domingo, 12 de outubro de 2008

Vontade


O Destino não conseguia dormir. Muitos pensamentos. Levantou-se e se pôs a refletir sobre sua conversa com o Bem que tivera dias antes. Conversa curiosa; O Bem fala muito bem, escolhe as palavras com maestria, e o Destino sempre desejou ter sua destreza oral. Aquele comentava seu relacionamento amoroso com o Mal. Não agüentava mais esse namoro. Não agüentava essa mediocridade. Não agüentava mais estas transas. Queria outras! Quem sabe com o Sentido, talvez. Sabia, no entanto, que não podia alterar a tão famosa ordem natural das coisas. Pediu, assim, ao Destino, que alterasse tudo. “Creio que alguém que dorme com o Azar e a Sorte na mesma cama e que os possui nas mãos pode realizar tal favor”, completou, maliciosamente (...). O Destino continuou olhando sofridamente para os olhos do Bem. Voltou-se novamente para seu jogo de Xadrez gigante, e, sem mover a cabeça, perguntou calmamente: “Pedes, então, que eu inverta a lógica do meu trabalho... Por que me pedes isto?”. “Ora. Que pergunta! Para o bem de todos. O seu bem, o meu, de todos”, respondeu quase rindo. “O meu?”, se espantou gentilmente. “Sim. Até pouco tempo dizia que estava farto de apontar a direção de cada ser!” “Falei por falar! Cansado qualquer um ficaria, mas eu agüento e sempre agüentarei isto!”, protestou. “Mesmo? E sua ânsia pelo amor correspondido do Acaso? Sei que tu dormes apenas com o pretexto de deixá-lo livre por algumas horas e espiá-lo de vez em quando em ação. Tu admiras a liberdade imprevisível dele! Deseja-a! Mas falta-lhe coragem de se declarar, tens medo! Pois aqui estou para isso. Quem sabe com meu empurrão não resolves meus sonhos e se inspira para realizar os teus?”, respondeu o Bem, energeticamente. “E quanto ao restante?”, questionou inabalável, o outro, com o peso da responsabilidade. “Os outros? Ficarão livres!”. “Eles não tem a macrovisão que tenho”, pontuou o Destino com sua gélida calma (e quem sabe com uma ponta de orgulho). O Bem disse que não era preciso pressa; ele viria mais tarde pra saber a decisão final.
“Como o Bem sabe do meu amor pelo Acaso?” Achou melhor nem perguntar na hora. Teve medo da resposta. Dirigiu-se novamente ao seu jogo de Xadrez monumental. “Por que meu adversário demora tanto para jogar?”, pensou. “Por quê?”. Interrompendo suas reflexões, o Mal grita e bate na porta.
- Quero conversar! Abra! E logo!
Sem dizer nada, o Destino girou a chave e abriu o trinco. O Mal foi logo entrando.
- Soube que o Bem esteve aqui. Estranho... Sobre o que conversaram?
- Como soube disso?
- Não importa! Sobre o que conversavam?
- Por que não pergunta a ele?
- SOBRE O QUE CONVERSAVAM?
O Destino ficou incerto. Olhou para os lados. Soltou aquele ar cansado, impaciente. O Mal lá, bufando. O que se fala ao Mal?A verdade? Decidiu que sim, de qualquer jeito, ele iria saber mesmo...
- Bem... O Bem não está tão satisfeito com o relacionamento de vocês...
- E...?
- Ele quer que eu altere tudo... Ele quer outros casos... Muito me espantou, se me permite comentar, essa natureza promíscua dele...
