Aviso I:
Este texto era bem mais enodoado e politicamente incorreto. Dei umas (grandes) cortadas “a la Fernando Meireles” nele e mudei seu rumo.
Aviso II:
Este texto é um tanto pessoal.
Não sei por que me prontifiquei a escrever esta experiência. Talvez fosse a última fonte de prazer que pude me lembrar. Fonte de pingos ralos e escassos. E sujos. Enquanto escrevo, a fera que está em minha cabeça dorme. Alívio. Antes ela não me deixava dormir! Não me deixava nem sentir pena de mim. Tudo bem, minto. Um pouco de pena senti (isso ela não pôde me tirar!). Mas a impossibilidade da raiva foi algo inédito. Estou sendo sincero, acredite: a fera na minha cabeça (localizada na parte frontal esquerda, para ser mais exato) não me deixou sentir raiva! A fera, meus leitores, para esclarecer, era a dor. Uma puta dor. Intensa,impetuosa, incansável, profissional! Tanto que até roubou minha raiva, como já havia dito! Ela só me permitia senti-la. Ela só queria que eu a sentisse! Clamava escandalosamente pela minha atenção. Estava me desejando. Um desejo doente, bizarro. Ela me queria só para ela! Vejam, leitores: ela estava disposta a se dar toda só para mim! Só faltou se matar para querer chamar meu tento! Antes tivesse feito isso! Eu a amaria, assim! Mas não. Se assim fosse, ela me obrigaria a ir junto. O que evidencia nela muito egoísmo... E sadismo, por que não? Ela adorou meu sofrimento, adorou toda a atenção que, forçosamente, dei, e adoraria com certeza minha reluta em morrer com ela. Minha cabeça ia rachar e a dor lambia os beiços. Nem gritar eu conseguia e ela se molhava de tesão por isso (que engraçado, o Microsoft Word diz para eu colocar no lugar a palavra “excitação” – perdoem, gente, ele tem vergonha, que gracinha!). E quando eu descobria um caminho para gritar, ela, maliciosa e receosa, se intensificava ainda mais e sussurrava em meu ouvido: “você é meu. Não é do grito. Nem da raiva. Nem seu. Meu!”. Caso parecido com o filme “Louca obsessão”. Quem viu, sabe!
Com o pouco que ainda me restava, fui ao neurologista. Eu queria separação, um divórcio! Naquele momento o médico virou juiz – e ele nem se deu conta disso. Eles nunca se dão conta, na verdade. Não percebem que estão lá para separar casos de amores insanos e sádicos. De amor não! Isso não pode ser amor! De paixões! Paixões obsessivas e não correspondidas! As doenças têm tanta paixão por nós, querem tanto nossa atenção, que desejam que nós morramos com elas. Isso me faz lembrar, por acaso, um texto do nosso grande cronista Nelson Rodrigues. Um texto que ele relata um caso realmente de amor. Vamos a ele (perceberão que há uma grande relação com a paixão das doenças): era um casal jovem. Ele de dezessete e ela de dezesseis. As famílias aprovavam o namoro. Já iam ficar noivos (!). Estava tudo lindo. Certo dia, porém, o casal sai para visitar uma tia e lá não chega. Dia seguinte, encontraram os dois juntos e mortos em um determinado local. Ao lado, um vidro de desinfetante e um bilhete assinado por ambos, no qual estava escrito “morremos felizes”. Nesta hora, o cronista revela o espanto que sentiu quando viu esta matéria no jornal e solta uma genial conclusão: “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. E encerra a crônica. Interessante. Muito parecido, repito, com o desejo ardente das doenças por nós. Que não é amor, insisto. Sei, no entanto, que alguns torcem a cara e dizem que nem o próprio amor escapa de ser tão belo assim. “Todo amor é amor-próprio”, já dizia Nietzsche, lembram? Discordo. Diria que toda paixão é amor-próprio. Esta sim é centrada no eu e no que o outro pode me proporcionar de prazer. Amor é outra coisa. Raro, difícil, sim, mas nada impossível. Gosto desta frase que Liane Alves escreveu sobre o amor na revista Vida Simples: é “pedir licença e tirar a si mesmo da frente”, em favor do outro. Minha dor, que foi o cartão de visita de certa doença (que já direi qual é), não me amava, não queria morrer comigo. É diferente. Queria que eu morresse com ela. Por ela. Mesmo que fosse à base da marra! Mas deu para me separar! O divórcio foi concluído e pude resgatar minha raiva, minha gostosa, deliciosa raiva! Que grande satisfação! Duvido que consigam imaginar igual satisfação! Os “juízes” cumpriram seus papeis: o neurologista viu que se tratava, na verdade, de uma forte sinusite, e o otorrinolaringologista confirmou o diagnóstico deste, passando uma santa medicação. Hoje a fera está imobilizada e amordaçada e tenho certeza que vive ainda sonhando com sua paixão mórbida. Ainda bem. Não espero que tenha morrido. Seria uma saída muito suave para ela. Espero que esteja sendo carcomida por um mastodôntico sofrimento e por uma demente agonia! E que permaneça assim, na dor da falta de liberdade, na dor do silêncio, na dor do sonho impossível!
