domingo, 7 de dezembro de 2008

Num banco de praça


Quando me sentei naquele banco de praça, foi para pensar na vida (ou em qualquer outra coisa) e esperar o pôr-do-sol. Por isso, fiquei admirado quando ela chegou. Os casais nos bancos vizinhos (mas felizmente a uma distância considerável) não deram pela presença daquela estranha figura e eu desconfiei que não pudessem vê-la. Isso porque logo a reconheci, ainda que nunca a tivesse visto: era a morte.
- Por que você está aqui? Chegou a minha hora?
Ela não tinha lábios - nem rosto, na verdade-, mas adivinhei um sorriso naquele vulto de branco.
- Eu não sei. Mas fique tranqüilo, não é por isso que estou aqui.
- Não?
- Claro que não. Eu não procuro ninguém, as pessoas que me procuram. Vim porque achei que você estava muito só.
- É bom ficar só às vezes.
- Você fala isso pra mim, a mais solitária das criaturas! Não sabes o que dizes... Nem as outras mortes eu conheço!
- As outras...?
- Claro! Toda pessoa tem a sua. A morte de cada um nasce com ele e o acompanha desde o berço até o leito fúnebre.
- Até que vocês os levem.
- Entenda como quiser! – ela pareceu zangada – Mas acredite, levá-los ou deixá-los está além da nossa capacidade. Se isso fosse possível, você já não estaria vivo há tempos! Tantas vezes que eu quis te levar embora...
- Mas por quê?
- Algumas vezes por pena. Do seu sofrimento, do seu cansaço... Eu queria te proteger das pessoas. Mas admito que na maior parte das vezes foi por raiva. Queria proteger os outros de você.
- Eu não me considero tão perigoso assim... Que mal eu já fiz a alguém? Que mal eu poderia fazer?
- Sugiro que você comece a se conhecer melhor.
- Pelo jeito a sua idéia de mim não é nada boa!
- Mais ou menos. É que a idéia que faço de mim mesma também não é lá essas coisas. E afinal, eu sou só um reflexo de você.
- É?
- Você já leu isso em algum lugar: “meu jeito de viver determina meu jeito de morrer”.
- É verdade, já sim...
- Eu sei, não foi uma pergunta.
- Então, se eu entendi o que você disse... eu sou uma pessoa ruim?
- Bem, no geral... É, acho que sim.
- O que quer dizer que minha morte será horrível?
Ela ficou um tempo em silêncio. Olhou para o chão e depois voltou o rosto para mim:
- Olhe-me. O que você vê?
- Minha morte.
- Muito perspicaz. Diga-me, consegue dizer como é meu nariz? A cor dos meus olhos? A forma do meu cabelo?
- Eu sequer enxergo seu nariz, seus olhos ou seu cabelo!
- Exatamente. Eu sou apenas um vulto.
- E daí?
- Daí que você precisa ir embora.
Verdade. Já estava escuro e eu estava atrasado. Ela se levantou.
- Espere, por favor! O que você quis dizer com isso?
Novamente, um sorriso no rosto sem lábios.
- Na próxima vez que nos virmos, você será capaz de ver cada detalhe em mim. Espero que até lá você encontre a resposta.
E sumiu. Havia nuvens demais no céu. Foi por causa delas ou da morte que eu não vira pôr-do-sol? Levantei-me, os casais ainda estavam lá. E uma das nuvens no céu tinha forma de foice.

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Outro dia eu cheguei mais cedo pro curso de francês e resolvi sentar num banco da praça Gonçalves Dias. Eu fiquei lá sozinho esperando a hora e depois imaginei alguém conversando num banco com alguém que só essa pessoa pudesse ver. Olhei no céu e tinha uma nuvem em forma de foice (pelo menos eu achei) e pensei na morte. Toscão XD

Ansioso pra terça-feira! Acho que essa minissérie "Capitu" promete. Luiz Fernando Carvalho adaptando Dom Casmurro... aposto várias fichas nisso! =]


Sem mais no momento.

11 venetas:

Caio Carvalho disse...

