
“Eu não carrego gadanha nem foice. Só uso manto preto com capuz quando faz frio. E não tenho aquelas feições de caveira que vocês parecem gostar de me atribuir à distância. Quer saber a minha verdadeira aparência? Eu ajudo. Procure um espelho enquanto continuo”.
Markus Zusak
De quem era aquela mão enrugada, aquela voz roufenha? E essa vista embaçada, de quem era? De quem era o cheiro pútrido de coisa velha, que ninguém mais sentia por causa do talco e da colônia? Esse não era eu, meu Deus, não podia ser. Não podia ser eu que precisava ser segurado aonde quer que fosse, nem que fosse por uma bengala. Não podia ser eu que tanto li, estudei, aprendi e trabalhei pra me tornar um ser decrépito e decadente. Decrépito e decadente como esta praça, como este fim de tarde. O fim de tarde do meu decrépito e decadente fim de vida.
Esta praça era apenas um arremedo daquela outra em que me sentei pra ver o pôr-do-sol e por acaso encontrei minha morte. Eu era tão novo e achava que era sábio. Não muito sábio, mas já me achava sábio. Ô Deus! Eu era tão idiota! Ainda mais do que sou hoje, que pelo menos entendo a minha própria estupidez. E sou anda mais estúpido por aceitá-la, ou por achar que poderia remediá-la nos livros, nos museus ou nos filmes para os quais a crítica dava cinco estrelas. Sou estúpido porque me esqueci da vida. Esqueci da morte.
Mas a morte vem! Sinto em cada fibra, em cada osso meu que ela vem. Célere e constante. Tenho medo da morte. Tenho medo porque sou estúpido, e tenho medo da minha própria estupidez. E eu sempre vi os velhos nos meus filmes esperarem a morte tranqüilos, sobre uma cama iluminada pelo sol. Mas o sol já não é mais o mesmo, não há cama alguma aqui e muito menos tranqüilidade. Duvido que eu conseguisse simplesmente me deitar e esperar placidamente minha algoz.
Estou com medo, estou com medo! Meu Deus! Por que não consigo deixar toda essa besteira de lado? Há anos eu encarei a morte sem medo algum, estava pronto para abraçá-la se fosse preciso. Minha ignorância era tão grande que tudo que senti foi curiosidade. A morte não me mostrou seu rosto, mas eu sei que da próxima vez que eu a vir, ela mostrará. E agora que sei que vou encontrá-la, toda curiosidade me abandonou. Eu vou morrer.
Meus amores não sabem o quanto os amo. Minhas dividas não estão pagas. Meus trabalhos estão inacabados. Eu menti, eu burlei, eu traí, eu enganei, eu furtei, eu trapaceei, eu pequei. Não tenho curiosidade mais, só medo. Porque sei que a minha morte será terrível. Sei que o meu jeito de viver determina meu jeito de morrer.
Nada fiz de bom, nada deixei.
Não há nada...
E se não há nada...
Ela chegou como um calafrio dessa vez. Não me virei, mas pude senti-la atrás de mim.
- Veio me buscar?
- Só vou aonde me convidam.
- Eu não te chamei. Não quero ir.
- Não?
- Estou com medo.
- Por que você quer ficar?
- Tenho assuntos inacabados.
- E você acha que alguém um dia acaba seus assuntos?
- Acho que não. Só estou lhe atrasando. Estou com medo.
- Você está mudado.
- Isso é bom?
- Eu não sei.
- Você não me ajuda.
- Eu não ajudo. Você se ajuda. Eu no máximo faço companhia, como já lhe fiz.
- Você está mentindo.
- Como?
- Daquela vez você tentou me ajudar. Você me avisou. Mas eu era muito estúpido. Eu ainda sou. Eu podia ter feito tudo diferente. Mas desperdicei minha vida e vou pagar na hora da morte.
- Você está mudado.
Suspirei. Acho que o medo começava a dar lugar a um conformismo que podia não ser a serenidade dos velhinhos dos filmes, mas já me era mais aprazível. No lugar da cama, um banco quebrado de praça. E um pôr-do-sol cinza. E ainda era um lindo pôr-do-sol.
- Acho que vou com você.
- Acho que sim.
- Eu vou sofrer muito? Sentirei muita dor?