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Bem, como eu havia dito, este texto é um tanto pessoal, baseado em uma forte dor de cabeça que tive por uns 3 dias. O texto era bem mais pesado, pelo fato de eu ter começado a escrevê-lo horas depois de ter tomado as primeiras medicações, fora de minha casa. A raiva estava voltando. Em casa, com a mente calma, o revisei melhor, tirando algumas partes um tanto sórdidas e o concluí. Há um elemento neste texto que não deu para tirar. O encarem como uma virada de bateria que eu tive que repetir para que a música pudesse funcionar.Se eu bolasse outra, só por bolar, a música estragaria, entendam.
Bem, é só isso. Espero que gostem!
Até mais =)
Obs: a sugestão da imagem foi de Kayla! Ela disse que ficaria bom se eu fotografasse o texto manuscrito original. Adorei o resultado, valeu =D
17 venetas:
Primeiro, a sugestão da Kayla foi ótima! De cara, adorei a imagem. Muito massa.
Adorei o texto também, é claro. Isso de metaforizar algo real ficou excelente. Já me senti assim em relação a algumas doenças e ultimamente qualquer dor de cabeça tem se tornado um suplício, já que eu desenvolvi uma inexplicável e repentina alergia a vários painkillers (que absurdo, esqueci o nome em português Oo'). E eu diria que assim como a doença tem paixão por nós, certas paixões são como doenças, ainda que disfarçadas de amor. Podem ser doenças mais silenciosas que uma dor, mas não menos fatais: monotonia, conformismo, submissão, hipocrisia... Sim, o amor é realmente uma coisa rara. Mas eu acredito nele, acreditem se quiser. E acredito que vale a pena procurar (mas não faz mal nos divertirmos até achar =D).
Outra coisa: fiquei curioso pra ler o texto original! Manda pra mim depois? =D
as vezes o neurologusta realmente nao resolve o caso.Na maioria das vezes uhauauhaua
Bom texto,caio.
as vezes escrever algo pessoal é legal.eu smerpe faço isso. é como extrair palavras,colocar pra fora coisas de nós mesmos.
Beijos ;*
Não se prefiro a raiva à doença. Mas se a raiva nos permite sentir pena de nós mesmos, mais que a doneça, acho que fico a raiva mesmo. Auto-comiseração, gosto tanto disso. Belo txto. Adorei a imagem, também.
Ah,e é pra esse falso do Carlos saber que eu vou fazer o questionário(no sete pistas), mesmo não sendo visitante vip da telha ¬¬'.
Vc escreveu em papel amarelo! *-* Ki legal! Meus manuscritos nunca saem assim bonitinhos. ¬.¬
Cara, como tu podes pensar em paixão devido uma dor?
Incrível.
Eu já tinha pensando muitas coisas sobre paixão, e já tinha chegado a comparar com doença também, mas nunca tinha feito o contrário. Fascinante.
E eu já li o livro que originou o filme "Louca Obsessão" (em inglês se chama "Misery").
Acho que a dor é terrivelmente semelhante àquela mulher do filme.
Agora, por que o prazer de voltar a sentir raiva?
Ah! Quero escrever aquilo no Word também pra ver se ele diz a mesma coisa pra mim. ^.^'
Paz.
Meu Deus, ainda vão me perseguir com tochas e forcados ¬¬" Eu nunca te vi comentando na Telha e Anau precisava ter alguém pra quem passar o questionário, criatura.
Eu escrevi "tesão" no Word mas ele não disse nada. Até meu Word é pervertido XD~
Esqueci de acresecentar que as vezes vomitar sentimentos como a raiva,é importante.Somos sinceros conosco quando fazemos isso.E as vezes não resistir as tentações é o melhor que se tem a fazer,mesmo que as consequencias sejam irreversíveis...
