domingo, 21 de dezembro de 2008

Faxina


Trocou o pano por outro que ainda estava branco, esse já estava demasiado sujo. E continuou a lustrar todos os móveis da casa. Quantos panos já teria trocado? Sabe-se lá... Resolveu que precisava fazer aquela faxina neurótica. Era um dia especial, com certeza. Era preciso limpar cada vaso e pôr no seu lugar, limpar cada mesa e deixar no seu lugar, limpar cada cadeira e pôr no seu lugar, limpar cada lembrança e pôr no seu lugar. Queria que a casa ficasse do jeito que ela lembrava quando aconteciam ocasiões especiais. Ligou o rádio e navegou por várias estações até achar a ideal. Comprara flores que arranjou cuidadosamente num vaso bonito sobre a mesa. Distribuiu pratos de porcelana, copos de cristal e talheres de prata, garfos à direita e facas à esquerda - não gostava de convenções. As mantas no sofás eram indomáveis, mas naquele dia até elas resolveram cooperar e não demoraram tanto a ficarem no lugar que ela queria que ficassem. Trocou as roupas de cama, esticou as novas até que não ficasse uma ruga nos lençóis. Varreu a casa uma, duas, todas as vezes. Lavou o chão, enxugou, encerou, esperou. Escolheu na cozinha um tapete que trazia os dizeres "Bem-vindo" e colocou na porta da frente. Pendurou um sino de vento na porta da frente, espalhou naftalina pelo banheiro. Pintou o que podia pintar nas paredes e disfarçou o que não podia. Tirou teias de aranha. Varreu as folhas secas do quintal. Abarrotou sacos de lixo que levou para fora para serem coletados pelo caminhão. Trabalhou com tanto esmero, tanto cuidado, tanto rigor, de forma tal que nunca fizera em sua vida e nunca mais faria.
Fez várias rondas fiscalizando o trabalho, consertando o necessário, até que aprovasse tudo. Foi até a dispensa e pegou a garrafa, cujo conteúdo espalhou por toda parte. Riscou um fósforo e atirou no chão. Depois sentou-se na velha cadeira de balanço e deixou que o fogo consumisse a casa. E ela também.

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Feliz Natal pra todo mundo! Paz, saúde, alegria, seiláoquemais =D

À toda a minha família, aos meus amigos, especialmente os Guetto e os da UFMA (da sala ou do NAJUP): vocês fazem minha vida mais feliz, amo vocês ^^

(Pois é, estou mais velho e o recesso chegou: até minha possível reposição, a vida é bela)

12 venetas:

Alanna disse...

Aniversário de Carlos!!!
E eu nem falei contigo! Céus que desnaturada! Perdoe-me! T.T
E eu ainda disse ki tu tinha kra de 17 de dezembro? Ou foi de 15?
Nhammmmm... ><
E tu mata a pessoa e dps deseja Feliz Natal?!
Fala sério.
¬.¬
Bj!

Caio Carvalho disse...

Cara, tu realmente gosta de matar as personagens no final! XD
Mas neste caso acho que a morte foi necessária! O texto começa (aparentemente) sem grandes pretenções, descrevendo apenas a minuciosa faxina de uma mulher. Mas bastam 4 linhas no final para que tudo desande e o leitor tome um choque.
Interessante.
Vejo que você novamente abordou a temática do suicídio (sim, não abro mão da minha interpretação do texto "Num banco de praça"! XD), mas nesta última prosa observamos a consagração do fato, já que o personagem de seu penúltimo texto n'A Telha ficava só adiando sua intenção de se anular. Fico me perguntando por que a mulher de "Faxina" se deu o trabalho de limpar toda a casa como se esta fosse unha de santo antes de queimar tudo e se matar. Vejamos alguns elementos da obra:
"[...]Resolveu que precisava fazer aquela faxina neurótica. Era um dia especial, com certeza".
"Era preciso [...] limpar cada lembrança e pôr no seu lugar. Queria que a casa ficasse do jeito que ela lembrava quando aconteciam ocasiões especiais".
Ânsia doentia pelo passado ao ponto de não aguentar a presente situação (a qual não é revelada) de sua vida? Parece claro, avalio. Ela quer morrer não só lembrando de suas vivências passadas, mas DENTRO FISICAMENTE o máximo que puder delas. Era um dia especial, pois.
Esta passagem achei formidável:
"Escolheu na cozinha um tapete que trazia os dizeres 'Bem-vindo' e colocou na porta da frente".
Coisa do acaso? Só tinha este tapete? Bem, tudo é possível. Mas o outro lado é mais atraente: o convite para morrer com ela foi dado! Coisa que só fica mais clara, obviamente, no final. Claro que ela não pensou que alguém fosse entender o convite. Talvez ela não quis perder um último momento de sarcásmo.
Um texto que nos surpreende realmente, Carlos!

