
“Vende - se tempo em todos os formatos: segundos, minutos, horas, semanas, meses, anos. Não é brincadeira. Preço a negociar. Tratar com Camus. Cel.: 99700000”.
Olhou satisfeito para seu anúncio no jornal. Agora era só esperar as ligações. Que maravilha! Tempo! Vender tempo! Daria uma fortuna! É só negociar o suficiente, nada de mais. Uns 10, 12 anos? Ok. Ainda daria para aproveitar a vida. E quem não daria uns 5.000 reais ou mais por um ano perdido? Aposto! Ele iria realmente enriquecer.
Já tinha calculado tudo. Vejam, Camus estava com 29 anos. Não gostava tanto de beber assim. Se bebeu trinta e cinco copos de cerveja e três caipirinhas até aquela idade, ainda foi muito. Não fumava. Experimentou um pouco de maconha na adolescência, mas logo largou. Comia bem, até. Consumia regularmente frutas e legumes, como tomates (“é bom para prevenir câncer de próstata e de esôfago, por exemplo”, lembrava ele), maçã (“retarda o envelhecimento da pele”), muitas bananas (“potássio e energia!”), etc.; não exagerava na picanha, no sal, não comia muito doce, essas coisas. Fazia academia e lia com freqüência. Pronto! Sabia que iria viver pelo menos até a casa dos oitenta. Logo, poderia negociar uns anos, por que não?
Vieram as ligações. “Mas como é que tu vai me vender teu tempo? Como vou sentir que terei um dia perdido de volta, por exemplo? Que diabo é isso? Isso é molecagem tua, rapaz!”, atacavam. “Confie e apenas venha. Não te arrependerás”, respondia Camus, com segurança. “Isto é vodu?”. “Apenas vem!”. E dava o endereço.
Foram. As coisas começaram fracas no primeiro dia. Somente uns três gatos-pingados compareceram. Todos ficaram aguardando em uma sala a hora de serem atendidos, que nem uma consulta médica. Sentiam-se meio bobos, decerto. Afinal, foram no intuito de comprar tempo. “Nem me pergunte, nem me pergunte”, diziam. Estes eram os que estavam mais desesperados, vejam.
- Senhor Ruy Casanovas, pode entrar. Camus lhe aguarda – disse a secretária.
O homem levantou-se, abriu a porta e entrou. Suspense besta. Os dois que ficaram se olharam. Travaram um diálogo mental.
- É... É isso aí. O primeiro já entrou...
- É... Pois é...
Diálogo de olhos...
Consideráveis minutos depois, o senhor Casanovas sai.
- E aí...? – perguntaram os dois que aguardavam – Como é o negócio? Comprou quanto tempo?
- Os dias 17 e 18 de novembro de 2008. Só isso que posso lhes dizer. Recomendações do cara lá. Tudo lhes será dito por ele.
- Humm... E o preço?
- Negociei 2000 reais.
- Porra!
- Bem... Ele disse que, caso não dê certo, terei direito a reembolso. Ele garantiu que não irá fugir nem nada, que o negócio é sério.
- Mas que negócio é esse, rapaz? O que ele faz lá? Tu receberás o tempo quando? Tu irás voltar no tempo, é?
- Tudo será explicado por ele. Tenho que ir, boa tarde para vocês.
Os dois sentaram-se novamente. Pareciam crianças reclamando.
- Isso é estranho, isso é estranho! Não estou entendendo mais nada!
- E não é, rapaz? Que loucura é essa? Ei, você! – chamou a secretária – Teu patrão não é louco não, né? Espero não chegar à conclusão de que estou perdendo mais tempo aqui...
- Nem eu sei. Só estou aqui porque recebo meu salário. Mas aguarde, será a vez de vocês já, já.
Minutos depois:
- Senhor Plínio Casbá, Camus lhe aguarda.
Desconfiado, ele foi. Seu companheiro de agonia tentou se distrair lendo umas revistas antigas lá oferecidas. Às vezes lançava umas espiadas à secretária. “Rapaz, ela sabe de algo...”
Logo, logo a porta abre-se novamente. O senhor Casbá sai com um sorriso sutil, daqueles do canto do canto da boca, como se tivesse provado uma estranha satisfação.
- Fala rapaz, e aí? – o outro se apressou.
- Calma. É interessante, cara, sério! Por alguma razão confiei nele. Vamos aguardar para ver.
- Aguardar o que? Diz!
- Cara, é melhor tu ouvir dele. Relaxa e aguarda aí. Vou indo nessa, até.
