segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O diário das madrugadas de Doidivano (ou a transfiguração do primeiro movimento da Sonata para Piano nº. 14, de Beethoven)


8 de fevereiro.

Todo escritor está, potencialmente, fadado a se levar a sério demais. Lanço-me aqui na mais alta conjectura da generalização com o direito – perdão, a licença – da convicção. A persuasão é íntima, é minha. Gozo senti-la, ainda mais neste soberbo silêncio da madrugada. Ah, “a glória noturna de ser grande não sendo nada”(1) . Preciso dizer mais alguma coisa?Digam vocês, que estão dormindo.

9 de fevereiro.

Olhando pela sacada, um impulso de vagar por aí ameaça dar um tapa no meu juízo. O que me impede de sair são os doidivanas, os malandros, os assaltantes. O medo deles, para ser mais claro. O pleno juízo, que me vem como um corpo estranho nesses momentos, para ser ainda mais claro.
Indago-me sobre esta reflexibilidade travestida de dicotomia. Prevejo.

Obs.: Doidivanas... Reparando melhor no nome, que elegância, não? Gostei. Talvez se eu substituísse o “as” do final por um simples “o”...
Doidivano. Melhor. Sim. Por que não?

10 de fevereiro.

Saí e andei. Andei mesmo. A aflição de encontrar alguém, a idéia de encontrar outro... Na madrugada, veja só, e na rua! Na rua! O que relato, no entanto, foi um encontro diferente: ouvi um piano, um piano denso, cadenciado, melancólico. Mais cadenciado que denso, mais melancólico que cadenciado, mais denso que melancólico. Não me perguntem como. Perguntem o que faz uma pessoa tocar piano a essa hora e a esse volume. Ou não, perguntem não, deixem. Vão estragar a lembrança daquela translúcida madrugada. Eu pergunto.

11 de fevereiro.

Repeti a experiência do dia 10: saí novamente. Não sabia o nome da música e queria ouvi-la novamente. Ah! Já podia ouvir! Ela vinha daquele prédio baixo, de quatro andares, perto da esquina. Arrisco que vem mais precisamente do último andar. Ou quem sabe da cobertura...
Sentei na calçada e fiquei contemplando meu êxtase. Um êxtase lânguido, fleumático, que superava o inato noir da madrugada e seu romantismo amarelo ocre, porém sem destruí-lo, temperando-o com uma apatia inebriante. Viciava, e por isso deixei o local antes que eu dormisse na rua e acordasse todo mijado por algum cachorro. Ou pior,não? A imaginação fica a cargo de vocês. Mas só esta.
Subi uma ladeira e me deparei em frente a uma loja de conveniências. Sentei-me em um banco próximo e me pego observando a porta metálica fechada da loja. Reparo algo inusitado: nela o dono, ou sei lá quem, colocou um curto aviso: “O poeta não virá hoje”. Estranho, não? Droga, eu pergunto: que poeta? Estou esperando algum poeta? Ninguém espera poetas em lojas de conveniências! Audácia de quem colocou o aviso do poeta! Fui lá e, sem ninguém ver, tiro o aviso e o rasgo! Ele não virá mesmo e ninguém precisa saber!

12 de fevereiro.


Ela veio me visitar hoje. O som da capainha tocando 4 e pouca da manhã me veio como uma remitência.
Servi água – o vinha tinha acabado. Tento puxar uma conversa comentando sobre aquele pianista que toca no meio da madrugada. Indago se algum vizinho já reclamou sobre este fato; a pergunta cai como um ultimato. Ela pára. O seu jeito lindo de pensar me fascina. Sublime. Seu ar duvidoso já valeu a pergunta. Volta-se para mim com aqueles olhos castanhos. Sorri (naquele momento, ali, minha vida é vê-la sorri) e responde a pergunta, ainda vacilante. Porra, que olhos! Eu não quis mais saber da pergunta, não quis mais saber da resposta. Queria esquecer que eu vou ter que dizer algo. Gozei o fato de todos estarem dormindo, e tão rápido quanto o pensamento me permite ser, imaginei-me acariciando seu rosto e como o ar pensativo dela iria reagir. Como aqueles olhos iriam me encarar. Como sua boca se comportaria.

...

Pergunto-me até hoje por que eu dei um tapa nela. Forte.
Lembro-me de ter ficado vermelhinha sua pele.
Nossa...

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(1) Frase de Fernando Pessoa, presente no "Livro do desassossego", atribuída a seu semi-heterônimo, Bernado Soares.

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Postei novamente porque Fóssil ainda não está com o texto pronto. Domingo ele postará normalmente.
Este texto com certeza foi melhor que o anterior, mas ainda não me satisfez completamente. Fazer o que? Que venham outras idéias...
Aquela composição de Beethoven, citada no título (adoro títulos monumentais...), me ajudou muito a visualizar esta estória sem rumo nem nada. Gosto de narrativas desse jeito. Tentei pensar em mais alguma coisa, em mais algum acontecimento, mas não saiu nada. Fica assim mesmo.
A foto é de minha autoria. O boneco também. Ele é dos tempos de minha infância e pensei que o clima burlesco que ele expressa cairia bem com uma áurea noir. Achei que tinha muito a ver com o personagem principal.
Bem, é só isso. Espero que gostem.
Até =)

4 venetas:

Ray Wilson disse...

Também gostei mais desse post do que o outro. Ambos tem esse carater reticencial(...). Só não entendi quem seria "ELA" (que visitou), seria o pianista, ou melhor, a pianista? Mas achei realmente interessante o formato do texto assim como um diario....

Tou muito ansioso pra ver a postagem de Fóssil, parece que faz algum temo que ele a prepara não???

Calli.Strange; disse...

hahahahahha! Interessante esse começo de fevereiro,consegui perceber diversão. =)
e não se assombre com as doidivanas da notie,é bom ousar sair...de vez em quando!
Ficou interessante mesmo o texto,como um diário.
gostei =)

Fóssil disse...

Bem doidivanas! haha Adorei essa desconexão. É interessante porque sempre me parece que pessoa que escrevem diários tem alguma necessidade de organização, como se precisassem arquivar e sequenciar os fatos da sua vida. Mas fora as datas, nada nesse diário (um diário 'de madrugadas'! Muito legal!) parece fazer encadeado. Pra mim, por todo o texto, paira algum mistério que ainda não consegui desvendar, como as brumas da madrugada =] (e sim, muito melhor que o anterior) (ah, e Ray, não estou preparando nada com tanto cuidado, é só que tô sem inspiração pra continuar o texto mesmo XD)

Alanna disse...

o.O

gostei.
sinto por não ter um comentário melhor.

a parte do tapa me chocou.
ultrajante.