domingo, 28 de dezembro de 2008

Metalinguagem desvairada


O escritor não está conseguindo ter nenhuma idéia. Não sei descrever cena mais lamentável! Ele se levanta e vai lavar as mãos (o pretexto é se olhar no espelho). Senta. Levanta-se novamente. Vai à cozinha e se serve de uma taça (tinha que ser uma taça!) de água. Volta. Sentado novamente, ele olha para os lados, para cima, para suas revistas, para seus chinelos. “Quem sabe uma idéia com chinelos...” Olha para a taça. A água fora toda bebida. Levanta-se. Dirigi-se mais uma vez à sua cozinha e se serve de mais água. Volta. Senta. “Chinelos...” “Besteira!” O relógio acusa 2h, 43 minutos e 15 segundos, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25...
- Merda!
26, 27, 28. Foi o tempo para ir até ao banheiro. Mira-se no espelho. Orgulha-se dos olhos verdes. “Verdes...” “Besteira!” Lava as mãos. Volta. Senta. Bebe uma pouco d’água. “Água...”
Eu avisei que era lamentável.
39, 40, 41. Ele volta (!) ao banheiro. Apaga e acende a luz incessantemente. Faz caretas. Abre a torneira. Molha a cara. Fecha a torneira. “Você é muito sexy!”, enquanto aponta para o seu reflexo. “Você é muito sexy e as mulheres amam seus olhos verdes!”
Eu não aviso mais (...)
Volta. Senta. Lembra-se do reflexo. Pára por um momento. “Hummm...”, como quem analisa um carro usado!
“O escritor não consegue ter nenhuma idéia”, escreve.
(...)
“Que cena lamentável, vejam!”
Ele tem bom senso, ao menos.
“Não agüenta ficar sentado. Vai lavar as mãos!”
Esqueceu de dizer que o pretexto é se ver no espelho!
“Volta e vai à cozinha para se servir de uma taça de água”.
Uma taça, vejam!
“Volta novamente. Senta e olha ao seu redor. Tenta filosofar”.
Sobre chinelos.
“Quando se espanta, vê que bebeu toda a água da taça. Retorna à cozinha e se serve de mais. ‘Água ainda vai valer mais do que ouro’, reflete”.
Não nego...
“Senta. Nenhuma idéia lhe parece boa. Seus olhos procuram as horas. Jó teria inveja da paciência daquele relógio, que arrasta o tempo morosamente: são 2h, 59 minutos e 57 segundos, 58, 59...”
Céus, imaginem alguém com inveja de relógios!
“3h! Os demônios estão soltos!”
Menos, por favor!
“Levanta e vai de novo ao banheiro”.
Porra, ele gosta de ir para esse banheiro!
“Molhou a face. Enxugou-a. Olha-se no espelho. Sorri. Acha-se bonito. Admira seus olhos verdes”.
Boiola...
“Retorna ao seu assento. Nada de idéias, ainda. Idéias, idéias, idéias! Não vinha uma!”
Que familiar.
“Quando teve certa inspiração!”
Vejamos.
“‘O escritor não estava conseguindo ter nenhuma idéia’, escreveu ele. ‘Era uma cena lamentável’”.
Lamentável!
“Era mesmo”.
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Tive certa satisfação em perceber que este era o último post do ano. De um ano... Bem... Hummm... Impactante, na (humilhante) falta de um termo melhor. Embasbacantes acontecimentos e suas respectivas repercussões vieram ao lume em 2008: Barack Obama, crise mundial, a renúncia de Fidel, as olimpíadas de Pequim e uma amostra do poderio da China, o Grande Colisor de Hádrons, a Telha foi fundada (hehehe) etc., etc., etc.!
Estou curioso para saber o que virá em 2009! Venha! Veremos o que nos aguarda!
E não desejarei “feliz ano novo”! É a frase mais broxante que existe! Desejo um pasmoso, interessantíssimo, reflexivo e resolutivo ano novo!
E, agora, ao texto:
Ele é bem pequeno comparado aos que já publiquei aqui, mas abarcou muitos temas que me atraem profundamente. Além de abarcar um pequeno segredo também. Descubram.
Interpretem, discutam, critiquem, falem bem, falem mal! Fiquem à vontade!
Até logo! =)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Faxina


