domingo, 28 de setembro de 2008

As simples peripécias um tanto originais de Dário

Parte I: música

Dário sempre teve mania de originalidade. Odiava clichês. Já estava no final da casa dos 80 e decidira que viveria mais do que nunca em um combate fulminante contra tudo que era lugar-comum. Coisa de quem está a procura do que fazer? Quem sabe. O fato é que ele realmente levava essa guerra bem a sério. Começou a ouvir Blind Guardian, Red Hot Chilli Peppers, Satriani, Public Enemy, etc. ao pedir conselhos para seus netos a respeito de novos nortes musicais. Ouvir Bossa Nova e Jazz nessa idade era muito comum. Morte ao comum! Ficava vendo novelas e comparando seus roteiros. Anotava capítulo por capítulo. Tinha horas que pulava da cadeira e gritava colericamente: “Tudo igual!” Jurava que ainda iria escrever um livro. O nome? A questão da originalidade. Não é um tanto clichê esse nome? “Esta é a intenção!”, explicava com um ar triunfante. E continuava: “Consegue encontrar algo 100 % original hoje em dia? Quer algo raro? Eis tal coisa. Sobre isso meu livro irá falar”. Às vezes desconfio que jamais escreverá isso. O sonho do livro talvez seja mais interessante a ele.
Outro dia, caminhando na beira-mar, ouvindo seu mp3, deparou-se com um estupendo pôr do sol. Aquilo pedia uma música para ser ouvida! E, mesmo já estando ouvindo “Kuolema Tekee Taiteilijan”, do Nightwish, fez uma cara feia. Não! Seria uma música muito previsível para se ouvir vendo tal espetáculo!Mudou a faixa. Veio “Far Way”, do Apocalyptica. Não de novo! Mudou. Dessa vez apareceu “Sing Sing Sing” da orquestra de Benny Goodman. Você mesmo não disse que era comum homem de tal idade ouvir Jazz? “É verdade”, pensou Dário. Mas achou interessante o efeito da música sobre o contexto. Não tinha muito a ver. E curtiu. Não era tão comum ouvir tal música vendo o pôr do sol. Era precisamente o que estava procurando. Mudou novamente a faixa. Veio “Give it way”, do Red Hot Chilli Peppers. Deu uma gargalhada. Estava se divertindo vendo os efeitos dessas músicas inusitadas para a ocasião. Parecia criança. E enquanto continuava caminhando, a idéia de começar a prestar atenção nessas diferentes conotações que a música proporcionava às situações foi tomando sua mente. Encontrara algo formidável. Não sabia precisamente o que, mas achou o gosto dotado de uma sutil doçura. "Quem sabe isso pode não parecer tão original, mas cada situação que este mecanismo cria é sim", consolou-se. Lembrou-se do filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Gostou de como pensou.
No caminho de volta, presenciou um assalto. Estava ouvindo “Take Five”, executada pelo Dave Brubeck Quartet. Na opaca realidade, tal ato com certeza pareceria brutal, rude, lamentável. Porém seu bom senso nessa hora simplesmente se fundiu. A cena ficou tão leve. Os ladrões pareceram leves. Terrivelmente estupendo. Escondeu-se para apreciar. O sax manhoso, quase preguiçoso (arriscaria dizer), o galanteador piano e a delicada bateria banharam de charme a cena. Um charme sujo. Uma elegante agressividade. Seu Dário surpreendeu-se consigo. Que estranho admirar isso! Passado o assalto, retirou os fones de ouvido. A vergonha aumentou. Baixou a cabeça, encostou-se, pensou. Se pega enfrentando a si mesmo. A recente paixão por essas novas visões falou mais alto. E conclui: “felizes são os cineastas”.
Ao andar em direção à parada de ônibus, “Assim falou Zaratrusta”, de Richard Strauss ,começou a marcar seus passos. A placa com o desenho do ônibus pareceu-lhe dotada de uma incrível grandiosidade. Estremeceu. A cada passo sua figura ganhava uma magnitude ímpar. Vi ali um cavaleiro apontar para o outro lado. Virei. O ônibus estava se aproximando. Meu coração começou a bater violentamente. Comecei a suar. Era como ver chegar aos meus pés a carruagem de Deus. Vi os anjos. Vi os arcanjos. Ouvi suas cornetas anunciando sua chegada. Derrubo uma lágrima. Parada na minha frente, a porta se abriu. Uma ânsia, uma euforia toma conta de mim. Na minha frente, surge aquele que guia a carruagem do Todo-Poderoso. Vestido de azul e com um olhar decidido, acena para que eu entre. Ofegante, sento-me nas cadeiras da frente. Ao acabar a música, Dário volta a si. Coça a cabeça. "Meu Deus, que merda. É só um ônibus e um motorista".
Já no seu prédio, esperando o elevador, a porta se abre. Começa a tocar “Whole Lotta Love”, do Led Zeppelin. Várias pessoas já estão lá dentro. Entra e aperta o número de seu andar. Olhando todos naquele lugar apertadinho, a música, sensual e energética, começa a envenenar sua mente. Dário sorri ao observar o olhar cansado dos seus companheiros de elevador. O que será que estão pensando? Aquelas guitarras injetavam uma idéia de libido. E havia clima de libido naquelas pessoas. Só que elas não sabiam, ou quase. Havia uma mulher lá. Uma linda mulher, para usar um eufemismo. E que eufemismo! Que mulher! E Dário era observador. Nos segundos que ficou no elevador, presenciou um bombardeio de olhadas masculinas para o corpo da senhorita em questão. Embaladas pela música, toda essa vontade sexual coletiva ganhou uma selvageria brutal. Os olhares ficaram mais famintos. Foi um show de lascividade. A natureza da sexualidade ficou tão escancarada ao som de Page, Plant, Bonham e Paul Jones que seria interessante se oferecessem para tocar isso em motéis. Um por um foi saindo de dentro do elevador. Só restou Seu Dário. E a mulher. Aquele riff orgástico empapava sua mente. Desregradas imagens lhe lambiam a cara. Cuspiam no seu rosto. Provocava-lhe a ponto de sentir uma gostosa raiva. Sentiu-se desafiado. Uma vermelha impaciência lhe moia. "Rebole para mim". E ele imaginava, imaginava...Corpo com corpo, no mesmo ritmo, num mesmo feeling. De repente, acabou a pilha do mp3. O elevador se abriu. "Até logo". "Boa noite", respondeu ele. E acompanhou o movimento do corpo dela saindo. Claro, repare novamente o eufemismo, por favor.
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Saudações leitores!
Há muito tempo vinha discutindo com Fóssil a possibilidade de fazermos um blog juntos. E aí está! A Telha, um blog destinado a todo tipo de reflexão! Seja sobre sexo, sobre maçãs, sobre calculadoras, sobre a mente humana, tudo estará aqui! Ao menos, tentaremos! XD
E, para começar, eis esse texto! Está um pouquinho grande, mas espero que gostem! =)
Obs: creio que esta prosa só funciona melhor se o leitor conhecer pelo menos 2/3 das músicas citadas!
PS: (se é PS, é do Fóssil XD) Estamos muito felizes com esse blog, tá em gestação há tempos, e tudo nele ainda é proivsório, até mesmo o nome, então não se espantem com ocasionais mudanças. E esperamos os comentários de todos sempre ;). Falou.