- Ah! Era isso? E eu preocupado...
- Acho que não entendi... Agora mesmo que ficas despreocupado?
- O que pretendes fazer a respeito?
- Sabes muito bem minha resposta...
- Não irá atender ao pedido dele? Pois agora sou eu quem deseja também que tu alteres tudo!
- Tu também?
- Claro! Achas que só o Bem está insatisfeito? Achas que o quero? Achas que se eu pudesse, já não teria me separado dele? Nem sei como não tive esta idéia de lhe pedir este favor... Destino, eu não agüento mais!
- Pedir este favor? O que me pedem não é um simples favor!
- Você é medíocre! Tu sabes que pode mudar tudo com um simples bater de palmas!
- Por isso mesmo não posso ficar mudando tudo a torto e a direito. – disse com sua habitual voz inflexível.
- Tens medo! Covarde! Essa tua prudência totalitária me irrita! Liberta-me, liberta-te e liberta os outros! Seja justo com eles!
- Vens tu me falar de justiça? Logo tu?
- Destino, já estou perdendo minha paciência e... Que diabo é isso?
O Mal aponta para o jogo de Xadrez gigante.
- Ah... É meu jogo de Xadrez. Estou nesta partida há milênios!
- Contra quem?
- Não sei.
- Como?
- Não sei quem é meu adversário. Não me lembro quando comecei a jogar; só sei que desde sempre jogo com alguém que não sei quem é.
- Mas vejam... Quer dizer que há coisas que o próprio Destino não sabe... Há milênios, você disse?
- Sim. – disse escondendo o desgosto pela zombaria - Demora porque ele demora a jogar. Chego há esperar 500 anos para ele mover uma peça. Ele sabe que sou melhor.
- O que ganhas se ganhar?
- Não sei.
- E se perder?
- Também não sei.
- Perca!
- Como é que é?
- Perca logo de uma vez! Vou te contar: tu gostas de sofrer, credo!
- Eu não! Acredito que esse jogo deva ter alguma importância!
- Tem nada! Perca logo! Ali, bem ali, abra uma brecha para ele prender teu rei. Tire o cavalo da frente!
- Por que queres que eu perca?
- Tu queres continuar isso mesmo? Vá em frente, perca! Céus, tenha pena de si! Não vale a pena ficar neste jogo!
- Estás blefando!
- Imbecil! Pensa bem: não queres liberdade? Sei que queres! Leio em seus olhos que queres! Não me enganas com esse teu papo de certinho! O primeiro passo é renunciar este jogo tolo! Nem sabes contra quem joga e o porquê! Vale a pena? Já não estás cansado de decidir tudo?Então larga tudo!
- Vá à merda! Vá embora daqui!
- Se tu és aquele que escolhe, por que não escolhes por ti?
“Essa foi no âmago! Droga! Dar uma de fraco na frente do Mal? O pior é que suas palavras me seduzem! Não posso me render a ele... Se bem que até o Bem quer isso... Onde já se viu ambos querendo algo igual? Intrigante. Quem sabe se eu tentasse... Não!Não!” Trepidou. Pensou em levantar a mão para tirar o seu cavalo do caminho. Por um momento acho que posso afirmar que o vi mexendo os dedos. Quando um homem acorda. Tonto, esfrega os olhos. Desliga o infeliz despertador que o acordara. “Filho duma puta!” Levanta e, cambaleando de sono, vai molhar sua cara na pia. “Sonho doido”, pensou. Leva a mão à fronte. “Que merda...”, com uma voz frouxa. E vai tomar banho.