- Não sei ao certo. Você descobrirá.
Virei-me. Ela ainda estava com aquele véu branco, mas agora era mais espesso. Quando seus dedos tocaram a barra, eu me preparei para ver pela primeira vez a última coisa que eu viria. Ela então descobriu o rosto.
Markus Zusak
De quem era aquela mão enrugada, aquela voz roufenha? E essa vista embaçada, de quem era? De quem era o cheiro pútrido de coisa velha, que ninguém mais sentia por causa do talco e da colônia? Esse não era eu, meu Deus, não podia ser. Não podia ser eu que precisava ser segurado aonde quer que fosse, nem que fosse por uma bengala. Não podia ser eu que tanto li, estudei, aprendi e trabalhei pra me tornar um ser decrépito e decadente. Decrépito e decadente como esta praça, como este fim de tarde. O fim de tarde do meu decrépito e decadente fim de vida.
Esta praça era apenas um arremedo daquela outra em que me sentei pra ver o pôr-do-sol e por acaso encontrei minha morte. Eu era tão novo e achava que era sábio. Não muito sábio, mas já me achava sábio. Ô Deus! Eu era tão idiota! Ainda mais do que sou hoje, que pelo menos entendo a minha própria estupidez. E sou anda mais estúpido por aceitá-la, ou por achar que poderia remediá-la nos livros, nos museus ou nos filmes para os quais a crítica dava cinco estrelas. Sou estúpido porque me esqueci da vida. Esqueci da morte.
Mas a morte vem! Sinto em cada fibra, em cada osso meu que ela vem. Célere e constante. Tenho medo da morte. Tenho medo porque sou estúpido, e tenho medo da minha própria estupidez. E eu sempre vi os velhos nos meus filmes esperarem a morte tranqüilos, sobre uma cama iluminada pelo sol. Mas o sol já não é mais o mesmo, não há cama alguma aqui e muito menos tranqüilidade. Duvido que eu conseguisse simplesmente me deitar e esperar placidamente minha algoz.
Estou com medo, estou com medo! Meu Deus! Por que não consigo deixar toda essa besteira de lado? Há anos eu encarei a morte sem medo algum, estava pronto para abraçá-la se fosse preciso. Minha ignorância era tão grande que tudo que senti foi curiosidade. A morte não me mostrou seu rosto, mas eu sei que da próxima vez que eu a vir, ela mostrará. E agora que sei que vou encontrá-la, toda curiosidade me abandonou. Eu vou morrer.
Meus amores não sabem o quanto os amo. Minhas dividas não estão pagas. Meus trabalhos estão inacabados. Eu menti, eu burlei, eu traí, eu enganei, eu furtei, eu trapaceei, eu pequei. Não tenho curiosidade mais, só medo. Porque sei que a minha morte será terrível. Sei que o meu jeito de viver determina meu jeito de morrer.
Nada fiz de bom, nada deixei.
Não há nada...
E se não há nada...
Ela chegou como um calafrio dessa vez. Não me virei, mas pude senti-la atrás de mim.
- Veio me buscar?
- Só vou aonde me convidam.
- Eu não te chamei. Não quero ir.
- Não?
- Estou com medo.
- Por que você quer ficar?
- Tenho assuntos inacabados.
- E você acha que alguém um dia acaba seus assuntos?
- Acho que não. Só estou lhe atrasando. Estou com medo.
- Você está mudado.
- Isso é bom?
- Eu não sei.
- Você não me ajuda.
- Eu não ajudo. Você se ajuda. Eu no máximo faço companhia, como já lhe fiz.
- Você está mentindo.
- Como?
- Daquela vez você tentou me ajudar. Você me avisou. Mas eu era muito estúpido. Eu ainda sou. Eu podia ter feito tudo diferente. Mas desperdicei minha vida e vou pagar na hora da morte.
- Você está mudado.
Suspirei. Acho que o medo começava a dar lugar a um conformismo que podia não ser a serenidade dos velhinhos dos filmes, mas já me era mais aprazível. No lugar da cama, um banco quebrado de praça. E um pôr-do-sol cinza. E ainda era um lindo pôr-do-sol.
- Acho que vou com você.
- Acho que sim.
- Eu vou sofrer muito? Sentirei muita dor?
