Há uns quatro anos, minha mãe ganhou um cacto no dia das mães. Era um daqueles cactos ornamentais, simples, não devia ter mais que oito centímetros no máximo. Lembro que ela adorou o presente, mas lamentou porque esse tipo de cacto não costuma durar muita coisa, até as flores enxertadas neles são artificiais. Na época minha casa passava por uma conturbada reforma (se a sua vida já ficou de cabeça pra baixo por um ano inteiro, você sabe como é. Senão, melhor nem imaginar) e estávamos morando na casa da minha avó. A reforma acabou, voltamos para casa e o cacto ficou por lá.
Hoje por acaso eu vi o cacto lá. Depois que saímos, a minha avó cuidou dele. Ela disse pra minha mãe que a planta tinha crescido e pediu pra ela comprar um vaso maior. E pra minha surpresa, o cacto realmente vingou! Não deve ter menos que trinta centímetros agora! Achei aquilo incrível, a planta realmente tinha um desejo imenso de viver. E isso me levou a pensar que os homens talvez não sejam tão diferentes dos cactos.
Quando penso no cacto, não vejo tanta beleza nele que o faça tão popular. É só algo verde e, pior, com espinhos. Uma planta pra áreas secas, como querem os livros de biologia. A maior beleza do cacto, talvez, seja aquela que não se pode ver. É uma planta resistente, forte e – chamem-me de louco ou não – ótima companheira. Nunca ouvi falar de ninguém que tivesse sido traído por seu cacto, a não ser que essa pessoa o tenha traído antes.
Os seres humanos também são belos. Ou pelo menos eu acredito que sejam. Mas não em sua superfície, mas na essência, se é que existe a essência do ser humano. Eu acredito que nós, tão assustados com o mundo que nos cerca, guardamos o que temos de melhor a sete chaves em algum lugar dentro de nossas almas, um lugar que a maioria de nós sequer lembra que ainda existe, envolto por uma corrente de medo e selado por um cadeado de estupidez. Não compreendemos que ao tentar resguardar esse bem que nos é tão caro é que acabamos por destruí-lo O bem, como o amor, só se multiplica ao ser dividido.
Há ocasiões, porém, em que esse bem vem à tona. É estranho, mas é em meio à “feiúra” que emerge a maior beleza do Homem. É em meio á dor, a tristeza, o ódio que a humanidade se mostra bela, ao pegar as mãos estendidas, ao enxugar lágrimas, ao dar um abraço ou um sorriso, ainda que amarelo. Acredito que nenhuma linguagem seja tão universal quanto a dor. Penso nos velórios e em todas as pessoas desconhecidas que entram porta adentro para rezar com os parentes e amigos que choram. Voyeurs do sofrimento alheio, diriam alguns. Talvez, mas não é o que eu percebo. Seja porque temem que o mesmo lhe ocorra, seja porque algo parecido aconteceu com alguém que lhes era caro ou até mesmo por um motivo desconhecido, mas enquanto repetem a ladainha em uníssono, a dor dos outros os tocou, tão forte e profundamente que foi capaz de libertar a beleza da sua prisão, ainda que por pouco tempo.
A Humanidade pode, assim como o cacto, crescer forte e bonita, se acreditarem nela. Contudo, é preciso ter cuidado. Os espinhos dos homens são muito mais violentos e afiados que os do cacto. Além disso, enquanto o cacto não requer grandes cuidados, é preciso não descuidar sequer um minuto dos humanos. E nunca esperar dos outros o primeiro passo, ele nunca será dado. É preciso amar senhoras e senhores, porque só o amor nos põe no lugar da coisa amada e só ele nos permite enxergar a beleza de suas imperfeições.
E foi assim, olhando um cacto, que eu descobri que sofro de um utopismo incorrigível. E de um platônico, talvez não-correspondido e irremediável amor pela raça humana.
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Eu olho e olho e não sei de onde saiu esse texto nem o que eu quis dizer com ele exatamente. Não tem nada a ver com texto que eu tinha em mente, mas tudo mudou quando eu vi o tal do cacto (aliás, o post tá sem foto porque eu ainda vou tirar uma do dito cujo pra pôr aqui). Eu ultimamente tenho tido uma série dificuldade pra concluir meus raciocínos, como vocês hão de perceber (ou ter percebido) no texto. Paciência. Aliás, obrigado pela paciência e perdão pela demora.