Trocou o pano por outro que ainda estava branco, esse já estava demasiado sujo. E continuou a lustrar todos os móveis da casa. Quantos panos já teria trocado? Sabe-se lá... Resolveu que precisava fazer aquela faxina neurótica. Era um dia especial, com certeza. Era preciso limpar cada vaso e pôr no seu lugar, limpar cada mesa e deixar no seu lugar, limpar cada cadeira e pôr no seu lugar, limpar cada lembrança e pôr no seu lugar. Queria que a casa ficasse do jeito que ela lembrava quando aconteciam ocasiões especiais. Ligou o rádio e navegou por várias estações até achar a ideal. Comprara flores que arranjou cuidadosamente num vaso bonito sobre a mesa. Distribuiu pratos de porcelana, copos de cristal e talheres de prata, garfos à direita e facas à esquerda - não gostava de convenções. As mantas no sofás eram indomáveis, mas naquele dia até elas resolveram cooperar e não demoraram tanto a ficarem no lugar que ela queria que ficassem. Trocou as roupas de cama, esticou as novas até que não ficasse uma ruga nos lençóis. Varreu a casa uma, duas, todas as vezes. Lavou o chão, enxugou, encerou, esperou. Escolheu na cozinha um tapete que trazia os dizeres "Bem-vindo" e colocou na porta da frente. Pendurou um sino de vento na porta da frente, espalhou naftalina pelo banheiro. Pintou o que podia pintar nas paredes e disfarçou o que não podia. Tirou teias de aranha. Varreu as folhas secas do quintal. Abarrotou sacos de lixo que levou para fora para serem coletados pelo caminhão. Trabalhou com tanto esmero, tanto cuidado, tanto rigor, de forma tal que nunca fizera em sua vida e nunca mais faria.
Fez várias rondas fiscalizando o trabalho, consertando o necessário, até que aprovasse tudo. Foi até a dispensa e pegou a garrafa, cujo conteúdo espalhou por toda parte. Riscou um fósforo e atirou no chão. Depois sentou-se na velha cadeira de balanço e deixou que o fogo consumisse a casa. E ela também.

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Feliz Natal pra todo mundo! Paz, saúde, alegria, seiláoquemais =D

À toda a minha família, aos meus amigos, especialmente os Guetto e os da UFMA (da sala ou do NAJUP): vocês fazem minha vida mais feliz, amo vocês ^^

(Pois é, estou mais velho e o recesso chegou: até minha possível reposição, a vida é bela)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Quatro janelas, duas véia


Lá onde o longe se perdeu
Dizem que ainda estão por lá
Filhas do demo, só pode!
Me benzo só de pensar.

Meu irmão, não se aventure
Pras bandas que eu vou dizer
Fique aqui, me escute
Tu já vai saber porque.

Quatro janelas, uma casa
Uma senda, duas véia
Elas ficam só de olho
Em quem passa em frente delas.

São irmãs ou namoradas?
Isso ninguém vai saber
Eu nem sei quando chegaram
Elas nunca vão morrer.

Os seus olhos são de pinche
Seus cabelos são de arame
Triste, insano, tosco, feio!
Alguém queime essas madame!

Se passar pela primeira
Ela grita seu passado
Nunca busca coisa boa
Não vai ser de teu agrado.

Para alguns, o passado
é intocado, nos inibe.
Essa véia gosta é mesmo
De gente desse calibre.

Quando lá era uma vila
Zombaria não faltava
Escutar passado alheio
Era um prazer que exaltava.

Desde a filha do tendeiro
Que transou com seu irmão
Até as artes do banqueiro
Que roubou foi um milhão
A véia lia sua alma
Sem um pingo de perdão.

Pra quem nada escondia
Nem havia choradeira
Mas se lembre que existe
Outra véia janeleira!

Se passar por essa outra
Seu futuro será dito
Não há reza que acanhe
Nem chame Santo Expedito!

Falam que ela nunca mente
“Isto vai acontecer!”
Pode ser daqui há um ano
Ou depois do amanhecer!

Quer passar lá pelos fundos?
Nem me venha com idéia
Outra dupla de janelas
Lá te espera com as véia.

Logo, logo todo mundo
Do outro tudo sabia
O passado, o futuro
Nada mais se escondia.

O desgosto começou
E a ira foi crescendo
A revolta era clamada
Na bênção do reverendo.

“Vamo punir aquelas véia
Expulsá-las da morada
Lapidá-las sem demora
Pra ficar só a ossada”.

Se juntaram de uma vez
E partiram pro assalto
Bramindo que nem cachorro
Na noite cor de asfalto.

O barulho acompanhou
A tomada do motim
O silêncio, todavia,
tomou tudo lá pro fim!

Pois sumiu-se todo mundo
Na casa da perdição
Nunca mais se ouviu falar
De toda a multidão!

Não se passa desde então
Em frente à moradia
O valente só protela:
“Quem sabe um outro dia”.

E os guris ficam brincando
Só pichando pelo muro
“Lá só passa sem remorso
Homem santo sem futuro”.