8 venetas:

Estilhaço na estrada disse...

Uma figura esse seu Dário XD.Eu gostei muito desse texto,tu misturou muitos sentimentos,com a ídeia da música...deu um toque todo pessoal e ORIGINAL (remetendo a ídeia central da personagem) ao texto.

Fóssil disse...

Eu acho que Caio vai ser muito parecido com o seu Dário quando for velho, hehe.

Esse negócio de misturar música e realidade (porque música não é realdiade, né, Carlos? ¬¬) é muito teu, Caio. E realmente isso dá um toque de originalidade e singularidade especial ao texto que, além disso, tem uma história muito bacana!
Parabéns!

Estilhaço na estrada disse...

AH EU ESQUECI DE FALAR ISSO,eu tambem achei o seu Dário um pseudônimo de Caio hahahaha

Thaís Araujo disse...

Exatamente o que eu disse a Caio, Seu Dário é uma personalidade dele.

Bem, provavelmente daqui há uns 50 anos, quando não existir mais mp3 (e Caio vai ser o velhinho com radinhos de pilha dos dias de hoje), e nosso amigo for escutar musicas, a trilha sonora será a mesma.

Carvalho disse...

Pow, muito obrigado pelo apoio =)

Gabriella disse...

Muito bom o texto, achei super interessante a ligação entre música e realidade ( mil sensações q a música pode te trazer ). Já sou fã do casulo, e acho q vou virar , ou já virei, fã dA TELHA tbm

Alanna disse...

o.O
sinistro.


Me matei de rir ao imaginar um velhinho de 80 anos caminhando pela rua ouvindo mp3!

AUShausahsuAHSuaHSuAShAUSh!

Kayla DeLeo disse...

Tb achei e até já falei para o autor do texto que ele era Seu Dário (com uns anos a menos...=D). Mas é um texto muuuito bom. Leve, visual, inteligente e possui ótima dinâmica. Parabéns para o Sr. Carvalho. =}