Cara,que massa! Caralho, tu me empolgou! Porra, dava um curta muito bom se fosse bem adaptado! E poderia até ser encoberto com ares de um thriller! E na praça Gonçalves Dias ficaria ótimo!
Adorei o texto!O tema da morte é um dos meus preferidos e não canso de dizer isto!Porra, achei magnífica a idéia da morte vindo só para frazer companhia! Uma metáfora do pensamento do suicídio! Afinal, o protagonista estava lá para " pensar na vida (ou em qualquer outra coisa)".E o diálogo que se segue com a morte DELE evidência ainda mais que ele sempre pensava no suicídio e que sempre está adiando isto! Pensarão alguns que ele apenas pensou na morte, simplesmente, sem a intenção de se matar!Mas não, penso na idéia do suicídio.
" Tantas vezes que eu quis te levar embora...
- Mas por quê?
- Algumas vezes por pena. Do seu sofrimento, do seu cansaço... Eu queria te proteger das pessoas. Mas admito que na maior parte das vezes foi por raiva. Queria proteger os outros de você."
A fixação neste pensamento e o adiamento de sua realização embebem a figura do protagonista, na minha visão.
E eu gostei da Morte dele. A afaciada morte dele (perdoem meu neologismo). A moldável morte dele. Me pareceu simpática e de conversas interessantes.
Pow Carlos, esse texto ficou muito massa! Está ótimo!
Obs: estou também ansioso para ver este minissérie "Capitu"! =)

Alanna disse...

Caracóis!!
Que legal!!!!!!
Faz a parte 2?? Mata ele?? xD Eu sei que você gosta dessas coisas de matar personagens! Aposto como vai se divertir matando-o.
Desde quando tu fazes francês? Eu também quero fazer. >.<
Mas vou acabar fazendo espanhol primeiro. Nhanf...

Não acho que ele queria se matar, como Caio propôs. Ele me pareceu um cara, ham, de carater forte vamos dizer. O fato deter questionado a morte me pareceu corajoso (além de curioso), não creio que pessoas corajosas se matem assim tão fácil. Sem contar que ele só queria pensar, todos pensam, e porque alguém que queria se matar iria pra uma praça?? (Se fosse em Brasília ele iria pra um shopping - O Pátio Brasil - caso desconheçam o porquê eu posso explicar depois). Na verdade, acho que quem queria se matar era a morte. Ela mesma se descreveu como ruim e disse que cada um tinha sua própria morte, sem contar que estava solitária. Ela pode ter pensado que se matasse o cara, ela morreria também e aí sua solidão poderia finalmente acabar.
*-*
Ahhhhh!
Isso é tão legal!
Mata ele Carlos!
Mata!
xP

Gabriella disse...

Legal...ñ deveria comentar, afinal nem sou lembrabrada nesse blog, mas vai...parece c as intermitencias da morte de josé saramago, vc já leu? perfeito!

Calli.Strange; disse...

muitas vezes fiz isso,em momentos de marasmo ou quando esperava algo em alguém,sentada numa praça eu ficava observando as pessoas,as ações,as reações...
Parar pra pensar em certas coisas que as vezes não pensamos.Parece que bancos de praça são inspiradores.
Eu achei lindo o texto,principalemte pq tem um tom existencial,e falou da morte de uma maneira poética,belíssima.
Muito bom mesmo.

Fóssil disse...

Alanna e Caio, pensei em ambas as possibilidades quando fiz o texto e francamente não consegui me decidir por nenhuma. Acho que as duas são válidas e adorei as análises de vocês. Ah, e cadê a Alanna que brigava comigo porque eu matava meus personagens? Oo' Não sei o que te deu! E tu sabes que eu não sei fazer "Partes 2"... Gabi, pára com isso ou eu te espanco XP E eu nunca li esse do Saramago, mas morro de vontade (foi o primeiro livro do qual ouvir falar dele, mas nunca li! Doidice!). E eu também curto muito fazer isso, Calliandra ^^ Bom, obrigado a todos pelos comentários gentis =D

TCN disse...

ei, tu faz francês?
O máximo!
nao me diga que eh no CII...
com o professor arnaud fox_ ele é lindo!

Caio Carvalho disse...

Correção:
"E o diálogo que se segue com a morte DELE evidencia ainda mais..."
Eu tenho alguma fixação com "evidência", só pode T.T

Fóssil disse...

Não, eu faço no NCL =] E meu professor se chama Fábio e decididamente não é lindo =P E ainda tô bem no comecinho XD

Alanna disse...

ahhh... mata só dessa vez...
é ki eu kero saber como é a morte...
xP
hehe!

Ray... disse...

Show de bola esse texto, cara! =D
adorei a analise de Caio.

Kayla DeLeo disse...

Texto absolutamente muito bom! xD

Adorei o diálogo porque ele pareceu tão comum, como se a morte fosse comum, não assustadora.

Se teu texto tivesse cor, seria cinza. E se tivesse clima, seria uma brisa fina e de um frio aconchegante.

Parece um curta-metragem. Muito bom, muito interessante. Adorei, Carlos. ;}