- Espera! Só diz alguma coisa, uma dica!
- Rapaz, é um lance curioso. Uma mistura de Física com macumba, o diabo!
- É mesmo?
- É, mas pode ir sem medo. Vou indo, boa tarde e boa sorte.
Aquele boa sorte ficou ressoando na cabeça do outro. “O que será que ele quis dizer com isso? Bem, ele mesmo disse que eu não deveria ter medo, certo? Mas física e macumba? Calma, é melhor eu me sent...”
- Osmar Franco, Camus lhe aguarda.
“Vamos lá”
Abriu a porta. Era um ambiente escuro, com poucos detalhes: uma cadeira logo na frente, um armário, uma mesa, um pequeno abajur, um incenso de cheiro inebriante (...), um telefone. Do outro lado da mesa, um homem de cabelo grande e bigodes o olhava com fraternidade, sentado em uma cadeira de encosto grande e elegante.
- Saudações, meu amigo! Adentre, sente, relaxe.
- Você deve ser o Camus...
- Sim, sim.
- Podes mesmo vender seu tempo?
- Posso, é só me dizer se queres, por exemplo, meses ou anos, e negociaremos o preço.
- Só quero recuperar um dia, um determinado dia.
- Qual?
- 9 de janeiro deste ano de 2009. Vai sair caro?
- Só um dia? Por que queres recuperá-lo?
- Por que?
- Dependendo do motivo, o preço irá variar.
- Humm... Digamos que eu vacilei e fiz outras coisas em vez de fazer outra.
- Bem, você tem que ser mais claro.
- Rapaz, é pessoal, entende? O máximo que posso dizer é que envolve uma pessoa...
- Ok, ok, dá pra ter uma noção. Neste caso, vendo por 1.500 reais, o que achas?
- Cara... Ok, tudo bem, contanto que dê certo...
- Vai dar, sim. Dê-me sua mão.
Osmar estendeu seu braço sobre a mesa, deitando-o com a palma da mão virada para cima. Camus pegou um pedaço de carvão e escreveu a data “nove de janeiro de 2009” nesta mesma palma. Depois, pegou um copo com um líquido um tanto esbranquiçado e derramou algumas gotas onde foi escrito a data.
- Agora feche sua mão com força e pense neste dia e no seu acontecimento.
Após falar isto, Camus entoou umas palavras estranhas e agarrou com suas mãos o punho fechado de Osmar.
- Você acordará amanhã no dia nove de janeiro de 2009. Faça o que achar que tem que fazer! Isto é uma chance rara, reconheça! Ao dormir neste dia em questão à noite, você amanhecerá no dia vinte e dois de janeiro de 2009, ou seja, amanhã. Afinal, só lhe vendi um dia. Entenda que não há fluxo. Os eventos, ao ocorrerem, simplesmente existem. Se você fez certa coisa no dia nove, você ainda o está fazendo. O que eu faço é lhe dar a oportunidade de ir até lá, o “você do agora”, e modificar.
- Isso é um poder incrível nas mãos de um insano. Não tem risco?
- O risco que ocorrer irá acontecer na realidade paralela da pessoa em questão.
- Como?
- Ao modificar o seu passado, você fundará uma realidade alternativa sua. Eu e o resto do mundo continuaremos nesta nossa realidade.
- Isso é ilegal?
- Não sei. Mas funcionará, garanto. Só peço que não diga nada para as eventuais pessoas que estão lá fora. Eu quero pessoalmente explicar tudo a elas. E se não der certo, o que é muito difícil, você pode voltar. Será reembolsado. O dinheiro, por favor.
-Ok.
* * *
Osmar dormiu naquela noite e acordou cada vez mais longe de nove de janeiro de 2009. Acordou normalmente no dia vinte e dois de janeiro. Foi à tarde ao apartamento onde Camus fizera sua venda no intuito de reclamar e pedir seu dinheiro de volta. “Corno picareta!” Por coincidência, encontrou na porta do elevador os seus dois companheiros de espera do dia anterior.
- Não deu certo, né? Esse filho da puta...
Chegando lá,checaram a tranca da porta. Estava aberta. Entraram. Lá dentro repararam que a porta que dava acesso ao cubículo de Camus estava entreaberta. Entraram novamente. A sala deu medo; estava vazia e novamente encontrava-se iluminada apenas pelo abajur. A cadeira onde o vendedor de tempo estivera ontem estava sem ninguém. Em cima da mesa, no entanto, encontrava-se um pedaço de papel. Nele havia uma simples, direta pergunta: “foi pior perder o tempo ou o dinheiro de vocês?”
