois acrobatas:

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Obrigado por me proporcionar essa visão...

Wendy A. disse...

acho esse texto incrível, sempre leio (=