terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O Rei de Vidro


Como se jogar xadrez não fosse algo especial, aquele xadrez era de vidro. O embate se prolongava alheio ao mundo exterior. Mas não era um embate ordinário, como não era ordinário aquele xadrez de vidro. No tabuleiro, também de vidro, as peças não se moviam. Nenhuma das peças brancas saiu primeiro com o peão andando duas casas, nenhum cavalo andou em L. Aqueles homens sábios e caducos, assim que descobriram o xadrez, puseram-no em cima da mesa e puseram-se a observá-lo.

A situação, convenhamos, era das mais ridículas. Ver dois homens parados em frente a um tabuleiro de xadrez era irritante. Contudo, todos naquele lugar estavam ocupados demais para olhar dois gagás filosofando sobre peças imóveis. Eles também, imóveis, não falavam, deixavam o embate transcorrer em suas mentes. Talvez não se conhecessem tão bem, mas um sabia o que o outro pensava, pois pensavam as mesmas coisas.

"Os peões. São muitos e todos iguais. São colocados na frente, como o boi dispensável que é atirado às piranhas para que o resto do rebanho siga incólume. São massa de manobra, capazes apenas dos movimentos mais simples e só por um milagre derrubam peças mais fortes. Estão lá, sustentando oito peças nas costas, mas os holofotes só brilham pra eles quando são promovidos e trocadas por peças mais importantes".

"O bispo me intriga pela sua parecência com seus representantes reais. Não só os homens do clero, mas todos aqueles... eles olham, se mexem e até falam enviesado! Eles estão de um dos lados, mas não atacam de frente... como saber quando virarão para o outro lado?"

"E a rainha? Sempre há uma rainha. Alguém forte no comando, que faz tudo no lugar, mas permanece atrás de uma figura de proa. Alguém que não tem os pés no pedestal, mas não tem uma guilhotina pendendo sobre o seu pescoço. Alguém que reina, sem ser rei".

"E o rei..."

Uma explosão, um tremor e os dois levaram as mãos ao mesmo rei, que caiu. E o que era vidro, se quebrou. Os dois olharam os cacos uns instantes, até que um deles falou:

- E o rei que derramou o sangue de seu povo e de seus soldados, o rei que ouve conselhos enviesados e furtivos, o rei que se deixa governar, o rei acomodado e incapaz acaba por ser consumido por sua própria ganância, ineficiência e estupidez.

O outro puxou um lenço e juntou os pedaços partidos do rei.

- Vou jogá-lo no lixo pra se juntar aos outros reis do mundo. Que um dia estejam lá todas as coroas.

O embate terminara. Os dois homens caducos e sábios que não tinham mais que doze anos decidiram deixar o tabuleiro sobre a mesa. Saíram então para ver a pintura de poeira e fumaça que era a Faixa de Gaza.

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Pois é, escrevi e digitei ainda agora. O texto que fiz domingo na prova do vestiba considerei inadequado. Espero que ler esse daí não seja tão cansativo quanto foi escrevê-lo (hoje foi um dia puxado, embora não de trabalho =D). Acho que não há o que dizer sobre ele, é tudo bem evidente, né? Então, falou!
Ah, só aproveitar essa oportunidade pra desejar a todos os meus amigos sucesso no vestibular (inclusive aos que farão em outros lugares, como Alanna e Minga!). Vocês merecem. Confiança que vai dar tudo certo!

7 venetas:

Gabriella disse...

vc fez p q?hahaha, caramba, eu sou sempre a última a saber,hahaha( lembrei da minha avó - só ela usa "enviesado",hahaha, agora sim entendo o fóssil,hahahah). Muito interessante, adorei os sábios de 12 anos,hahaha

Quintal das palavras disse...

Adorei! Parabéns!

Alanna disse...

muito........ interessante.
ficou legal simplesmente por serem dois velhos de doze anos. sério, esperar que vovôs estudiosos pensem assim é particularmente óbvio, agora imaginar crianças pensando é ótimo...
é claro que é muita maturidade para uma criança, o que deixaria o texto sem base, mas daí falar que depois da explosão eles foram ver a poeira da Faixa de Gaza mostra que são crianças sofridas e, sabe, sofrimento faz crescer.
Logo é pertinente que pirralhos de 12 anos consigam pensar em algo mais ou menos assim se pelo menos já sofreram tanto quanto parece. Se bem que por aquelas bandas, eles deveriam estar na Guerra... @.@
huhu!
gostei. xP

PS: Bom vestibular pra todos nós!!!
_o/\o_

setepistas disse...

Não vou conseguir se polida dessa vez: doido, isso ficou muito bom!
Realmente, acho que só as crianças tem tempo para pensar no meio desse conflito. E também espero ver a coroas no lixo algum dia.

Sobre O jogo do anjo, eu continuo meio mais ou menos com ele. Eu achei o "tá faltando alguma coisa" dele diferente do dom casmurro. Eu tava mesmo afim de saber que era
qual era a do anjo e o que o martín virou no final.

Caio Carvalho disse...

Bicho, vou ser sincero contigo: dentre os teus textos n'A Telha, este foi o que eu mais gostei! Doido, finais interessantes são estes, que nos instigam a reler (a ânsia de reler simplesmente vem)e descobrir os significados antes impensáveis. Os peões, o bispo, a rainha, o rei! Cara, uma análise realmente viva! E o melhor foi aquilo que Alanna pontuou: os velhos são dois meninos de 12 anos!

TCN disse...

Xadrez eh jogo de intelectual. E eh mto facil falar sobre ele. Por que vcs nao postam algo sobre futebol ou Uno? Guitar hero eh uma boa... Eu desafio. Deixem essa obsessão por xadrez!
De brincs.

Arnaldo Vieira disse...

Comecei lembrando de X-men, no meio lembrei da teoria dos dois corpos do rei e acabei na revolução, onde todos os piões tb são rainhas...^^

Só fiquei esperando comentários sobre a torre e o cavalo...rsrs