Calli.Strange; disse...

A Letra realmente nao é muito interessante caio. Mas caiu bem pro momento que eu estava tentando definir pra mim mesma uhauhauhaha
foi algo bem pessoal =]
mas o Bowie é demais,experimente ouvir a música,creio que irás gostar. ;*

Kayla DeLeo disse...

Gostei do lance que volta e meia vinha à tona do "pôr tudo em seu lugar". O texto é quase musical. (não sei, funcionou na minha cabeça assim...)

Cara.... sem palavras... Qualquer coisa dita será pequena perto da magnitude de sua criatividade. Amei absurdamente esse texto. Ele tem uma ótima seqüência de fatos, é visual, é interessante, é bem escrito (mas completamente acessível a todos os leitores), é imprevisível, foi fnalizado com chave de ouro e você soube a hora de terminar, fazendo-o compacto o suficiente e ainda mais genial do que pretendia.


Bicho, não sei muito, só sei que senti firmeza nesse texto! hahaha

Boníssimo! xD

Kayla DeLeo disse...

Ah! Passei tempinho longe do blog e só agora comentei nos dois posts anteriores a este... Só para que não passe despercebido... =D

Gabriella disse...

ei, vc tem o prazer de me fzer de boba!caramba, falo c vc todos os dias e vc ñ me diz q era seu niver! mil perdões...desculpa, vc me conhece, sabe q sou esquecida msm...pensava q seu niver já tinha acontecido esse ano, é pq o ano voou...lembrava do seu niver do ano passado, vc fez até um texto e colocou no orkut, achei lindo!Ah, sim, parabéns, ainda tá valendo, muita saúde, paz, felicidades, continue sendo essa pessoa q vc é.
Sim, falando do texto, gostei, mas ñ mata mais os personagens, certo?

Unfake. disse...

que conto mórbido pro Natal,afferson Carlos.Te mata,meu filho.

BEM!FELIIIIZ NATAL,pra vocês tambem *-*...vocês dois realizadores desse blog em especial (clichê natalino que eu vou espalhar pelo msn)*____________* e que isso dure muitos anos *-*

Alanna disse...

Carlos conseguiu pôr a foto versão Natal! xP
huhuhu!

Caio Carvalho disse...

Doido...Quando eu vi a foto nessa nova versão pensei que era obra de um hacker de blogs, sério! Depois vi que um hacker não colocaria uma mensagem dessas XD
Ficou bizarro! XD

Calli.Strange; disse...

Es do Najup? que legal!

aaah faxinas são boas,excelentes.Mas as vezes nos falta o material necessário pra organizar o espaço.Em compensação se feita,o resultado é bonito.Tudo brilhando,perfume das flores na mesa...um sentimento de alívio!
Faxinas mentais sã as melhores :)

bom 2009! ;*

Aurélio Carvalho disse...

Parabéns, Caio esse texto é "fodastico", realmente vc tem talento.

Caio Carvalho disse...

Grande Aurélio este texto não é meu, é de Carlos, mais conhecido como Fóssil =)