
O inferno estava lá, já funcionando como tinha que funcionar. Nada de mais. Boa parte do pessoal já se encontrava de pé. Pois é: um novo dia no inferno começa! O telão do centro então avisava: o calor permaneceria. Sempre permaneceu o mesmo, e pelo jeito jamais irá mudar. Não sei por que anuciam ainda a temperatura! Deboche, tenho quase certeza. O Governo? Tirania. Do diabo, sabem? O regime nunca mudara. Imagine só uma revolução no inferno! De longe, curiosíssimo, convenhamos. Mas não dá. Policiamento pesado, aquele. Nem reclamar pode. Tentaram uma vez para nunca mais. Isto foi no começo, quando ainda não se tinha uma noção clara do lugar. Coitados. Tiveram que comer fezes por três anos. Merda de todos do inferno!E é muita merda. E se recusassem a comer, os guardas de lá lhes seguravam à força e enfiavam-lhes um arame pela uretra, sem piedade. Isso sem contar o sofrimento que já tinham que passar sem ter feito nenhuma reclamação (...). Houve um dia, se não me engano, que apelaram aos santos lhes enviando uma carta. Em vão. A resposta? “Sinto muito, mas isto já não está sob nossa jurisdição”. É... As coisas não são fáceis... Ainda mais se você for um condenado a passar uma eterna estada no inferno. Você literalmente come o que o diabo jogou fora, bebe somente sua saliva, dorme no chão sujo ao lado das labaredas que revestem este mesmo chão, é violado nasalmente pelo fétido cheiro de tudo quanto é coisa podre e infecta que pode haver naquele lugar, não há o que fazer, não há o que pensar, não há por que ter esperança. Esta é sua vida agora. Esta será sua sina. Jamais irá mudar. Jamais, ouviu? O inferno é a suma homenagem ao sofrimento, agüente. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor”, escreveram certa vez nos muros decrépitos de lá, em letras rasgadas, esta frase de Guilherme de Brito. Pois é, tem gente no inferno que também curte MPB, ora. Mas justamente quem cometeria a insensatez de sorrir em um lugar desses? Pois sorriram. Mas de espanto, de estranheza; quase uma zombaria. É que viram uma pétala de rosa no chão. Sim, naquele chão imundo. Logo aquele chão imundo e infecundo. No entanto não demorou muito para que a frágil pétala fosse imediatamente consumida pelas labaredas, acabando-se, assim, a estranha novidade. Mas... Esperem! Engano. Logo mais adiante avistaram mais outra pétala, e mais outra, e outra, e outra, e outra, e outra... Meu Deus! Está chovendo pétalas de rosas! Do céu vermelho do inferno já se podia ver um batalhão colossal delas adentrando na atmosfera abafada e seca. Elas desciam graciosamente, sem preocupação, como se estivessem se divertindo, como se estivessem dançando. Brancas, avermelhadas e rosadas, iam de um lado ao outro, imitando as borboletas de Zé Ramalho e Alceu Valença. Rapidamente, elas foram preenchendo tudo o que a vista podia alcançar. Uma onda de aroma doce, leve logo brigou com o fedor característico do lugar pela atenção olfativa dos condenados. As pétalas iam acariciando a pele queimada, suada e imunda destes últimos, em movimentos sutis, calmos, como se elas soubessem da dor que estes carregam nos corpos. O alívio e a estranheza, a contemplação e o medo (sim, por que não?), a gênese da alegria e a desconfiança trocaram olhares. “Que porra é essa?”, se indagavam. Os condenados viam aquilo sem entender nada. No entanto, à medida que o afago das pétalas foi alimentando os corpos de satisfação, muitos logo se renderam à situação. Sem nem pensar, fecharam os olhos e abriram os braços para as pétalas, deixando-as acarinhar e banhar ainda mais seus corpos, esquecendo instantaneamente do lugar de sua sina. Sorriam como nunca. Um sorriso sincero, espontâneo, de refrigério. Até se espantaram com o fato de ainda deterem a capacidade de sorrir... E de chorar, mas de alegria (...). Outros, no entanto, ainda se recusavam a acreditar no que estava acontecendo, olhando para tudo aquilo com os olhos arregalados de espanto, sem nenhuma reação, apenas perguntando um ao outro se o diabo tinha ficado doido. “Mas ora! Que tenha ficado!” E se juntaram ao primeiro grupo. Ainda houve aqueles cujo sofrimento enrugou profundamente a alma. “Pétalas nada irão fazer nada por mim”, e ficaram num canto. “Antes água do que isto”. Não os culpo.