Até a próxima!
(merda XP)
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
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5 venetas:
Saiba que tu és correspondido.
Pelo menos por alguns outros incorrigíveis.
Porque, afinal, também sofro de tal enfermidade.
Saudades
eu não gosto da humanidade.
e jah fui traída por um cacto.
>.<
nhanf... e ele ainda resolveu me deixar depois de me fazer sangrar.
mas não deve ser verdade quando digo que não gosto de humanos.
nos acho verdadeiros egoístas mas morro de dor ao ver outro como eu sofrendo. mesmo que não conheça.
acho que no fundo, ao contrário do que digo dos humanos, eu ainda tenha um coração "humano".
Tenho uma inexplicavel simpatia por cactos. Eles estao na minha lista de futuras coleções.
Agora por humanos, a coisa complica um pouco. Uma incontrolavel relação de amor e odio. Mas no fundo acho que prevalece o amor. Prefiro, assim como tu fossil, acreditar na humanidade, nem que seja com um pe atras.
bjao
"É estranho, mas é em meio à 'feiúra' que emerge a maior beleza do Homem [...]". Um crítico de uma revista cujo nome não me lembro quando analisou o filme "Ensaio sobre a cegueira" falou a mesma coisa. E completou: "... e o que de mais feio temos também".É vero. E Carlos nos lembra muito bem isto no final do texto: "A Humanidade pode, assim como o cacto, crescer forte e bonita, se acreditarem nela. Contudo, é preciso ter cuidado. Os espinhos dos homens são muito mais violentos e afiados que os do cacto". Egoísmo, altruísmo, fé, descrença, ódio, companheirismo. Somos interessante, temos tudo isso. Temos o embrião da solidariedade e as ervas daninhas do conflito e do egoísmo. Há aqueles que optam pelo segundo caminho, outros, o segundo.Se tenho fé na humanidade?Sinceramente, não sei. Às vezes acho que sim, outras que não. "Não tenha fé na humanidade. É só olhar para a História e verão que ela pode lhe trair", disse certa vez (não exatamente com estas palavras) um psicólogo o qual não me lembro o nome, mas que fez uma incrível palestra. E completou: "tenha fé em alguns setores da humanidade, não nela toda.Nela você deposita sua confiança". Cada um com sua visão.
A minha? Devo ter algum resto de confiança, no âmago da essência do meu eu. Sei que existem pessoas que podem optar pelo primeiro caminho. Mas, claro, devemos nos lembrar (como sabiamente disse Carlos) de" nunca esperar dos outros o primeiro passo [...]" Fé é interessante,mas é bom que também tomemos certas atitudes. É difícil, é. Como podemos tomar? Acho que a palavra-chave é esta: respeito. Nesta palavra se esconde, talvez, todo o segredo de uma convivência saudável. Tentemos focar nossas ações nela.
Engraçado... Eu sempre me peguei dizendo para pessoas bem próximas que não gostava dos seres humanos. Sempre os achei cheios de complicações, cheios de caminhos tortos, cheios de segundas intenções e, maior que tudo isso, muito diferentes das outras coisas da natureza.
Apesar de verdadeira amante da natureza, nunca tive relações com cactos (sem trocadilhos, por obséquio...¬¬). Realmente são plantas fortes e muito resistentes, mas sempre gostei mais da grama... Verdinho rasteiro é mais minha praia...=}
Talvez, em meio a tanta (auto-)destruição, o homem possa sim ser belo. Talvez o homem seja "lobo do próprio homem". Talvez ele seja digno de todo o perdão por suas inconseqüências. Talvez não perdoá-lo seja pura hipocrisia... Ou talvez, em nossa "sorte", vivemos em um mundo fadado a sucumbir por falhas humanas. (E olha que eu não acredito inteiramente em fado...)
Mas eu bem acredito na boa natureza de certos homens... e também na má. (Afinal, racionais sim, mas ainda animais.)
...A chave de tudo é mesmo o respeito. E o verbo de tudo é mesmo amar. ;)
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