domingo, 9 de novembro de 2008

A fenomenologia do sexo


Só posso ser muito tarado mesmo. Estudando os pressupostos básicos do método fenomenológico (que consiste em um meio de apreensão dos fenômenos e objetos através da intuição de suas essências) no meu quarto, me pego logo tão naturalmente imaginando qual seria a essência do ato sexual. Claro, fenomenologicamente falando. Vale aqui, portanto, uma síntese deste método para um maior aprofundamento de minhas reflexões: o projeto de Edmund Husserl (1859 – 1938), seu elaborador, consiste, como eu já havia dito, na percepção eidética (relativo à essência) das coisas; àquilo que é imprescindível para a existência de qualquer objeto ou fenômeno. Segundo Husserl, para se chegar a esta essência, o único caminho era a redução, a purificação, por meio de um exercício mental, das coisas de tudo considerado desnecessário, inessêncial a elas, para fazer surgir aquilo de essencial. Em suma: se a partir daqui isto ou aquilo não é mais isto ou aquilo, beleza! Apresento-lhes sua essência.
Mas não devia ser qualquer exercício mental. Se não esculhambava tudo! Há uma técnica que dá garantia à consciência de que se está filtrado só o essencial (calma, já vou chegar ao sexo). A procedência imaginativa deve funcionar se pautando na realidade: “o que não é separável realmente [...] para a percepção, não pode tampouco sê-lo para o pensamento puro” (DARTIGUES). Usando os exemplos de Berkeley: já viste uma cor sem extensão ou um movimento sem um corpo que se movimente? Pois é, este é o espírito da coisa (sem trocadilhos, por favor!). Imaginando todas as variações que algo pode sofrer sem que haja uma destruição deste algo, finalmente, indago a vocês: qual a essência do sexo? O que eu tiro do sexo que faz com o sexo não seja mais sexo? Bem, creio que esta resposta parece fácil e óbvia, mas o caminho que usei para chegar até lá achei interessante, e quero compartilhar com vocês, leitores.
Logo de cara me vêem à mente quatro coisas: O coito, o desejo, o toque, o orgasmo. Irei por eliminação. Há sexo sem desejo. E como! Casais e mais casais fazem terapia reclamando disto em si e em seus parceiros! Não, definitivamente o desejo não é a essência do sexo. É o motivo (e dos bons) para se ter uma ótima relação sexual, mas não é sua essência. O orgasmo, portanto? Creio que também não. Caímos novamente neste mesmo problema: há pessoas (principalmente mulheres) que não conseguem atingir o tão esperado orgasmo no sexo. Digo mulheres porque “o prazer feminino é talvez mais contextual, implica uma série de premissas, ao nível da relação com o corpo, questões da vida, da casa, dos afetos; o que não significa que as mulheres só funcionem sexualmente quando estão muito apaixonadas, mas têm de se sentir bem na situação, são menos imediatas”, citando a sexóloga portuguesa Marta Crawford. Além do que, segundo Crawford, o orgasmo vaginal é um mito. Está certo que existem mulheres que sentem intenso prazer com a penetração, mas estas são a incrível minoria: grande parte não atinge o orgasmo só com o coito. “O sexo não é só uma relação pénis/vagina”, diz a sexóloga. Beijos, abraço, estimulação clitoridiana, carinho, também contam para proporcionar prazer à mulher. A própria definição da OMS para o sexo nem sequer se refere a uma relação coital. E é neste ponto que eu queria chegar. Diante de tudo isso, diante de estabelecermos as mais possíveis variações à existência do sexo, tirando o orgasmo, o desejo e o coito, vimos que há um elemento por trás de tudo e que, sem ele, não há o prazer. Simplesmente o toque, a sensação de contato com o outro. Percebam que ele antecede a tudo. Conseguem conceber sexo sem isto? Eu não. Mas um caso interessante, ao me lembrar dele, quase quebra esta minha argumentação. Quase. Explico: um dia (isso faz tempo) li numa revista que tinham bolado um “coito virtual”. De um lado, o homem, com uma CPU com um buraco simulando a entrada do canal vaginal. Do outro, a mulher, com outra CPU que possuía um vibrador acoplado. Já deu para sacar a invenção: CPU’s genitais! Todos os movimentos que o cara faz repercutem numa vibração no aparelho da mulher. Não há contato físico, claro, e creio que você pode ver o outro pela webcam. Este aparelho foi só uma idealização, mas fico analisando se um dia essa moda pega. Pergunto-me: isto é sexo? Bem, talvez isto esteja em um nível maior que o da masturbação (afinal, você pode ver a pessoa pelo monitor e um pode ver o orgasmo – se houver – do outro). Não seria, portanto, mais o “gozo do idiota”, definição de Lacan ao prazer solitário. Mas creio que faltaria muito para ser sexo entre duas pessoas. No máximo, você estaria fazendo sexo com o seu computador. O contato físico, o toque com o outro, é essencial para se ter, de fato, o ato sexual.
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Falar de sexo é saudável e interessante. Tanto para o casal quanto para todos. Nada de tabus =)

Obs: Em meus próximos posts, para complementar a temática “sexo”, colocarei, TALVEZ, um texto no qual tento reter um certo erotismo na obra “As quatro estações” de Vivaldi. Vai ser difícil... Até porque Vivaldi não compôs esta obra pensando naquilo, analiso eu. Mas como a música se apresenta para cada um de um jeito, quero pôr um pouco de minha visão!
Obs 2: a imagem que eu coloquei é clichezona, mas tá valendo!
Até logo!!!