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Vendo o filme "A máfia no divã", o protagonista , ao tentar interpretar o sonho do mafioso, enfatiza que Freud frisou que podemos ser qualquer um dentro dos nossos sonhos. Não sei se o cara que fez o roteiro realmente leu Freud (vou até pesquisar se Freud disse realmente isto), mas achei interessante. E arrisco uma possível extenção da afirmação: desconfio que podemos ser até todo mundo dentro do sonho!Mas quero saber também a visão de vocês, leiores!Fiquem a vontade! Sinto curiosidade em querer saber a interpretação de vocês sobre este sonho (o qual nunca sonhei; é apenas fictício). Viajai! =)

6 venetas:

Fóssil disse...

PERFEITO!

Tu é doido, adorei.
Eu já tentei fazer textos personificando assim as coisas, mas nunca consegui fazer mais que uma coisa que mais parecia aquelas correntes de email ¬¬'

O bem desposa o mal... isso é muito interessante mesmo. E o Bem me pareceu um tanto astuto, de uma astúcia quase maligna. Como se ele quisesse se separar do Mal não para fazer apenas o bem, mas como se ele quisesse fugir da fiscalização constante pra também aprontar umas e outras.

Mas eu fiquei curioso pra saber quem estava jogando com o Destino (pobre coitado! Tão pesado o fardo que ele carrega). Pensei em Deus, no Homem, na Vida, ou até mesmo no Acaso.

Acho que vou ler de novo e continuar pensando =D

"10. Nota 10"

Alanna disse...

O.o
uhhhhh!
Imaginei Caio acordando com a cara amassada e o cabelo mais bagunçado do que nunca. AUShAusasuaHsuAHSu.
Imaginei que o sonho não era teu mas imaginar um personagem igual a ti foi bem legal. xP

Gostei muito da história. E também achei que o Bem era meio malvado. Deve ser a convivência dele com o Mal.
O Mal estava perfeito e o Destino também.
O Xadrez... todos têm um destino e ninguém o sabe realmente qual é, nem o próprio Destino.
Não acho que o fado dele é pesado. Acho que não pra ele.
Eu quero saber como é o Acaso. *-* Na minha mente ele é super meigo. *¬*
AuhaUsAUSAUShAUShASu.
Beijuuuuuuuuuuh!

Gabriella disse...

Amei o jogo c as palavras, o bem e o Bem... muito bom!

Kayla DeLeo disse...

É um texto absolutamente incrível. A relação do Bem com o Mal é uma coisa muito interessante e, saindo da ficção, muito verdadeira. A ligação entre as coisas mais abstratas possíveis (Acaso, Destino, Bem, Mal, Azar, Sorte) foi feita com grande maestria. Achei brilhante cada colocação.^^

O lance do xadrez também foi muito bacana. Na minha humilde e sincera opinião (jogada cada vez mais aos sete ventos!), quem joga com o Destino é a humanidade. De tempos em tempos, mudamos algo que vai de encontro com o curso natural das coisas, e aí entra a jogada do Destino... =}

Essa coisa de "podemos ser até todo mundo dentro do sonho" me lembrou o filme Identidade, aquele do cara que tem uma porrada de personalidades e uma delas é assassina, e o psiquiatra, psicólogo, sei lá!, quer botá-las em confronto para curar o cara e tal... Pois é. Acredito nas múltiplas personalidades dos sonhos também. Mó da hora! =P

Thaís Araujo disse...

Caio, tá muito bom esse texto, muito bom! Absolutamente.

Eu por alguns momentos pensei no Destino como o próprio Deus, mas depois, pensei como Carlos... A rara intervenção de Deus com o Destino. Pensei na possiblidade do Livre Arbítrio que Deus nos concede estar configurado na partida de xadrez...
Aliás, o que é o Livre Arbítrio senão um jogo em que você escolhe os movimentos, mas pode acabar preso dentro deles?

Nem sei mais o que pensar.... E o Bem e o Mal? me lembrei de yin e yang... que é um clichê, mas tem sentido....


ah, vou dormir pensando em interpretações!!!!



nota 10000, caiô!!!!

Yasmin disse...

Caio,

Sobre a qualidade do texto não preciso nem comentar,
O mais interessante é como ele é completo e lacunoso, permitindo a opnião diversa de cada um, ai vai a minha.

Não sei porque, mas eu imaginei o Destino e o Acaso como um só personagem. Ao contrário dos outros que se completavam.

O Destino era exatamente o Acaso e vice-versa, num caso de dupla personalidade. Ou seja, o Destino não jogava contra Deus ou contra a humanidade, ele jogava contra o Acaso, contra ele mesmo. Que de noite, desarrumava as peças que havia progredido de dia, só pra nunca ter que acabar o jogo.

Beijos..
:**