(...)
* * *
"Não há fluxo. Os eventos independentemente de quando ocorram, simplesmente existem.Todos existem.Eles ocupam para sempre o seu ponto particular no espaço-tempo.Se você estava de divertindo a valer no réveillon, você ainda está lá, pois esta é uma das localizações imutáveis do espaço-tempo" (Brian Greene, físico americano da universidade de Colúmbia).
Fonte: revista Super Interessante, edição 223, Fev/2006, pág. 40.
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Eu encaro este texto como um dos mais chochos que eu já fiz. Mas como eu estava no meio dele e não tinha outra idéia, decidi terminá-lo mesmo com todas as minhas pequenas implicâncias. Achei divertido, todavia, elaborar aqueles três personagens abestados (e ricos, aparentemente). Abestados até demais, mas tudo bem. Sem eles, a estória não funcionaria. Eu tinha um outro final em mente, mas achei que talvez fosse ficar meio ingênuo e complicado. Gostei deste, seco!
Bem, é só isso. Até logo =)
11 venetas:
Eu gostei, achei bem divertido e fala muito da condição da mente humana. Mas em comparação aos outros que tu fizeste, tá "chocho" mesmo. Não sei bem explicar o porquê... apesar de eu ter "gostado" do final, achei a frase que o cara deixou lá meio...sem sentido, não sei. É, não sei explicar nada direito XP
Cara, pensei em colocar no final, após a frase do cara, "A raiva não conseguia responder"...Mas ia ficar uma coisa tão "frase de efeito", sei lá =P
Não, com certeza tinha que terminar na frase dele, só não gostei muito dela. Mas não sei de que outra forma ela poderia ser. hehe
Nossa, gostei muito. O tempo é tão intrigante.E a sensação de perde-lo é terrível, mais do que qualquer outra coisa. Essa última frase me lembrou uma idéia de Nietzsche... Li uma vez que ele sugeria que se encarasse a vida como um ciclo, como se tudo o que vc fizesse hj vc fosse refazer pela eternidade,pois vc viveria sua vida eternamente, sempre voltando e revivendo-a. Meio louco e super-improvável mas se pensassemos assim talvez daríamos mais valor aos nossos atos. Quando fui lendo o texto comecei logo a tentar adivinhar o final, dessa vez eu nem cheguei perto. Acho que me empolguei na imaginação hehe. Abraços =D
Hum, gostei, gostei.. =)
desejo inato esse nosso que de querer ter controle sobre as coisas que fizemos,sobre o tempo e derivados... que infortúnio!
Virei mais vezes, rapaz. o/
Ah...não sei se ficou "chocho" como Carlos disse.Acho que tem seu efeito.A história em si não tem lá muita coisa, é bobagem pra quem apenas ler, mas pra quem reflete a respeito faz muito sentido e fala bastante.Eu gostei.
eu tinha algumas coisas p dizer mas eu esqueci ¬¬
O final não ficou mto bom msm. Queria uma revelação maior.
Mas tu q manda_o blog eh teu e do sócio. Contextualizando na minha vida de nova motorista: tem dias q a gente passa até a 5a marcha. Mas esse texto ficou no ponto morto...
Queria saber se a escolha do dia 9 de janeiro foi aleatória ou tem alguma carga mística.
dâ
Não, foi aleatória XD
Hum... gostei da historia sim.... achei ela interessante ...bem não sei muito bem que é feto.. mas concordo com o ETERNO RETORNO q ela captou da obra de Nietzsche... achei tão interessante que retomei a questão do tempo em Heidegger...que se aproxima mas do tempo da fisica quântica... uahsuahsas.. traduzindo tipo QUANTO VALE UM DIA????? e o parametro seria o que você fez nakele dia... GOSTEI MUITO....
"REFORÇO POSITIVO PRA VOCÊ CAIO"(ashasuahsuashaa)
correção "QUE É FETO" eu sei...O QUE NÃO SEI É "QUEM É FETO".. USHAUSHASUAHSUASH
Caramba!Fala sério, esse é seu texto mais "chocho"? De todos q já li seus, p mim, foi o melhor...as palavras fluíram, correram mais macias, uma espécie de ritmação...ñ sei, só sei q gostei de verdade ( 22 de janeiro é meu niver! eles acordaram no dia do meu niver!hahahah ) . Só fiquei um pouco decepcionada c a frase final...o sentido foi perfeito, mas acho q poderia ser uma c mais impacto ( coisa de leigo,EU ) . Enfim, é isso.Bjos
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