terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Quatro janelas, duas véia


Lá onde o longe se perdeu
Dizem que ainda estão por lá
Filhas do demo, só pode!
Me benzo só de pensar.

Meu irmão, não se aventure
Pras bandas que eu vou dizer
Fique aqui, me escute
Tu já vai saber porque.

Quatro janelas, uma casa
Uma senda, duas véia
Elas ficam só de olho
Em quem passa em frente delas.

São irmãs ou namoradas?
Isso ninguém vai saber
Eu nem sei quando chegaram
Elas nunca vão morrer.

Os seus olhos são de pinche
Seus cabelos são de arame
Triste, insano, tosco, feio!
Alguém queime essas madame!

Se passar pela primeira
Ela grita seu passado
Nunca busca coisa boa
Não vai ser de teu agrado.

Para alguns, o passado
é intocado, nos inibe.
Essa véia gosta é mesmo
De gente desse calibre.

Quando lá era uma vila
Zombaria não faltava
Escutar passado alheio
Era um prazer que exaltava.

Desde a filha do tendeiro
Que transou com seu irmão
Até as artes do banqueiro
Que roubou foi um milhão
A véia lia sua alma
Sem um pingo de perdão.

Pra quem nada escondia
Nem havia choradeira
Mas se lembre que existe
Outra véia janeleira!

Se passar por essa outra
Seu futuro será dito
Não há reza que acanhe
Nem chame Santo Expedito!

Falam que ela nunca mente
“Isto vai acontecer!”
Pode ser daqui há um ano
Ou depois do amanhecer!

Quer passar lá pelos fundos?
Nem me venha com idéia
Outra dupla de janelas
Lá te espera com as véia.

Logo, logo todo mundo
Do outro tudo sabia
O passado, o futuro
Nada mais se escondia.

O desgosto começou
E a ira foi crescendo
A revolta era clamada
Na bênção do reverendo.

“Vamo punir aquelas véia
Expulsá-las da morada
Lapidá-las sem demora
Pra ficar só a ossada”.

Se juntaram de uma vez
E partiram pro assalto
Bramindo que nem cachorro
Na noite cor de asfalto.

O barulho acompanhou
A tomada do motim
O silêncio, todavia,
tomou tudo lá pro fim!

Pois sumiu-se todo mundo
Na casa da perdição
Nunca mais se ouviu falar
De toda a multidão!

Não se passa desde então
Em frente à moradia
O valente só protela:
“Quem sabe um outro dia”.

E os guris ficam brincando
Só pichando pelo muro
“Lá só passa sem remorso
Homem santo sem futuro”.

.

.

.

.

Pronto,banquei o cordelista! De tanto ouvir "Cordel do fogo encantado", me deu vontade de fazer um cordel!E eu já tinha uma estória na cabeça que se encaixava certinho nesta proposta. Foi divertido fazer, mas deu trabalho (e no término eu já não via mais tanto prazer em pensar no que eu ia escrever!). Eu lia e relia os versos, tentando achar a melhor forma de não quebrar a estrututa rítmica. O pior foi que de tanto eu reler, as estrofes foram me parecendo cada vez mais bobas. Mas tudo bem! Terminei assim mesmo! E demorei pra terminar também porque eu estava ocupado com 10.000 coisas nestes últimos dias. Claro que este cordel não chega aos pés de criações tão incríveis como aquela letra da música "Bienal", de Zeca Baleiro e Zé Ramalho, mas a gente tenta! XD
Bom, é isso, até =)
Obs: me inspirei na estória ao ver as janelas da casa de minha vó...Mas achei perfeita esta imagem para ilustrar o clima do enredo. Eu só a escureci ainda mais para ficar um pouco mais sombria.
Retirei a foto deste blog: http://minhaextrema.blogspot.com/2007/04/blog-post_13.html

4 venetas:

Ray... disse...

Nooossaaa! Ficou muito legal, adorei! =D Viva o Cordel!
é que o povo anda esquecido dessa literatura popular.

Fóssil disse...

Muito bom! Não se pode dizer, é claro, que tu É um cordelista, mas acho que tu captou bem a essência do cordel: humor, drama, mistério... além do mais a história é muito interessante. Fez-me lembrar das Parcas na Grécia e de Adriana Falcão. Excelente! =D

Kayla DeLeo disse...

Idéia incrível, Caio.
Fazer cordel não é pra todo mundo porque é "arte popular", vamos dizer assim. E é isso que dá o gostinho bom da leitura.

Rimas boas, devo dizer. Sou chatona com esse lance de rima rica ou rima pobre, mas as tuas foram boas. Não dá pra fazer tudo com rimas ricas, e não é só destas que se faz o cordel.

O assunto foi muito, muito bom. Eu ria a cada passagem, não porque era engraçado, mas porque entrelaçaste bem uma estrofe na outra. Como uma janela foi te dar tal idéia?? Fizeste uma história e tanto! Incrível. ;}

Gabriella disse...

Gostei muito, ritmado, até humorístico