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Pronto,banquei o cordelista! De tanto ouvir "Cordel do fogo encantado", me deu vontade de fazer um cordel!E eu já tinha uma estória na cabeça que se encaixava certinho nesta proposta. Foi divertido fazer, mas deu trabalho (e no término eu já não via mais tanto prazer em pensar no que eu ia escrever!). Eu lia e relia os versos, tentando achar a melhor forma de não quebrar a estrututa rítmica. O pior foi que de tanto eu reler, as estrofes foram me parecendo cada vez mais bobas. Mas tudo bem! Terminei assim mesmo! E demorei pra terminar também porque eu estava ocupado com 10.000 coisas nestes últimos dias. Claro que este cordel não chega aos pés de criações tão incríveis como aquela letra da música "Bienal", de Zeca Baleiro e Zé Ramalho, mas a gente tenta! XD
Bom, é isso, até =)
Obs: me inspirei na estória ao ver as janelas da casa de minha vó...Mas achei perfeita esta imagem para ilustrar o clima do enredo. Eu só a escureci ainda mais para ficar um pouco mais sombria.
Retirei a foto deste blog: http://minhaextrema.blogspot.com/2007/04/blog-post_13.html

domingo, 7 de dezembro de 2008

Num banco de praça


Quando me sentei naquele banco de praça, foi para pensar na vida (ou em qualquer outra coisa) e esperar o pôr-do-sol. Por isso, fiquei admirado quando ela chegou. Os casais nos bancos vizinhos (mas felizmente a uma distância considerável) não deram pela presença daquela estranha figura e eu desconfiei que não pudessem vê-la. Isso porque logo a reconheci, ainda que nunca a tivesse visto: era a morte.
- Por que você está aqui? Chegou a minha hora?
Ela não tinha lábios - nem rosto, na verdade-, mas adivinhei um sorriso naquele vulto de branco.
- Eu não sei. Mas fique tranqüilo, não é por isso que estou aqui.
- Não?
- Claro que não. Eu não procuro ninguém, as pessoas que me procuram. Vim porque achei que você estava muito só.
- É bom ficar só às vezes.
- Você fala isso pra mim, a mais solitária das criaturas! Não sabes o que dizes... Nem as outras mortes eu conheço!
- As outras...?
- Claro! Toda pessoa tem a sua. A morte de cada um nasce com ele e o acompanha desde o berço até o leito fúnebre.
- Até que vocês os levem.
- Entenda como quiser! – ela pareceu zangada – Mas acredite, levá-los ou deixá-los está além da nossa capacidade. Se isso fosse possível, você já não estaria vivo há tempos! Tantas vezes que eu quis te levar embora...
- Mas por quê?
- Algumas vezes por pena. Do seu sofrimento, do seu cansaço... Eu queria te proteger das pessoas. Mas admito que na maior parte das vezes foi por raiva. Queria proteger os outros de você.
- Eu não me considero tão perigoso assim... Que mal eu já fiz a alguém? Que mal eu poderia fazer?
- Sugiro que você comece a se conhecer melhor.
- Pelo jeito a sua idéia de mim não é nada boa!
- Mais ou menos. É que a idéia que faço de mim mesma também não é lá essas coisas. E afinal, eu sou só um reflexo de você.
- É?
- Você já leu isso em algum lugar: “meu jeito de viver determina meu jeito de morrer”.
- É verdade, já sim...
- Eu sei, não foi uma pergunta.
- Então, se eu entendi o que você disse... eu sou uma pessoa ruim?
- Bem, no geral... É, acho que sim.
- O que quer dizer que minha morte será horrível?
Ela ficou um tempo em silêncio. Olhou para o chão e depois voltou o rosto para mim:
- Olhe-me. O que você vê?
- Minha morte.
- Muito perspicaz. Diga-me, consegue dizer como é meu nariz? A cor dos meus olhos? A forma do meu cabelo?
- Eu sequer enxergo seu nariz, seus olhos ou seu cabelo!
- Exatamente. Eu sou apenas um vulto.
- E daí?
- Daí que você precisa ir embora.
Verdade. Já estava escuro e eu estava atrasado. Ela se levantou.
- Espere, por favor! O que você quis dizer com isso?
Novamente, um sorriso no rosto sem lábios.
- Na próxima vez que nos virmos, você será capaz de ver cada detalhe em mim. Espero que até lá você encontre a resposta.
E sumiu. Havia nuvens demais no céu. Foi por causa delas ou da morte que eu não vira pôr-do-sol? Levantei-me, os casais ainda estavam lá. E uma das nuvens no céu tinha forma de foice.

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Outro dia eu cheguei mais cedo pro curso de francês e resolvi sentar num banco da praça Gonçalves Dias. Eu fiquei lá sozinho esperando a hora e depois imaginei alguém conversando num banco com alguém que só essa pessoa pudesse ver. Olhei no céu e tinha uma nuvem em forma de foice (pelo menos eu achei) e pensei na morte. Toscão XD

Ansioso pra terça-feira! Acho que essa minissérie "Capitu" promete. Luiz Fernando Carvalho adaptando Dom Casmurro... aposto várias fichas nisso! =]


Sem mais no momento.