Logo que caiam no chão, as pétalas eram tragadas pelas labaredas, em um encontro voraz, esfomeado, de súbita combustão. Mas logo vinham mais outras de cima (da onde, afinal?), e o espetáculo nunca parava. De longe, o diabo via tudo, de cima de uma montanha. Não estava gostando nada disso. Já ouviram aquela máxima de que felicidade alheia incomoda os outros? Pois é, foi o que aconteceu com o capeta. Aquela situação o perturbava. Já ia mandar seus guardas darem uma surra naquela gente, quando as pétalas começaram a rarear. De trilhões, passaram à casa dos milhões. Dos milhões, às centenas. Das centenas, às dezenas. Das dezenas, a uma só. Uma. Que logo foi consumida pelo fogo. Não sobrou nenhuma. “Cadê? Acabou?" Pelo visto, sim. “Ainda vem mais?” Não sei, quem sabe. Deu pena (...). Para piorar, as feridas começaram a arder agudamente de novo, o cheiro escroto e nauseante voltou a reinar, o calor ignorante se fez ser sentido novamente, e a fome e a sede voltaram a berrar. O diabo imediatamente mandou um dos seus funcionários fazer um inquérito sobre aquilo que acabaram de presenciar. E, para não perder o costume, mandou seus guardas darem uma surra naquela gente. Com tudo o que têm direito.
(...)
A chuva de pétalas não voltou a aparecer.
O inferno contina funcionando como tem que funcionar.
Os condenados continuam sofrendo.
Mas, de vez em quando, alguém ainda arrisca olhar para cima.
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Me inspirei nesse texto ao ouvir "Ostia", faixa 8 do Álbum "Dante XXI" do Sepultura. Uma música que começa violenta e ignorante, com o vocal rasgado de Derrick Green e a guitarra brutal do Andreas Kisser, mas que , aos 01:19 min, nos apresenta um divino solo de violoncelo. Divino mesmo. Incrível. O interessante é que o solo não deixa jamais de ser acompanhado pela pesada guitarra. Este momento da música é tão único e fantástico que não consigo expressá-lo por meio de palavras. Falo "único", "fantástico", mas são expressões muito vagas, imprecisas. Tento passar um pouco da minha visão deste solo neste texto: uma chuva de pétalas de rosas no inferno! Primeiramente pensei em uma chuva de pétalas em cima de um vulcão, mas achei que "no inferno" soaria mais de acordo e até mais interessante.Creio, no entanto, que ainda não consegui passar nem 50% do que pretendia neste texto (até por que os 100% são impossiveis), mas tudo bem...
Ah! E ouçam essa música, aconselho =)
Até a vista!!!
5 venetas:
Caio, não sei onde tu vais parar. Só sei que que cada texto teu revela mais e mais talento. Eu vi uma vez Ziraldo dizendo que ele sabe que o que está lendo é bom quando aquilo lhe desperta inveja, uma inveja do tipo "puxa, COMO eu gostaria de ter escrito isso". Pois é, COMO eu gostaria de ter escrito isso, cara! Mas acho que pra mim é melhor ainda ler um texto tão fabuloso. É necessária uma sensibilidade poética incomum pra se ter uma inspiração assim a partir de uma música (e olha que eu conheço a música!).
O tipo de texto que todos deveriam ler, pra se lembrarem de de vez em quando olharem pro céu, em busca de petálas. Parabéns!
PS: Como ninguém é de ferro, naquela parte de "tiveram seu nariz violado" (ou algo assim; não posso copiar de lá porque meu mouse tá quebrado XP) advinha o que eu pensei? Sexo nasal! XD
Uau...
Não é "puxa-saquice" não, mas o texto é lindo. Lindo mesmo. Minhas palavras agora certamente não farão jus a quão belo ele é!
É até bobo de tão óbvio dizer que tu tens muito talento, Caio.
Como sua marca, a presença da música nos momentos mais inusitados dos textos! hihihi.
Devo dizer que sou looouca pela frase de Guilherme de Brito! Eu já a escrevi em muitos dos meus cadernos.^^
Altamente visual, o texto. Dava um curta maravilhoso, sem dúvidas.
Amei... simplesmente amei.
Na real? Trouxe lágrimas aos meus olhos.
Perfeito. =)
Não tenho palavras para descrever o que há realmente dentro de mim ao deparar-me então em meio a essa chuva...
MINHA VIDA ACABOU DEPOIS DESSE TEXTO!
Quanta perfeição,MELDELS Caio,que horror,tu é BOM!Ai,não consigo falar mais nada...mel dels,mel dels x.x...esse texto tá perfeitamente perfeito,tudo que eu falar vai soar clichê demais x.x,mas tá PERFEITO,SOCORRO!
Espero que eu possa sempre desfrutar as chuvas de pétalas sobre minha vida, porque eu tenho certeza que elas são Divinas xD~
adorei o texto, Caio, me acrescentou um valor sem dimenssões...
;*
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