- Não sei ao certo. Você descobrirá.
Virei-me. Ela ainda estava com aquele véu branco, mas agora era mais espesso. Quando seus dedos tocaram a barra, eu me preparei para ver pela primeira vez a última coisa que eu viria. Ela então descobriu o rosto.
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Eu ia dedicar à Alanna, porque foi ela que pediu uma continuação, mas achei meio mórbido XD Demorou, mas veio... espero que alguém goste. Continuações em geral são piores que a original e essa não foge à regra ^^ Não vou colocar o post do primeiro texto porque eu espero que dê pra ler esse indepentendemente dele. Espero... dá?
6 venetas:
Dá pra ler sim... inclusive, nao sei pq, mas achei melhor o segundo ... =P
Lembrei da Morte em Sandman, e tb de um poema de e.e.cummings... olha ele ai embaixo...
supõe
a Vida um velho carregando flores à cabeça.
a jovem morte senta-se num café
sorrindo, uma moeda segura entre
o polegar e o indicador
(eu digo "comprará flores" para ti
e a morte é jovem
a vida usa calças de veludo
a vida tropeça, a vida tem barbas" eu
digo para ti que estás emudecido. - "Vês
a Vida? está ali e aqui,
ou aquilo, ou isto
ou nada ou um velho 3 terços
adormecido, à cabeça
flores, sempre a gritar
para ninguém alguma coisa sobre les
roses les bluets
sim,
comprará?
Les belles bottes - oh escuta
, pas chères")
e o meu amor lentamente respondeu Eu acho que sim. Mas
Eu acho que vejo alguém mais
há uma senhora, cujo nome é Emseguida
está sentada junto da jovem morte, é esguia;
gosta de flores.
E. E. CUMMINGS
Cara, também achei o segundo melhor que o primeiro, mas eu gostei mesmo foi a partir do diálogo, o achei bem construído.
E ahá! Esta parte II vem confirmar minha tese de que o protagonista queria se matar no primeiro texto! Quando você quer se matar, você tem total domínio da situação e decide se vai ou não puxar o gatilho, se vai ou não enfiar a faca, enfim, se vai ou não tirar sua vida. A morte está em suas mãos. Nesta parte II a morte veio ao encontro dele, ele não pediu e aí teve medo, porque ela que teria o controle.Ele estava sob as mãos dela agora.
Divino o último parágrafo. Você soube terminar este texto muito bem, CJ =)
POw, vou pedir emprestado para Arnaldo pelo menos o primeiro número da série Sandman. Não sei se ele vai emprestar =P
dá siiiiiiiiiiiimmmmmmmm!!!
\o/
yurruw! ki emoção! *-*
e esse texto fugiu à regra siiiiim! ficou tão... legal! *-* não digo melhor que o primeiro porque pra mim cada um tem o seu estilo, como o kra mesmo fala, são duas fases da vida dele diferentes, logo, cada texto mostra algo, então não tenho nenhum preferido, gostei dos dois.
emoionante.
e...
ele não keria se matar no primeiro texto! não consigo concordar com caio! (e tow nem aí para o que tu kiseste escrever realmente carlos, tow fingindo ki tu és um escritor morto xP) no primeiro texto ele era mais jovem e estaa pensando na morte como uma coisa distante, e tbm ele não devia ter nada pra perder.
no segundo texto ele já começa a falar como era estúpido por não perceber que ele tinha ki terminar as coisas, agora ele já tinha toda uma vida e tinha medo porque agora a morte não era mais algo distante, era algo concreto e certo.
\o/
emocionante discutir isso!
vou matar Carlos para que a discursão vire a nova Capitu.
o.O
ki merda! nada a ver isso! AUShAUShaUShAUSHASu!
Mas e aí Carlos,a tua intenção inicial ao escrever o primeiro era ki ele keria se matar?
xD
\o/
Medo de vocês! Bom, se é assim, não tem problema... eu me finjo de morto... não vou falar nada. E viva a discussão! haha
Caramba velho!!! Que perfeição. Venerei o texto desda primeira palavra ate o ponto final!!
Muito bom, tava sem tempo, mas encontrei só p ler esse texto...foi meio Intermitâncias da Morte, gostei muito, saudades, Bjão
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