Fontes: DARTIGUES, André. “O que é fenomenologia?” São Paulo, SP,Centauro editora.8º edição. 2003

Entrevista completa com Marta Crawford (vale conferir):
http://www.angolaxyami.com/Sexualidade/O-sexo-nao-e-so-uma-relacao-entre-o-penis-e-a-vagina-Marta-Crawford.html

10 venetas:

Alanna disse...

Caracóis.
Boto fé. Gostei do desenrolar da coisa. No bom sentido.
Ficou bem explicado, bem elaborado e bem decente.
Hehe.
Acho até que concordo contigo. Sei lá.
Vou deixar pra pensar melhor nisso depois.
Enfim, boa análise.
Também acho que o sexo deve ir muito além do coito.

Ray Wilson disse...

Bem, parabenizo-te Caio por esse texto muito interessante e questionador e hei de concordar que fenomenologicamente observando é dificil buscar a essencia do sexo...
...mas acho q primeiro deviamos pensar o que é sexo????

e indo pragmaticamente pra tua tese... me lembrei de uma musica de rita lee (amor e sexo) que ela relaciona amizade e sexo.... então de forma bem sucinta oq diferenciaria o toque amigavel, o toque materno, o toque fraternal do toque essencia do sexo...???

se puder sei lá ... discutir isso seria muito massa...
vlw

Kayla DeLeo disse...

Esse texto dava uma matéria ou uma coluna interessante em uma revista.

Bem embasado, bem estruturado, limpo (nem eu sei exatamente o que isso quer dizer, mas me veio essa palavra à cabeça! =D ), bem decente (como Alanna já disse) e bem concluído. Pelo menos a mim conseguiste convencer com sua análise. Ainda estou a pensar sobre o assunto e sobre sua conclusão, mas realmente expuseste um ponto bom.

Cara, ficou parecendo muito matéria de revista, das poucas que eu leria! =P A foto é clichê mesmo, mas o texto 'paga a fiança'. =D

Fóssil disse...

"Esse texto dava uma matéria ou uma coluna interessante em uma revista" [2]

Interessantíssimas as tuas idéias, Caio. Deve ser essa mesma a essência do sexo: o toque. O que eu fico em dúvida é se podemos dizer que só há "toque" fisicamente. Nesse sentido, acho que pode haver um "sexo virtual" - que, claro, pode não substituir o sexo carnal propriamente dito e tampouco seria esse exemplificado no texto com as CPUs genitais que me parece deveras estranho Oo' - se as partes se sentirem "tocadas" uma pela outra. Acho que há formas de tocar a outra pessoa, inclusive sexualmente, que não dependem do corpo (e isso é muito importante também numa relação sexual 'carnal' a meu ver).
Enfim, o texto me deu muito o que pensar (sem trocadilhos, por favor [2]).

Calli.Strange; disse...

Nada de tabus,meeeesmo! Interessante a anlise fenomenologica do fato. Muito mesmo.
Caio,vou seguir teu blog x)

TCN disse...

Cara, continuo achando a mesma coisa que achava. Sexo é prazer e esse prazer é transmitido por ondas cerebrais.Tudo se resume a neurônios. Há sexo sem toque, da mesma forma que há amor sem toque ou ódio sem tapas.
Bah, prefiro os contos!

Caio Carvalho disse...

Discordo de você, minha cara Ticiana! Veja bem a proposta da minha análise: a essência do ato sexual! Tu me relatas que no filme "O demolidor", o personagem principal "faz sexo" com uma mulher por meio de cabos que interligam o cérebro do casal, certo? Eles "fazem" sexo, mas não fazem sexo, me entende? É uma simulação! O que eles nada mais fazem é obter prazer por meio de uma "Matrix do sexo"! Quase a mesma coisa das CPU's Genitais! O sexo propriamente dito eles nunca fizeram!É esse o ponto o qual sempre defenderei: sexo sem o toque, sem o contato físico não existe!Há amor sem toque, há ódio sem tapa, mas sexo?A essência do ato sexual não é o prazer! Até porque, como eu disse, há sexo sem prazer.O que o pessoal do "demolidor" faz é uma simulação do ato sexual. Obtêm prazer? Obtêm!Mas quem os vê de fora observa a mesma coisa de quem vê a plateia de um cinema 3D: a coisa mais ridiculamente engraçada do mundo!

Caio Carvalho disse...

E não só de contos consigo viver!

TCN disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aurélio Cbjr disse...

Parabéns, Caio vou começar a visitar esse blog com mais frequência. Bela análise que vc fez, Concordo com vc, não existe sexo sem toque, sem sentir a outra pessoal.

abç