Esse texto me fez refletir sobre isso.
Muito bom mesmo.
:*
1. "O que evidência nela certo egoísmo"??
Teu WORD não corrigiu isso? (evidencia_verbo)
2. Como todo mundo tá dizendo, admito: o texto tá bom e talz. Viu? Historinhas são mais legais.
Historinhas íntimas são très legais.
3. Qual é o teu problema com os médicos? Ou melhor, qual é o CRM desse neurologista aí? =D
4. As pessoas gostam mesmo é de auto-piedade. Por isso tanto empenho em procurar a dor, manter a dor e amá-la. A dor é prazer. Um veneno anti-monotonia. É assim, inocente e desastrosa como qualquer paixonite profunda.
Cuide-se.
Aloha
1. Pow, mas tu é chata! XD
UM pequeno errinho que passou despercebido.Detalhes!
2."Historinhas"? hehehe, eh...
3. Não estou criticando neurologista nenhum! Ele me passou um remédio e o otorrino me passou outros também!
Cumpriram com competência seus papeis!
4.Hummm....Forte sua opinião sobre a dor (com relação à dor física, 'tô fora!). Mas há pessoas, de fato, que sentem prazer na melancolia, em um certo sofrimento! Cuidado é para não se afogarem! Tua opinião dava uma análise interessante!
Para Alanna:
Por que tanto prazer na raiva? De fato: ela é o mais inútil dos sentimentos...Mas isso não quer dizer que ela não seja útil! Tanto que até para eu escrever este texto ela se revelou ser um tanto proveitosa. A dor quase não me deixou nada para sentir a não ser ela mesma! Ela foi realmente veeemente!Fui sincero quando disse que a dor não permitia que eu sentisse raiva, mas às vezes me pergunto se a raiva foi realmente toda roubada.
(...)
Eu acho que na verdade ele pode ter escrito 'evidencia' e o Word ter acentuado automaticamente. Acontece direto comigo...
oi fossil.
é neh, nao gostou de ser chamado de "fossil" e nao "fÓssil".
Poisé. "Evidencia"_tadinha_ se sentiu menosprezada. Pensa nisso.
Iêi! Ponto pra mim! =}
A foto ficou boa mesmo. O texto, idem. Que coisa... =D
Em comparação inevitável com o texto original que eu tive a oportunidade de passar os olhos em cima, realmente este é uma versão leve do outro. Apelos completamente diferentes. Mas ainda assim, dois textos muito bons. Parece que duas pessoas diferentes escreveram, pois este que você postou é bem leve e "literário", vamos colocar assim. O original era bem mais denso e cru. Acho que tua adaptação foi algo mais "a la Smeagol"!! hûhûhûhû ;P
Prefiro não dar opinião sobre o lance da dor e da raiva e de todos os sentimentos que rondaram seus dias, pois estarei sob o risco de parecer uma série de coisas que, não, não me importo de parecer, mas prefiro não expôr tanto a minha figura... vamos deixar os comentários na superfície. ;}
Só sei que as pessoas gostam sim de sofrer dores, algumas físicas, outras não. Do contrário, ninguém mais se apaixonaria ou se arriscaria na vida, porque tudo isso requer coragem de se machucar e de então sentir dor. Sendo assim, de certa forma, estar vivo e andar sobre a Terra deixa subentendido que vamos sofrer. Só de sair da barriga da mãe a criança já chora por receber ar nos pulmões!...
Mas enfim. Tua criatividade me inspira. É isso. Abraço.
Na evrdade, eu não reparei nisso, Ticiâna =D Vai que a evidência é desligada como eu? XD
Ei Fós, pelo menos tu escreveu Ticiâna, e não TicianE_ticianE é coisa de interior.
Não fica irritadinho ou cobro a minha bola de vôlei_coitada, agora é lenda (1 ano depois).
;D
hahahaha Eu achei engraçado, Tiçiana, não fiquei irritado não ^^
Cara, muito bom... p mim é dos melhores textos q já li seus( conheço bem essa dor de cabeça, SOFRO de sinusite), acho q vc conseguiu resumir a raiva q tbm me dá qndo tenho uma crise e acabo desmarcando tudo q planejei semanas, p passar um dia c dor em casa...simplesmente sem palavras,vc tem o dom,hahahah, ei, vc nunca respondeu se queria o link c todos os livros de conan doyle p baixar
Percebe-se, seu "fássil"
até mais um post. Vou viajar e trago um fossil do Piaui pra ti_ um fóssil de verdade.
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